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As diferentes formas de nos inserimos no presente constituem sempre o mirante a partir do qual podemos observar o movimento do tempo. Ao estudarmos a militância sem terra, convém também situar o ponto específico a partir do qual são feitas as análises sobre o próprio conceito de militância. Lembro de nossa aula inaugural no início da graduação em Ciências Sociais. O tema da aula poderia ser resumido na seguinte frase: “deixem a militância do lado de fora”. Trata-se, é claro, da exigência em separar o engajamento político do ofício de sociólogo. Mas o que seria mesmo esse “lado de fora”? As contradições que levam o indivíduo ao engajamento político podem ser assim facilmente esquecidas no “lado de dentro” dos muros acadêmicos? As teorias forjadas dentro dessa tradicional assepsia não seriam, ao mesmo tempo, fruto e semente justamente do engajamento político pela mudança ou alteração do status quo? Esquecendo que é feita exatamente da mesma matéria daquilo que pesquisa, as Ciências Sociais acreditaram por muito tempo poder isolar a História como objeto, cercá-la, recortá-la, observá-la através de uma fenda que evitaria o risco de contaminação pelo “lado de fora”. O estudo da história como um passado sem volta nos dá o conforto na crença de poder se situar fora do próprio tempo, como se todo resgate do passado não fosse também uma projeção de futuro, ainda que esse futuro continue sendo o espelho do agora.

A descoberta de que a ciência não está isenta dessas contradições e de que, como no belo quadro de Goya, os sonhos da razão também produzem seus monstros, somada ao balanço das derrotas políticas nas tentativas de superação da ordem acabou por aumentar ainda mais essa fenda agora com novos instrumentos. Já não se trata de evitar o risco de contaminação do sociólogo pelas contradições de classe e pelo engajamento político, ao contrário, são as próprias contradições e a própria classe que agora surgem como resultado de uma “infecção teórica”. Quando o balanço político da experiência passada é feito desde fora de toda experiência, a História e, dentro dela, a própria militância aparecem como um fruto do discurso. Este é o ponto de vista que fundamenta hoje os modelos hegemônicos de análise do militante político. O engajamento político do militante de esquerda seria resultado de uma ilusão teórica causada pelo desvio teleológico contido no próprio marxismo. O militante seria conduzido assim a vagar no presente em busca desse futuro nunca alcançado, descolando-se de seu próprio tempo. A própria concepção de uma

história em aberto, onde o passado de todas as gerações que lutaram retorna como matéria do presente não seria senão, segundo Valverde, um discurso autoritário feito pelos historiadores “sobre” ou “a partir” da classe. A necessidade de perceber no presente o lampejo de uma “memória dos vencidos” como anúncio de promessas não cumpridas, faria do historiador um “novo cruzado” que se colocaria a função de “guia do rebanho sofredor (...) para a conquista da salvação revolucionária” (VALVERDE, 2008, op. cit.).

Acontece que a herança deixada pelo passado das lutas que cercam nossos muros, bem como as projeções de futuro geradas pelas contradições vividas em tempo real, costuma quebrar com facilidade as vidraças de nossos gabinetes acadêmicos.

A consciência histórica de cada época não é um resultado de um discurso feito “sobre” ou “a partir de...” um outro, ela é resultado das próprias contradições inscritas no seio do modo de produção e de vida. O tempo linear voltado para o futuro não é, como vimos, próprio da militância política moderna. Ele nasce e se desenvolve com o próprio avanço da técnica nas sociedades de classe e encontra sua forma mais acabada com o nascimento de uma classe que tem no controle racional do tempo um fundamento de dominação. É com a sociedade burguesa que o passado passa a ser visto como superação e que o presente se insere como progresso. Nas palavras de Debord (1997, p.103), é o tempo irreversível da mercadoria, “onde o tempo é tudo, o homem não é nada a não ser a carcaça do tempo”.

