3. Theoretical Framework and Literature Review
3.3. Description of Managerial Decision Model for Strategic Order Fulfillment
Nos fragmentos narrados, presentes na carta que Juanito Gil escreve a Reinaldo com a esperança de que ele possa tirá-lo do campo, há marcas do registro formal e também do coloquial, além de elementos da oralidade. A situação de desabrigo em que os internos se encontram, debaixo de chuva, rodeados de umidade e sem as mínimas condições de higiene é narrada com o registro coloquial:
“Mojado, ¿tú sabes lo que es sentirse mojado? No lo sabes, ni tienes idea. Pero sí la tenemos cincuenta, sesenta, cien mil españoles, con agua del cielo en los hombros, a través del paño, bien impregnados (…) Estamos pringados, perdona la vulgaridad: estamos
pringados de agua y de lo demás. O, si lo quieres más elegante y elevado: transidos, estamos transidos. Auténticamente, y perdóname la expresión: nos cagamos en el Mediterráneo.” (p. 276)
Juanito Gil intensifica a sensação desagradável com a repetição de elementos como: “mojado”, “impregnados”, “pringados”, “pringados de água y de lo demás”, “transidos”, “nos cagamos en el Mediterráneo...”. Podemos entender “pringados” como empapados de água e de outras substâncias também, pois não há condições higiênicas. E temos a expressão obscena, “nos cagamos en el Mediterráneo26”. Juanito Gil tem um nível sociocultural elevado, porém, a fim de conseguir expressar a situação vivida no campo, usa uma linguagem vulgar. É importante sublinhar que ele tem consciência dos diferentes registros de fala e de escrita, como indicam as frases com função de retificar ou modalizar o já dito.
Observa-se que Juanito Gil não é um narrador onisciente, nem é o mesmo que narra os fatos correspondentes às três primeiras partes do conto, pois não conhece detalhes da vida de Málaga:
“…un pobre tonto a quien llaman el Málaga, no creo que sea apodo porque no tiene acento andaluz. No entiende nada de lo que sucede y siempre está contento… anoche le pegó la gran tunda un guardia móvil: el chico quiso salir del campo. Le preguntaron que a dónde iba, contestó que por ahí: -A ver… Lo que vio fueron las estrellas”. (p. 276, 277).
Juanito Gil confirma a visão do narrador ao referir-se à personalidade ingênua e bondosa de Málaga. Ao incluir o que lhe sucede em sua narrativa, Juanito Gil julga estar revelando a seu destinatário o caráter absurdo e arbitrário do campo, as
26 Para Werner Beinhauer o uso de interjeições de tipo obsceno são comuns na linguagem popular, tanto
em falantes de níveis socioculturais baixos ou altos, em situações de confiança, de amizade: No puedo menos de mencionar siquiera las INTERJECCIONES DE TIPO OBSCENO tan corrientes en el lenguaje popular. Sobre todo en el vulgar, pero hay que tener en cuenta que en conversaciones entre amigos de confianza y en situaciones cargadas de especial afectividad que pide desahogo, aun tratándose de gentes pertenecientes a estratos sociales más elevados, aparecen tales expresiones. Aparte de eso, la mayoría de esas obscenidades están semánticamente gastadas por el uso, que el hablante apenas tiene conciencia de su contenido indecente”. (BEINHAUER, 1991: 102,103)
péssimas condições de vida, o sofrimento pela falta de abrigo, pela fome e pela solidão, a violência do castigo sem explicação: “tunda” e “lo que vio fueron las estrellas”.
Em outro fragmento, o narrador onisciente se apropria da carta de Juanito Gil, datada de oito de março, como se vê na observação “(del mismo al mismo)” (p. 278). Juanito conta que Málaga apanhou de um senegalês: “Un senegalés le ha pegado una paliza de órdago al Málaga. Ignoro la razón de la vapuleada; no ha sabido explicármela”. A locução adjetiva coloquial “de órdago” teria a função de enfatizar a violência praticada pelas autoridades e sofrida por Málaga por tentar defender Almudena, conhecida como Rocío.
A carta de Juanito Gil apresenta diálogos, como no fragmento abaixo no qual conta em primeira pessoa que, um dia após Málaga ter sido castigado, os prisioneiros receberam o aviso de que os que desejassem poderiam voltar à Espanha. Juanito Gil pergunta a Málaga por que ele não volta e o rapaz responde com uma pergunta. Há também outras vozes de outros internos, que o narrador não identifica:
“Cuando, esta mañana, pregonaron que se apartaran los que querían volver a España, le pregunté que por qué no se iba:
- ¿Vosotros os vais? - Nosotros no, pero otros sí.
- Pues si vosotros no vais, yo tampoco. - No comprendes…
-¿Qué no comprendo?
‘Rodríguez que está con nosotros –no recuerdo si te lo escribí anteayer- y a quien le molesta físicamente el muchacho, le dijo:
- ¡Tú qué sabes!
‘El Málaga se ofendió y preguntó, un tanto airado: -¿Qué es lo que no sé?
‘En seguida le venció su buen natural y sonriendo repitió la pregunta. Cuartero puso el punto:
O diálogo representa a falta de tolerância de alguns internos, pois Rodríguez critica e humilha o jovem Málaga. Utiliza a fórmula rotineira, coloquial e exclamativa “¡Tú qué sabes!”, que mostra sua falta de solidariedade para com o jovem engraxate.
Esse diálogo remete-nos à conversa que Málaga teve com Manuel, na segunda parte do conto, quando ainda estavam em Madri. Manuel demonstrava sua vontade de partir para a França e Málaga não entendia o porquê. Para ele, o importante não era ir à França, mas sim, acompanhar o amigo. Málaga, naquele momento, também não entendia o que poderia suceder se permanecesse na Espanha. Agora, com os companheiros do campo de Argelès vive uma situação semelhante, pois tem a opção de voltar para a Espanha ou continuar na França. Entretanto, deseja ficar com aqueles a quem considera seus companheiros, como Cuartero, que em sua defesa dirige-se aos que criticam Málaga com o adjetivo coloquial “guapos”, utilizado com um tom irônico e de crítica.