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6. PROPOSTA PSICOEDUCATIVA

6.7. Desenvolupament de la proposta

Neste tópico pretendo desenvolver uma análise da experiência de acolhimento, explorando as contradições da instituição para a subjetividade do adolescente acolhido.

Ao pensar a adolescência lembramos que ela marca a transição do estado infantil do sujeito para o estado adulto em sentidos multideterminados. São transformações decorrentes do espaço corporal, do pulsional, do afetivo, bem como do social e, conforme nos mostra Levisky (1995, p. 17 e 19), o processo da adolescência engloba aspectos que podem ser considerados universais, desde as civilizações primitivas até as mais modernas, como a aquisição da capacidade reprodutora, centralizada no tabu do incesto e no significado da representação totêmica. É sob estas condições que se determina a busca de um novo objeto de amor, fora da família. Esse autor ainda acrescenta que qualquer que seja o contexto sócio cultural, a adolescência será um período de crise e desequilíbrio.

Na reflexão de Levisky (1995) existe grande complexidade na passagem adolescente devido às discrepâncias nos processos de maturação fisiológica, psíquica e social, onde não há definido um ritual de passagem e existe a necessidade deste adolescente galgar várias etapas até que possa acessar o status adulto. Assim, fisicamente ele está apto a exercer suas funções sexuais, mas tem diante de si as forças da cultura, da sociedade e os riscos do desejo da liberação destas funções.

Andreozzi (2001) descreve o tempo adolescente como um movimento pendular. Para esta autora, o sujeito adolescente estaria preso a um fio que o segura, a uma inscrição. Este fio passa por oscilações que dependem de vários fatores desde o ponto onde o fio está pendurado ou o tamanho dele. Pendurado ao fio, o adolescente passeia e pode olhar para o lugar onde o fio está preso, para o ponto onde ele está preso no fio e para os diversos lugares onde o fio em que está preso o conduz. Então, para Andreozzi (2001) o tempo adolescente seria um movimento em que o jovem começa a produzir seus balanceamentos próprios:

Se antes ele dependia do movimento do fio para se movimentar, mesmo produzindo ali balanceamentos próprios, agora ele pode se utilizar do fio, de modo a movimentar-se para onde deseja; movimentar seu desejo no fio, movimentar o fio no ritmo de seu desejo... Este movimento lhe imprime uma direção marcada pelas escolhas que faz. Desenha um percurso, percurso para se tornar sujeito de seu desejo. Impulsionado pelas ondas da oscilação – e pela oscilação das ondas...o adolescente encontra-se entre o desejo de permanecer no fio e/ou cortá-lo. A questão seria, então, de um trajeto desejante de habitar um novo território – o corpo adulto sexualizado (Andreozzi, 2001, p.21).

Ao pensar no adolescente institucionalizado percebe-se haver uma escancarada negação deste estado adolescente, alimentando nos jovens circunscritos aos muros do abrigo uma impossibilidade de exercer seus desejos e sua sexualidade. Naquele lugar ainda são crianças que necessitam da proteção e são assim tratados, como se essa transição e suas transformações só pudessem ocorrer após atingir a maioridade. Na instituição de acolhimento todos devem ser “bons meninos”, fazer o que é mandado, não deixar aparecerem as transgressões e as rebeldias, não questionar a ordem vigente, não provocar nenhum transtorno. Não podem desejar namorar, isso é colocado como “proibido”. Na instituição não há lugar para o exercício da sexualidade, ávida por novas experiências. Sobre esse estado e essa passagem de ebulição pulsional deve ser colocada uma luva e o adolescente em isolamento.

Tal qual é discutido por Marin (2002, p.163) o adolescente, para nossa sociedade é como um estrangeiro, ou estranho (unheimlich), na concepção freudiana: algo familiar à vida

psíquica que se tornou estranho a ela pela repressão. Esse sujeito, segundo a autora, está em busca de filiação e de reconhecimento. Deseja encontrar no social o lugar que lhe foi prometido e, muitas vezes, está inacessível. Dentro dos abrigos os adolescentes ficam à margem do social, não podem “buscar” suas histórias, suas filiações e seus reconhecimentos, pois não lhes é permitido desejar, sentir. Muitas vezes frequentam igrejas, um dos únicos ambientes possibilitados pelas instituições ou, esporadicamente, casas de madrinhas. Nesses ambientes precisam seguir todas as regras, pois caso transgridam, perderão a proteção da instituição e poderão ser denunciados à justiça e tornarem-se, paradoxalmente, delinquentes. Se fugirem da instituição de acolhimento, serão procurados pela polìcia. Como “fugitivos” passam a se esconder das mais diversas formas, onde haja uma brecha de sobrevivência.

O adolescente não pode, no abrigo, ser incômodo, não pode demonstrar suas turbulências, suas faltas e seus vazios. Na instituição é determinada a morte do momento adolescente.

No encadeamento a essa ideia de morte de um momento de vida que permeia a institucionalização, percebe-se haver um impedimento para conquistar-se a construção de uma identidade, já que ali é negada ao sujeito a liberdade e o direito de “ser” em seus desejos. Na conclusão de seu artigo sobre a vinculação afetiva de crianças abrigadas, Oliveira e Próchno (2010, p. 83) dizem que é remota a possibilidade desses sujeitos institucionalizados desenvolverem vínculos afetivos significativos já que as rupturas tão frequentes os atingem em sua segurança pessoal, em sua confiança em si e no outro e configuram-se em relações mal elaboradas psiquicamente. Acrescentam que comportamentos de agressão, retraimento, irritabilidade e distanciamento, assim como comportamentos de rápida e intensa aproximação, indicam provavelmente a carência e a pobreza afetiva em que vivem esses sujeitos em condição de institucionalização.

Dadas tais premissas, nota-se que o desamparo permeia as vivências dos sujeitos institucionalizados, os quais ficam impedidos, de certa forma, de se desenvolver e de estabelecer laços significativos que lhes deem alguma sustentação psíquica de reconhecimento e importância. Do desamparo, das situações traumáticas, da elaboração dos lutos ou da entrada na posição melancólica se constitui o sujeito abrigado até a maioridade e, sobre esses aspectos, direciono agora novas discussões.