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Como discutimos nas seções anteriores, há alguns conceitos gerais referentes aos estudos da fala, no âmbito da Análise da Conversação (AC) de cunho Etnometodológico, que estamos tomando como base para o desenvolvimento de nosso estudo. Sendo assim, nessa seção, é necessário levarmos em consideração questões relacionadas à teoria linguística fonte dos estudos da conversação, observando principalmente os aspectos dela, no âmbito da Linguística, já que foi a partir de estudos da colaboração, à luz da Análise da Conversação, como afirmamos no início do trabalho, que surgiu nossa pesquisa.

Freitas; Machado (2008) lembram que foi sob a ótica da Análise da Conversação Etnometodológica (ACE), na década de 70, que os pioneiros Sacks; Schegloff; Jefferson (1974, 1977 e 2003) observaram dois fenômenos que dão subsídio a inúmeros trabalhos posteriores: a organização da tomada de turnos e a organização de reparo. Dessa forma, acreditamos ser importante rever alguns pressupostos básicos da AC para podermos relacioná- la à nossa teoria de base, a Gramática Discursivo-Funcional. Vale ressaltar que o nosso objetivo aqui não é fazer uma exposição exaustiva da teoria, mas apenas apresentar noções que, em nosso entendimento, são pertinentes para a compreensão do estudo da fala-em- interação e ao processo de colaboração.

Surgida na década de 60, sob a ótica dos estudos sociológicos, mais precisamente, da Etnometodologia e da Antropologia Cognitiva, a Análise da Conversação (AC) teve, inicialmente, uma preocupação voltada para a descrição da organização das conversações e de suas estruturas constitutivas. A AC segue uma metodologia indutiva, parte de dados empíricos para tentar responder a questões relacionadas ao modo como os falantes se entendem em uma conversa e como esta se estrutura. Há uma preocupação com a situação comunicativa em que tais conversas se desenvolvem, com os aspectos pragmáticos envolvidos nas conversações. Suas análises seguem, principalmente, critérios qualitativos (MARCUSCHI, 1991).

A Análise da Conversação se distingue da Análise do Discurso e da Pragmática Filosófica por ter um caráter empírico e uma motivação histórica proveniente da Etnometodologia, Etnografia e da Sociologia. Tendo em vista a origem da Análise da Conversação, fazem-se necessárias algumas considerações a respeito da Etnometodologia.

O significado da palavra Etnometodologia já nos dá uma noção de como os estudos nessa área procedem. Wolf (1994) afirma que a expressão etno diz respeito aos conhecimentos que os indivíduos possuem sobre a sua sociedade, ao senso comum desses, a

forma de pensar acerca de suas atividades cotidianas, e o termo metodologia se refere às atividades práticas, à forma como os indivíduos aplicam seus conhecimentos na sociedade.

Harold Garfinkel estabeleceu as bases da Etnometodologia, corrente dissidente da Sociologia americana tradicional, com a publicação do livro Studies in Ethnomethodology [Estudos em Etnometodologia], em 1967. E seus princípios motivaram todos os linguistas da AC que buscam observar como se organiza o texto conversacional. A Etnometodologia observa ações práticas referentes ao cotidiano, à realidade como um processo em constante transformação em que os indivíduos são sujeitos ativos. Assim, Garfinkel50 (1967, p. 1 apud

HILGERT, 1989, p. 79) define o escopo de atenuação dessa corrente:

Os estudos que seguem propõem-se abordar as atividades práticas, as circunstâncias práticas e o raciocínio sociológico prático como temas de estudo empírico, concedendo às atividades mais comuns da vida cotidiana a mesma atenção habitualmente concedida aos acontecimentos extraordinários. Esses estudos procuram tratar desses acontecimentos e atividades enquanto fenômenos em si mesmos. A recomendação central desses estudos é que as atividades, por meio das quais pessoas organizam e geram situações de sua vida cotidiana, são idênticas aos procedimentos utilizados para tornar tais situações observáveis e relatáveis. (GARFINKEL, 1967, p. 1 apud HILGERT, 1989, p. 79)

Dessa forma, em uma visão Etnometodológica, os analistas devem ser sensíveis aos fenômenos interacionais e buscar uma abordagem fortemente empírica para o estudo da ação social, já que o objetivo principal é a observação de como o homem age socialmente no espaço delimitado e no tempo real, de ocorrência natural51 (GARCEZ, 2008). Assim, a análise

dos detalhes e conexões estruturais existentes no processo interativo está presente em trabalhos sob essa ótica.

Garcez (2008) lembra-nos que, apesar dos autores que iniciaram os estudos da Análise da Conversação Etnometodológica serem sociólogos, observando principalmente o comportamento humano ao utilizar a linguagem numa perspectiva da Sociologia, foram seus estudos que fizeram com que linguistas voltassem sua atenção aos estudos da linguagem oral em interação, tendo em vista que, a partir desses, passa-se a observar o uso da linguagem em seu contexto como algo que segue uma determinada ordem, sendo possível de ser descrito.

