4. DESARROLLO
4.2. Desarrollo de la microbiota intestinal
Ricouer se apropria da Psicanálise freudiana ao fazer uso dos conceitos de “recalque” e “luto” para evidenciar como o historiador se comporta como um analista, tanto no não dito e no que se pode dizer. Com relação ao luto, Freud (1975) compreende como a resignação que finda com a reconciliação, com a perda, onde o luto opera com a repetição da lembrança.
Isto é, a rememoração repetidamente daquilo que se perde marca o tempo do luto, ou seja, um esquecimento que se desprende daquilo que foi perdido. Por outro lado, o recalque é o que impede a compulsão repetitiva de um trauma por meio da lembrança onde a cura ocorre por meio da transferência.
Considera-se também o conceito de trauma bastante importante no arcabouço teórico de matriz freudiana para a compreensão ou enriquecimento de memória coletiva. Tal esforço na construção de uma teoria do trauma foi motivada a partir dos desdobramentos psíquicos observados, ainda, durante a Primeira Guerra Mundial, bem como a barbárie do nacional socialismo anunciada. Portanto, o cenário de investigação se constitui de forte impacto de violência na vida individual e coletiva, onde,
os chamados “man made disasters” [desastres produzidos pelo homem], como o Holocausto, a guerra e as perseguições políticas e étnicas, objetivam a aniquilação da existência histórica e social do homem através de diferentes maneiras de desumanização e destruição da sua personalidade [...]. As pessoas traumatizadas não são apenas vítimas de uma realidade política destrutiva, mas também suas testemunhas. Freqüentemente, vêem-se em uma situação em que ninguém quer ouvir seu testemunho, pois os ouvintes não estão dispostos a se sobrecarregar de sentimentos de medo ou dor, raiva ou vergonha, ou, ainda, medo de acusações de culpa (BOHELEBER, 2007, p. 16).
De acordo com Boheleber (2007), ganharam atenção os estudos sobre o trauma a partir dos danos evidenciados na Guerra do Vietnã e, diagnosticado como pós-traumático, passando a compor a nomenclatura psiquiátrica. Desde então, tem marcado os sofrimentos vivenciados das populações no século XXI. Sua importância e dimensão de complexidade extrapolam o campo da Psicanálise e se espraiam no das Ciências Humanas.
Este se revela naqueles grupos vítimas de danos sofridos e causados pela ausência ou debilitação de justiça, caracterizado por dolo individual que se justifica, a pseudo-correção por meio de pagamento como indenização pelo sofrimento gerado. O que, de fato não se configura quitação, haja vista que o trauma é marcado justamente por esse sofrimento que vai afetar a memória. Dentre seus danos causados, Freud menciona como bastante nefasta por aniquilar o nexo que permitiria a reprodução da memória perenizando o sofrimento, ao deixar marca que apaga a lembrança, causando uma amnésia do passado. Desse modo, pode não ter memória, por não se evidenciar, no passado e nem no presente, como se vê.
Reconhece o fato das pessoas traumatizadas por episódios extremos poderem resistir perlaborar, atentando para o fato do trauma ser uma experiência que “desarticula o eu e cria buracos na existência” que, talvez, “nunca sejam completamente dominados” (LACAPRA, 2001 p. 22 apud ROSA, 2015, p. 4).
Assim sendo,
o traumatismo, portanto, impossibilita a inscrição psíquica, indicando a ordem do não-representado no psiquismo. Ao subverter o registro da memória, é possível afirmar que o traumático se opõe ao processo paulatino de desenvolvimento da realidade e de diferenciação tópica, produzindo fissura e desligamento na trama psíquica. O trauma impossibilita justamente o duplo movimento intrínseco à prova de realidade, realizado pela memória, que pressupõe a negação da percepção do objeto para poder investi-lo na representação, bem como sua reprodução na representação para reencontrá-lo na realidade (BOTELLA; BOTELLA, 2002, p. 47 apud MORENO; COELHO JR., 2012, p. 14).
