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4 Description of low energy building concepts
A noção de sociedades de controle elaborada e reelaborada por Deleuze na virada dos anos 1980 para os 1990, a partir de sua submersão na analítica de Foucault e de seu encontro com Willian Burroughs, ressurgiu com vigor quase uma década depois, quando os movimentos antiglobalização articularam uma série de protestos e manifestações contra a
globalização do capitalismo, naquele momento associada diretamente ao estabelecimento de acordos que permitiriam mais liberdade para as transações comerciais e financeiras transitarem por todo o planeta.
Sebastião Júnior (2013) destaca que as análises de intelectuais como Foucault, Deleuze e Guattari, “alocados na pobre rubrica pós-estruturalismo” (Idem:92), gozavam de grande fluidez entre os integrantes dos movimentos antiglobalização. Ele evidencia como a produção destes autores foi utilizada para oxigenar o pensamento esquerdista, atualizando-o
no que posteriormente seria identificado como neomarxismo e pós-anarquismo contemporâneos.11
Se a conquista do Estado não passaria necessariamente pela revolução violenta, adviria da redefinição das forças em luta nos limites da democracia expressa a empreitada de renovação teórica de Antônio Negri e de Michael Hardt (2001) em torno do conceito de Império e/ou a crítica jurídico- constitucional à soberania realizada por Giorgio Agamben, ao denunciar os elementos totalitários das democracias contemporâneas que tomam os campos de concentração como paradigma de governo (Ibidem:19).
O conceito de Império que estimulará intelectualmente alguns segmentos dos movimentos antiglobalização foi elaborado por Michael Hardt e Toni Negri a partir da noção de sociedades de controle que os autores trouxeram de Deleuze. Utilizaram-na para situar o momento histórico em que emergiria o Império, correlacionando-a diretamente à contemporânea fase do capitalismo mundial integrado.
Por Império, Hardt e Negri fazem referência a uma nova ordem mundial em que a soberania se reorganiza em termos globais, confrontado por uma multidão. Esta relação descrita pelos autores reatualiza o Leviatã hobbesiano da formação do Estado, porém em uma nova versão projetada para o planeta. É interessante notar que a capa da primeira edição desta obra, publicada em 2000 pela Harvard University Press, traz uma imagem da Terra vista pela perspectiva sideral. A mesma concepção de capa foi mantida na edição brasileira deste livro. Apesar de não terem utilizado a mesmo foto, ela também traz uma perspectiva sideral do planeta. Os autores apontam que por traz das aparentes existências emancipadas que poderiam ser observadas na atual sociedade global de controle, possibilitadas sobretudo pela maior autonomia dos indivíduos e pela comunicação, encontra-se, na realidade, uma mais complexa subordinação do humano às exigências da acumulação capitalista.
11 Além de Hardt, Negri e Agamben, as produções intelectuais de Foucault, Deleuze e Guattari, principalmente
as noções de bipoder e sociedade de controle, foram trabalhadas por outros marxista europeus como Paolo Virno, Maurizio Lazzarato e Roberto Esposito.
Para mostrar como a “máquina imperial” funcionaria, Hardt e Negri recorreram às noções de sociedades de controle e de biopoder. Por sociedades de controle, que chamam de sociedade global de controle, entendem:
(...) uma intensificação e uma síntese dos aparelhos de normalização de disciplinaridade que animam internamente novas práticas diárias e comuns, mas, em contraste com a disciplina, esse controle se estende para fora dos locais estruturados de instituições sociais mediante redes flexíveis e flutuantes (Hardt e Negri, 2001: 42-43).
E por bipoder, eles compreendem, tal como definiu Foucault, o poder com função de administrar a vida. Porém acrescentam que ele “regula a vida social por dentro, acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando”, sendo empregado para o “comando efetivo da vida total da população” (Idem:43). O Império, segundo os autores, é a própria sociedade de controle que “está apta para adotar o contexto biopolítico como [seu] terreno exclusivo de referência” (Ibidem). Em um artigo anterior a este livro, Michael Hardt já anunciava esta sobreposição: “O que gostaria de sugerir é que a forma social tomada por esse novo Império é a sociedade de controle mundial” (Hardt, 1996: 359). Portanto, no conceito de Império estão combinadas de forma inseparável as noções de sociedades de controle e de biopoder. Esta “fusão” parte do pressuposto defendido pelos autores de que a sociedade de controle generalizou a biopolítica e que fez com que “todo corpo social” fosse “abarcado pela máquina do poder e desenvolvido em suas virtualidades” (Hardt e Negri, 2001: 43).
Note-se que Hardt e Negri pressupõem que a noção de sociedades de controle estaria subentendida nas análises de Foucault. Em uma nota de referência, eles explicam que a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle “não é articulada explicitamente por Foucault, mas continua implícita em sua obra” (Ibidem: 449) e que Deleuze e Guatarri, por meio de suas interpretações à obra de Foucault, conseguiram torná-la explícita.
É certo que Foucault estava atento para as transformações que observava ocorrer no final dos anos 1970 e que ensaiou, como mostramos anteriormente, algumas análises para
responder à crise das sociedades disciplinares, por meio das quais passou a se interessar sobretudo pela relação liberdade e segurança, considerada por ele definidora da racionalidade liberal e neoliberal. Este é o máximo que podemos afirmar que Foucault tenha chegado no sentido de ultrapassar as sociedades disciplinares. As sociedades de controle são uma criação de Deleuze, certamente inspirado pelo trabalho de Foucault, sobre quem naquele momento acabara de ministrar dois cursos e escrever um livro, mas uma criação deleuziana.
Convém ressaltar que em Império Hardt e Negri resgataram de Foucault e Deleuze noções que, por razões variadas, ambos os autores não deram continuidade em suas obras. No final dos anos 1970, Foucault deixou a noção de biopoder/biopolítica em stand by para dedicar-se a outras análises. A partir da produção intelectual de Foucault, Deleuze criou a noção de sociedades de controle. Construiu duas versões para estas sociedades. Primeiro, associando-as ao biopoder. Entretanto, quando publicou suas últimas palavras sobre o assunto, ao qual nunca mais retornaria, bipoder não estava mais lá.
Foi justamente a este esboço abandonado que Hardt e Negri retornaram para elaborar o seu conceito de Império. Todavia, será que reconectar bipoder/biopolítica às sociedades de controle permitiria avanços nos estudos sobre as relações de poder contemporâneas para além de oxigenar as teorias de esquerda e produzir reinterpretações e representações para novas formas de soberania?