Segundo Schegloff (1981, p. 73), há alguns princípios que devem nortear esses trabalhos, tais como os descritos na citação que segue:

50 GARFINKEL, H. Studies in Ethnomethodology. New Jersey, Prentice-Hall, 1967.

51 Garcez (2008, p. 22) descreve os dados de ocorrência natural com os quais o analista da conversação lida como ―registros, inspecionáveis independentemente por quaisquer analistas externos – o que limita, se não exclui, os dados de registro de memória ou autorretrato, das ações conjuntas entre dois ou mais participantes, ações essas que ocorreriam a despeito da presença de observadores ou de aparatos de gravação – o que restringe, se não exclui de todo, simulações de qualquer natureza […]‖.

(1) O discurso deve ser considerado como uma realização (achievement). Isso envolve tratar o discurso como algo produzido no momento da realização (...); (2) a realização é interacional, para muito além de qualquer que seja o processamento cognitivo individual (...); (3) O caráter dessa realização é, ao menos em parte, moldado pela organização sócio-sequencial da participação dos interlocutores, como exemplifica a organização de tomadas dos turnos; (4) porque (...) várias partes do comportamento (dos indivíduos) compõem e acompanham o discurso e são analisados nele (SCHEGLOFF, 1981, p. 73).

Esse conceito de conversação como um processo no qual a produção e a realização se dão em uma interação, pressupõe que a construção dos sentidos emerge da dinâmica desse processo.

Apesar do enfoque Etnometodológico e do propriamente linguístico da conversação terem o mesmo objeto de estudo, a conversação, eles têm objetivos diferenciados, já que o primeiro se interessa principalmente pelos aspectos sociológicos do que é produzido na conversação, ou seja, pelos aspectos externos à conversação. Já o segundo enfoque, o linguístico, tenta dar conta, primordialmente, dos aspectos internos (linguísticos) da conversação.

Motivados pelos princípios etnometodológicos, os linguistas da Análise da Conversação procuram investigar algumas categorias de análise relevantes para a organização do texto conversacional. Henne; Renbock (1982 apud HILGERT 1989, p. 91) distinguem três níveis de enfoque da estrutura conversacional:

a) O macronível: constituído pelas fases conversacionais que são a abertura, o

fechamento e a parte central. Também fazem parte desse nível os subtemas da

conversação;

b) O nível médio: composto pelo turno conversacional, pela tomada de turno, pela sequência conversacional, pelos atos de fala e os marcadores conversacionais; c) O micronível: representado pelos elementos internos do ato de fala, que constituem sua estrutura sintática, lexical, fonológica e prosódia.

Gülich (1987, p. 18 apud HILGERT, 1989, p. 81) propõe o seguinte quadro que permite observar como a Análise Conversacional Etnometodológica dialoga com outras teorias:

Quadro 3 - Modelo do desenvolvimento das ideias etnometodológicas

Fonte: Gülich (1987, p. 18 apud HILGERT, 1989, p. 81)

Atualmente, os estudos ultrapassam os limites da organização conversacional e se centram na interpretação das conversações, em seus aspectos linguísticos, paralinguísticos e socioculturais (MARCUSCHI, 1991). Apesar da AC ter, como afirma Garcez (2008), uma atenção voltada para todos os detalhes possíveis de serem observados na interação, como, por exemplo, a presença ou ausência do silêncio no turno, em nossa análise, consideramos apenas os aspectos linguísticos verbais e interacionais que dizem respeito às colaborações intraturnos, principalmente, aos que podemos avaliar a partir do micronível da estrutura conversacional.

Vale ressaltar que, muitas vezes, no fluir das conversações, o controle do fluxo de produção textual foge dos próprios interlocutores, sendo assim, muitas previsões iniciais

Antropologia Cultural Fenomenologia

(Husserl, Merleau-Ponty)

Etnociência Talcott Parsons: Alfred Schütz

Teoria da Ação Sociologia Fenomenológica Erving Goffman

HAROLD GARFINKEL: ETNOMETODOLOGIA (―Studies in Ethnomethodology‖, 1967)

Aaron Cicourel Análise conversacional etnometodológica

(Harvey Sacks, Emanuel A. Schegloff, Gail Jefferson, Jim Schenkein)

Gramática da Língua Falada Sociolinguística

Pragmática Etnografia da Comunicação

(Hymes, Gumperz) Atos de linguagem

Análise do Discurso Retórica

(Linguística textual)

acabam por não se realizar, o que leva os interlocutores a mudarem suas estratégias para tentar alcançar seus objetivos.

Na seção que segue, iremos discutir o diálogo da AC com outras teorias, principalmente com a Gramática Discursivo-Funcional. Dessa forma, retomamos alguns conceitos forjados no âmbito dessas teorias, a fim de relacioná-los para observarmos algumas semelhanças e diferenças entre eles.

3.5 Análise da Conversação e Gramática Discursivo-Funcional: termos comuns e