Assim, o luto representa a reação ao trauma e o modo de enfrentamento do trauma, atribuindo-lhe novo significado e orientação na perspectiva futura. Independentemente da forma como conduzirá a sua dor, a pessoa passa a situar sua vida num percurso temporal, mesmo que com a identidade histórica alterada, onde,
O trauma se constitui para Ferenczi como comoção psíquica, momento em que não há possibilidade de realização de uma nova intrincação pulsional e de decepção frente ao objeto de confiança. A desconexão com a percepção e a ausência de investimento do objeto conduzem a um vazio capaz de fissurar o psiquismo” “Outra imagem que pode nos oferecer alguma inteligibilidade do trauma seria a do avesso da memória. Paradoxal em si, este avesso pode referir-se tanto ao negativo em espera de revelação como àquilo que
não ocorreu, ou melhor, que ocorreu em pura negatividade, e que, assim, produz efeitos psíquicos. Encontramo-nos diante de um impensável, um irrepresentável, que remete ao fundamento negativo do trauma (MORENO; COELHO JR., 2012, p. 7).
Freud (1920; 1938), em suas obras intituladas Mais além do princípio do
prazer e Moíses e monoteísmo, discorre que o trauma não permite a lembrança, o
que por si só já é muito perverso, e que, ainda, deixa cicatrizes narcísicas e perenes no sentimento. Dentre os danos causados na memória, destaca-se a ação silenciosa do trauma no psiquismo comparando a pulsão da morte e aniquilando a não representação do vivido.
Uma questão intrigante que Ricouer lança mão diz respeito à afirmativa de que o abuso da memória é de fato abuso do esquecimento. Justifica dizendo que antes do abuso, ocorre o uso. Do mesmo modo que é possível lembrar-se de tudo, não é possível narrar tudo, há uma seleção e, nesta, uma estratégia de esquecimento, haja vista que quando se narra algo, se lança mão de tantos outros.
Ricouer (2007), ao se apropriar de tais conceitos para discorrer sobre traumatismos coletivos e esquecimentos manipulados, afirma que a memória coletiva é representação do vivido. Por essa razão diz que a noção de memória ferida vai incidir diretamente no objeto perdido que se desdobra nas perdas que atingem o poder, as populações e o território. Pois, de acordo com Freud, as lembranças se dão de forma parcial e, a partir de estímulos, por isso pode-se eleger a lembrança, já que a mente não é um museu.
A memória torna-se a única forma de conseguir informações sobre o passado. Gadamer (2007) permite pensar que a extinção da história é a morte do indivíduo, haja vista que a historicidade e a tradição compõem a existência humana, e que ninguém vive sem história. É o passado que orienta o presente, portanto, a base da existência é a tradição, de acordo com Hans Gadamer.
Ainda, para Gadamer, a dimensão humana representa o interesse central, o que requer pensar o homem dentro de uma consciência histórica, que envolve passado, presente e também futuro. Para Gadamer, o passado é algo que nos pertence, o homem pode fazer história, pois se trata de um ser histórico e, assim, pertence a uma tradição.
Desse modo, o conceito de preconceito pode ser visualizado e concebido por Heidegger como uma pré-estrutura da compreensão. Ora, se pertencemos à
história, a nossa relação com a vida não parte do zero. Tais preconceitos se sustentam dentro de uma tradição, representada aqui pelos costumes e valores. O passado está no preconceito para Gadamer e significa o horizonte do presente, vejamos:
Fundamenta-se, não na autoconsciência, mas sim no ser, na linguisticidade do ser humano no mundo e, por conseguinte no caráter ontológico do acontecimento linguístico. Não se trata de uma dialética de teses requintadas que se opõem; é uma dialética entre o contexto da tradição. [...] a tradição fornece um fluxo de concepções no interior do qual nos situamos, e devemos estar preparados para distinguir entre pressupostos que dão fruto e outros que nos aprisionam e nos impedem de pensar e de ver (PALMER, 1969, p. 170, 186).
E ainda, para Gadamer:
A tensão presente/passado é em si mesma um fator essencial e de certo modo frutífero em hermenêutica. Há uma situação simultaneamente estranha e familiar entre a objectividade da herança, que se pretende histórica e distanciada e a nossa pertença a uma tradição (PALMER, 1969, p. 187).
