• No results found

D Derivations of Consumption Equivalents

Baldassin (2012c) alerta sobre as evidências de estar a população médica em grupo de risco para suicídio e uso de drogas, o que determina a necessidade de detecção precoce dos problemas psicológicos e a implantação de medidas profiláticas por parte dos planejadores de educação médica. Ele adverte que para que seja possível o cuidado com o paciente é necessário o cuidado com o cuidador. Orienta que a escola deve encorajar seus estudantes a cuidarem de seu bem-estar e considerarem que “dificuldades acadêmicas podem ser geradas ou agravadas por limitação psicológica”. (BALDASSIN, 2012c, p. 66)

Nesse mesmo sentido, Abraão, Coelho e Passos (2008), enfatizam que a categoria médica (estudantes e graduados) é extremamente vulnerável a apresentar sintomas depressivos, sendo grupo de risco para distúrbios de comportamento, crises e tentativas de suicídio. Contudo, consideram que reagir de forma positiva ou negativa a situações de estresse da formação vai depender, em parte, dos dispositivos internos de enfrentamento da questão.

Apesar disso, há poucos estudos epidemiológicos sobre suicídios entre estudantes de Medicina, provavelmente devido à falta de dados confiáveis e dificuldades metodológicas. Para Millan (2012) há também a subestimação de números, devido à família do aluno não revelar a verdadeira causa da morte ou haver dúvidas se foi suicídio ou não. Contudo, estudos já publicados sobre escolas internacionais revelam coeficientes até cinco vezes maiores que a população em geral, o que é ratificado em pesquisa com estudantes da FMUSP. As hipóteses mais citadas quanto às possíveis causas de suicídio entre os estudantes de Medicina são: (...) os quadros psiquiátricos (principalmente depressão, abuso e dependência de drogas), o perfil de personalidade (pessoas que se cobram muito), frustrações diante do fracasso da realização de fantasias onipotentes e dificuldades em lidar com a grande exigência da formação

médica e com o ambiente acadêmico (grande competitividade, por exemplo). (MILLAN, 2012, p.113).

No início de sua formação, o Grupo de Assistência Psicológica ao aluno da FMUSP, Grapal, concluiu, após diversos estudos, que a melhor forma de prevenir suicídio entre os estudantes seria a criação de um espaço assistencial acolhedor para os alunos que apresentassem problemas psiquiátricos e também para os que quisessem apenas conversar sobre suas angústias e conflitos acadêmicos ou não. Em investigação feita pelo Grapal sobre número de suicídios na FMUSP em um período de 21 anos anteriores à criação do grupo (1965-1985), foram encontrados oito casos, o que correspondeu ao coeficiente de 39,6/100.000/ano. Esse era quatro a cinco vezes maior que o coeficiente do município de São Paulo na mesma faixa etária. De acordo com Millan (2012), psiquiatra que iniciou os atendimentos no Grapal, após mais de 25 anos de existência do grupo, com início em 1985, foi possível verificar que o coeficiente de suicídio entre os alunos diminuiu oito vezes.

Algumas hipóteses são levantadas pelo autor para essa redução: inúmeros tratamentos para depressões graves realizados pelo Grapal; melhor compreensão da personalidade dos alunos e o oferecimento de psicoterapia além de progressivas mudanças do currículo do curso médico preocupando-se com o cuidado na redução do estresse dos alunos (períodos livres, disciplinas optativas). Também a proibição do trote e introdução de uma semana de recepção de calouros mais acolhedora e amistosa; introdução de programa de tutoria com grupos de alunos e o apoio recebido pelo Grapal da comunidade acadêmica e diretores da FMUSP, mostrando- se sensíveis e solidários às questões psicológicas dos alunos. A criação de programas de auxílio financeiro e melhores condições de moradia para os que necessitam desse apoio; maior investimento em diálogo nos últimos anos do curso entre discentes e docentes e também a ocorrência no país de mudanças sociais e políticas no período estudado, podem ser fatores que contribuíram.

A diminuição na frequência de ideação suicida foi também verificada na Faculdade de Medicina da UFMG pela pesquisa de Aquino (2012) que identificou o percentual de 5,66%. Essa taxa é menor que a observada em outros estudos citados pelo autor que chega a 30% entre estudantes universitários no México (em estudo de 1998) e a 44% entre estudantes de Medicina do Estado de São Paulo (estudo de 1988). Apresenta uma considerável diminuição quando se compara com pesquisa

de Miranda e Queiroz (1991), feita em 1987 com 875 questionários respondidos entre os estudantes de Medicina da UFMG, na qual 37% apresentaram pensamento suicida e 2,3% (20 alunos) haviam tentado suicídio pelos menos uma vez (ocorrendo as tentativas até os 19 anos de idade). Nesse estudo não houve diferença com relação a gênero para as tentativas de suicídio. Os autores atentam para a preocupante estimativa de que 1 a 2% das pessoas adultas que tentaram irão se matar entre um a dois anos da tentativa e 10% o farão posteriormente. Esse estudo correlacionou as tentativas à baixa autoestima, desesperança e depressão.

Contudo, quanto ao risco do suicídio, Aquino (2012) enfatiza a necessidade de ficar atento, sendo os serviços de atenção psicológica ao estudante uma oferta da possibilidade de prevenção.

Simon15 (1968 citado por Meleiro, 1998) fez um estudo retrospectivo no ano de 1968, em 62 escolas médicas norte-americanas e três canadenses, concluindo que o suicídio é a segunda causa de morte entre os estudantes de Medicina, perdendo apenas para os acidentes.

Trabalhos de De Marco, Rossi e Millan (1999) e Millan, Rossi e De Marco (1991) identificam que alunos de medicina com melhor performance escolar estão em um grupo de alto risco de suicídio. Supõem que pessoas mais exigentes estariam mais propensas a sofrer as pressões impostas diante de qualquer falha. O estudante pode desenvolver culpa pelo que não sabe e sentir-se paralisado pelo medo de errar. Quadros que são apontados pelos autores como de sentimentos de desvalia e impotência, muitas vezes responsáveis por ideias de abandono do curso, depressão e suicídio.

Também Fiedler16 (2008) observa que a incidência de suicídios entre os estudantes de Medicina é de quatro a cinco vezes maior do que na média da população da mesma faixa etária. É conhecido em diversos estudos, inclusive de Millan et al (1999), que cerca de dois terços dos indivíduos que suicidam comunicam suas intenções previamente para a família, amigos ou médicos. Isso enfatiza que uma forma de prevenção seria oferecer aos alunos serviços de assistência

15Simon W, Lumry GK. Suicide among physician-patient. J Nerv Ment Dis 1968; 147(2): 105-12.

16 Nessa citação, de 2008, a autora tem o nome referenciado como Fiedler, Patrícia Tempski. Há

psicológica para auxiliar no enfrentamento dos inevitáveis conflitos inerentes à formação médica. Esses dados apontam para a importância de que no meio acadêmico e no meio médico a comunidade seja receptiva e facilitadora para busca de ajuda preventiva:

É um contra-senso sabermos que os estudantes de medicina aprendem e trabalham nas consideradas melhores faculdades do País, com as melhores equipes, e a sensibilidade geral da equipe hospitalar negligencia a saúde do estudante, principalmente com atitudes pejorativas em relação à doença mental. Os esforços das faculdades de medicina, nas últimas décadas, em dar assistência psicológica ao aluno ainda ressoa pouco. (MELEIRO, 1998, p. 138)