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In document Þingvellir National Park (sider 7-10)

Diante das reflexões apresentadas nas seções precedentes, podemos indagar: que conceito de cognição pode ser aplicado à interpretação de metáforas? Ou, ainda, que imagem de mente emerge da convergência dos modelos de que dispomos para entender os processos cognitivos complexos manifestados em um fenômeno como a metaforização?

O termo cognição, conforme foi visto, não possibilita uma definição unívoca. A depender dos pressupostos teóricos ou dos critérios metodológicos defendidos pelos modelos apresentados, encontramos definições e tipologias diversas.

É obvio que apoiamos a opinião de autores como Mascuschi, quando afirmam que “num certo sentido a linguagem caracteriza-se como uma forma de cognição” (MARCUSCHI, 2003, p.44). Isto bastaria para justificar a inclusão de aspectos cognitivos em qualquer análise linguística. Todavia, problemas há quando, na tentativa de atrelar ou circunscrever elementos cognitivos à metáfora, o pesquisador sente-se motivado a “recortar”, por questões epistemológicas ou metodológicas, o fenômeno cognitivo observado.

Somos cônscios da necessidade, à medida que decompomos nosso objeto de estudo, de uma metalinguagem cada vez mais refinada para dar conta das possíveis particularidades e modos de apresentação desse mesmo objeto. Mas, ao mesmo tempo, é

preciso cautela para não limitar a atividade cognitiva a uma determinada teoria da metáfora. Não é de todo coerente se falar em metáfora cognitiva exclusivamente como a metáfora conceitual, já que a materialidade linguística, de algum modo, integra a atividade cognitiva da interpretação.

Lembremos que, já na proposta aristotélica, é preciso considerar de algum modo a presença de algum tipo de cognição, pois, do contrário, não evidenciaríamos a surpresa ou o enigma proporcionado pela metáfora na transposição do sentido. Com efeito, só existe metáfora porque existe um intérprete, um agente cognitivo (um corpo) que experiencia o mundo. Mas, por outro lado, a interpretação realiza-se sobre um plano da expressão, no caso, a superfície linguístico-textual, espelho das práticas sócio- comunicativas de uma dada cultura.

A garantia de que nossas hipóteses estão ‘corretas’ (ou, pelo menos, são aceitáveis como tais até prova contrária) não será mais procurada no a priori do intelecto puro (mesmo que dele se salvem as formas lógicas mais abstratas) mas no consenso, histórico, progressivo, ainda temporal da comunidade (ECO, 1997, p. 88).

Daí, ser preciso falar em uma cognição distribuída. Toda metáfora é, de alguma maneira, cognitiva. As duas coisas são indissociáveis. Ademais, quando a metáfora surge no texto, nenhuma teoria permanece imune à semiose textual, de alguma maneira hibridiza-se com outras propostas teóricas.

Em outras palavras, há sempre uma lacuna explicativa, uma incompletude, quando uma teoria faz um recorte teórico-metodológico radical na relação cognição / metáfora. Por isso, acatar uma acepção satisfatória que exponha todas as potencialidades de significação e utilização do termo cognição em relação à metáfora não é tarefa simples. Contudo, esperamos ter-se evidenciado em nossa discussão que cada proposta aqui apresentada deve ser valorizada por tomar para si um aspecto importante do fenômeno cognitivo.

Diante disso, em vez de optarmos por questionar se as metáforas são linguísticas ou cognitivas, o importante é deixar claro que linguagem e cognição não se separam na dimensão textual/discursiva. Ou seja, deveríamos tentar explicar, de forma exaustiva, a manifestação da cognição, sobretudo no momento da imbricação da metáfora nas categorias linguísticas e textuais, de modo que o alcance teórico ou

operacional do termo seja adequadamente explicitado, sem que haja uma visão redutora, por ampliação ou delimitação terminológica. É preferível, e mais sensato, propor um modelo de cognição aplicado ao texto metafórico no qual predomine uma gradação de pressupostos teóricos igualmente válidos e aplicáveis ao objeto estudado.

Leiamos o texto abaixo:

Exemplo 4: Montanha Russa

Há anos que os Estados Unidos acompanham a momentosa trajetória da loira Anna Nicole Smith. Ex-stripper, Anna casou-se em 1994 com o

bilionário J.Howard Marshall - ele com 89 anos, ela com 26 e mãe de um filho, Daniel, nascido nos tempos em que era morena e ainda se chamava

Vicky Lynn. Marshall morreu logo depois e Anna brigou na Justiça com o filho dele para ficar com um pedaço da herança. Em maio, deu Anna duas

vezes: 1) ela ganhou a causa na Suprema Corte; e 2) confirmou que estava

grávida, sem dizer de quem; um ex-namorado, o fotógrafo Larry Birkhead, assumiu a paternidade por iniciativa própria. Nas últimas semanas, alegrias e tragédias se aceleraram:

• Dia 7, num hospital das Bahamas onde se internou acompanhada de Roward Stern, advogado e namorado não-dec1arado, nasceu sua filha; Dia 10, no mesmo quarto de hospital, o filho Daniel, 20 anos, que a visitava, amanheceu morto; a causa da morte foi parada cardíaca provocada por mistura de remédios;

• Dia 27, em plena CNN, o advogado Stem anunciou que, “considerando-se as datas”, a pequena Dannielynne Rope (o nome homenageia o irmão morto) é sua filha.