Nossa história e nossas vivências emergem ou se configuram a partir da historicidade, ninguém vem do nada, o passado compõe e retrata o presente, não tem como estar imune da história. Por outro lado, somos os portadores da capacidade de perceber a si mesmo e de exercer a consciência histórica, interpretar e reinterpretar permanentemente. A faculdade de conhecer e dialogar com o outro reflete a nossa tradição histórica. Comumente tendemos compreender que pertencemos a história, como se houvera uma inserção, mas Gadamer afirma o inverso, não é a história que nos pertence, ao contrário, pertencemos a ela.
Nesse sentido, primando pelo pertencimento, Ferreira (2015) retrata a memória como fator importante da identidade que não significa tão somente a fixação de um dado, armazenamento do que foi adquirido, pelo contrário, trata-se de um modo de apropriação das experiências vivenciadas que permitem operar o presente criando esperanças e perspectivas futuras.
A materialização ou visualização posta da tradição se configura na autoridade. O conceito de autoridade repousa no reconhecimento, mas se distinguida do de obediência, é, na verdade uma atribuição ao outro. Assim, a
obediência ocorre como desdobramento de um reconhecimento, não é uma obediência cega, para tanto faz a seguinte abordagem:
A autoridade é, em primeiro lugar, uma atribuição a pessoas. Mas a autoridade das pessoas não tem seu fundamento último num ato de submissão e de abdicação da razão, mas num ato de reconhecimento e de conhecimento: reconhece-se que o outro está acima de nós em juízo e visão e que, por conseqüência, seu juízo precede, ou seja, tem primazia em relação ao nosso próprio juízo (GADAMER, 2007, p. 371).
A autoridade em Gadamer deve ser compreendida não como um poder de aniquilação e dominação do outro, a natureza aqui, se compreende como o outro. Mas no reconhecimento dela como parte integrante da vida humana e, por isso, obedecida mediante a tradição. Ainda, de acordo com Silva (2000), a memória coletiva é repassada por meio da cultura.
Desse modo, deter a memória significa muito mais que a apreensão do passado, mas, principalmente a possibilidade de antecipar o futuro. Há de se levar em conta que o presente se faz permeado pelo passado, pelo ocorrido e que permite a orientação ou indicação do futuro (FERREIRA, 2015).
São justamente as comunidades orais que mais preservam a capacidade de compreensão do seu passado por meio da memória coletiva. Para Goff, a memória coletiva é uma característica dos povos sem escrita. Nas sociedades sem escrita, a prática de lembrar é constante, o que confunde memória e mito.
Ricouer é bem claro quando enfatiza a memória como único recurso de referência ao passado. Quando se refere ao dever, este faz menção ao dever de não esquecer, o que reforça sua compreensão de que a memória é de fato uma representação do vivido, distinguindo do que chama de imaginação, que nada mais é do que narração e criação do fictício.
Todavia, a vulnerabilidade da memória para o autor se dá em função da ausência de lembrança e sua representação na presença, podendo assim ocorrer o que autor define como abuso na memória decorrente dos distúrbios da memória impedida, ou seja, o esquecimento. Para Ricouer, o esquecimento se configura como o avesso da sombra iluminada da memória e não como lapso da memória. Desse modo, a memória se perpetua justamente no esforço de nada esquecer e de tudo lembrar, pois o esquecimento é manipulado, assegura Ricouer.
Já Halbwachs procura fazer uma clara distinção entre memória e história. Para ele, a história pode ser apenas aprendida e não vivida. Sua narrativa incide na analogia sobre memória coletiva e individual, por ambas vislumbrarem um passado histórico. Assim, afirma que a memória individual em certo momento se subordina à coletiva em função da sua domesticação por grupos sociais, considera que uma história tem muitas memórias. Assim, os contextos sociais são a base para a construção da memória (DUVIGNAUD, 2006, p. 8). A memória coletiva gira em torno de lembranças do cotidiano como enchentes, safras, algo vivido, e quase não faz menção aos acontecimentos históricos marcantes que procura mais valorizar o ocorrido passado.