Dia 28, Anna e Stem se casaram (sem papel passado) a bordo de um catamarã, em Nassau. (Veja, 04/10/2006)

Tendo em vista que o exemplo acima é um texto socialmente compartilhado, atravessado por vários discursos, as possibilidades de sentido são múltiplas. Para interpretá-lo, o leitor deve, então, mobilizar seu conhecimento enciclopédico (socioculturalmente partilhado) para apreender as várias relações de sentido que se estabelecem na superfície do texto entre as palavras sublinhadas e em negrito.

Queremos chamar a atenção para o fato de que a busca pelo sentido, pela coerência do texto, faz o leitor ousar nas suas estratégias inferenciais. Em determinado momento, ele vê a necessidade enquadrar o título com o restante do texto, pois que há uma quebra de expectativa: as palavras destacadas não se referem ao título. Deve haver um sentido figurado, metafórico no texto.

Observemos que não há uma expressão metafórica explícita no texto. Poderíamos supor que o título seja o veículo da metáfora, ou a própria metáfora, mas, se assim o for, onde está o outro termo da relação? Na verdade, não há uma relação metafórica apenas, nem esta se estabelece somente entre dois termos; mais ainda, não podemos garantir que o título é metafórico antes da leitura do texto.

O leitor passa então a realizar um vai-e-vem interpretativo, na tentativa de construir um ou vários sentidos para o texto. À custa de mecanismos inferenciais, das pistas linguísticas e do seu conhecimento cultural, começa a construir e interpretar uma metáfora. Esse é o processo de metaforização textual.

Veja-se que, para se estabelecer a semelhança entre uma montanha russa e a vida da personagem, cheia de altos e baixos, o mecanismo de interpretação não pode se limitar a uma expressão linguística, mas espraiar-se pelo texto. O foco metafórico não é uma palavra específica, nem se encontra em uma sentença atributiva do tipo A é B, como tradicionalmente são analisadas as metáforas. Ou seja, é preciso considerar, não somente em que medida o termo montanha russa relaciona-se com momentosa trajetória ou com a expressão alegrias e tragédias se aceleraram, mas também todas as implicações semânticas presentes nas expressões em negrito, cujo papel é de construir ou reforçar estereótipos sociais próprios de uma determinada comunidade linguística. Portanto, essa é uma metáfora discursiva em que a interpretação é enriquecida pelo modo como leitor, texto e cultura interagem no decurso da leitura.

É nestes termos que falamos em cognição: um texto passa a ser assumido como um dispositivo susceptível de gerar operações cognitivas na mente do leitor à medida que, no decorrer da leitura, os elementos linguísticos presentes na superfície textual, indeterminados conceitualmente, possibilitam a ativação de conhecimentos socioculturalmente partilhados armazenados em forma de redes de esquemas conceituais. Esse processo configuraria novos contextos sócio-comunicativos, a depender da interação leitor/texto, ampliando, dessa forma, as possibilidades de interpretação.

Enfim, concebemos a cognição como um processo. Não releva, para nós, buscar o nascedouro da mente através de respostas para lacunas deixadas pelos modelos de cognição. Importa, sim, evidenciar que as explicações fornecidas apenas por um

modelo de cognição, tal como foram propostos até agora, não são suficientes para compreendermos fenômenos cognitivo-discursivos como a metaforização textual.

Em outros termos, encontrar o sujeito do conhecimento dentro do texto significa reconhecer que a mente individual é atuante no ato interpretativo, entretanto, funde-se de tal modo à cultura que tão somente sua perspectivação nos é apresentada. O pressuposto de existência de um leitor empírico (mente individual) é, assim, o próprio suscitar do sentido textual. Daí, termos a possibilidade de ampliar o papel do leitor na significação, porém, jamais pô-lo à margem do processo. Diríamos, em termos merleau- pontianos, que sujeito e mundo confundem-se e definem-se mutuamente na interpretação. Por isso, resta-nos apenas discutir o produto dessa comunhão: o ato interpretativo, apenas.

É precisamente para isso que apontam, sem notarem essa afinidade em comum, a Biologia do Conhecer de Maturana, o sócio-cognitivismo da Linguística Textual e a semiótica de Eco e Bertrand.

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