Também a necessidade, expressa nas teses Sobre o Conceito de História de Walter Benjamin, segundo a qual é preciso resgatar a tradição ao conformismo, procurando o retorno do passado no tempo presente como matéria de um futuro que se apresenta como promessa não cumprida, tal necessidade não nasce, como vimos, do debate entre os historiadores e tampouco pode ser superada nesses debates. Ela nasce da própria necessidade do ser humano em alterar o meio onde vive, em projetar soluções e retornar às contradições do real alterando-as. Dessa forma, também a consciência do tempo é portadora, em cada período histórico, dos germes de sua superação. São as contradições vividas no seio do modo de produção capitalista no campo que criam na militância sem terra essa necessidade de resgate da experiência da luta pela terra e da luta contra o capital. Elas criam também a necessidade de projetar uma superação da realidade vivida. No

Movimento Sem Terra, essa projeção não se insere num caminho linear e vazio em direção ao futuro, o futuro é trazido para a esfera do presente vivido através de novas relações. Como afirma Fernanda:

Passar pelo acampamento é um processo fantástico de humanização. É conviver com o futuro. O ser humano tende sempre a projetar o futuro. Projetar o hoje para o futuro. É uma forma inclusive de se manter vivo: acreditar que “o amanhã vai ser melhor”. A diferença é que a gente tenta projetar um futuro que não é só o do indivíduo, mas é um futuro para a humanidade. Porque se hoje você é assentado e não luta pela transformação geral amanhã você vai voltar a ser sem terra. O teu futuro depende do futuro dos outros. Quando você começa a organizar uma luta coletiva você começa também a projetar uma solução coletiva.

A aproximação entre religião e utopia social no MST, através da secularização da idéia de mística, faz com que o movimento situe seus militantes como expressão viva de um passado que retorna a partir das contradições vividas tanto ao nível individual quanto na experiência da organização. Essa idéia não nasce de uma teoria feita “sobre” os sujeitos reais, no MST ela é uma prática desses sujeitos. É essa prática que faz do passado um tempo que não parte sem retorno, pois a própria existência do MST na luta pela terra expressa essa presença viva daqueles que lutaram outrora.

Falamos na vivência de um tempo partido em dois sentidos. Trata-se de uma temporalidade que tem por base a transmissão de uma tradição para além do tempo presente, a da experiência da classe, ou seja, que necessita de uma organização voltada para a mudança da totalidade das relações sociais e que expresse os interesses universais de classe: um partido. Como nas palavras de Neruda:

ao meu partido... me fizeste indestrutível, porque contigo não termino em mim mesmo...

Ao mesmo tempo, trata-se de um tempo partido, um tempo não mais vivido de forma homogênea e linear em direção ao futuro, mas um tempo que recupera o passado como promessa e arranca das contradições do presente as promessas de futuro. Um tempo cindido entre o antes, o agora e as possibilidades do depois. Nas palavras de Maiakovski, um tempo que tenta arrancar do presente um “futuro que não virá por si só, se não tomarmos medidas”.

A forma como o movimento se situa no interior das dificuldades vividas pela esquerda brasileira, colocando-se o desafio de buscar novos rumos à militância em

nossos dias é também significativa dessa forma de se situar no tempo. Diante da frustração gerada pela chegada à Presidência da maior experiência partidária que a esquerda já viveu, o PT, o Movimento Sem Terra tem se perguntado se quer ser “o último movimento do último ciclo vivido pela esquerda brasileira ou o primeiro de um novo...”. Trata-se, nas palavras de Benjamin (1994, p.224), da necessidade de “arrancar a tradição ao conformismo”, evitando o perigo que se anuncia a cada geração: “entregar-se às classes dominantes como seu instrumento”. O MST não pode, por si só, furtar-se à esse perigo. Os avanços e retrocessos da consciência presentes na reivindicatória dos sem terra fazem dessa consciência de um tempo partido uma prática de resistência nesse período de descenso das lutas, onde a própria história passou a ser entendida como um discurso de poucos...

A abordagem hegemônica do militante moderno parece querer dar fim à história no interior de seus debates. O fim das alternativas societárias ao presente é apresentado como o fim de seus discursos alternativos. O fim da história se apresenta como uniformização da cultura através da perda de legitimidade das grandes narrativas sobre a história. As diversas teorias que propõe a crítica e a superação do real convertem-se, de antemão, em uma variante na galeria de discursos sobre o próprio real.

Acreditamos que essa necessidade, característica da modernidade, em decretar o término da história, constitui-se em uma prova de sua vitalidade. O estudo da consciência histórica no MST parece corroborar a tese de que, até esse momento, a História segue comparecendo a seus funerais com certo sorriso de sarcasmo. Como a cigarra que canta sua própria morte, mas cujo canto segue sendo o sinal de sua presença viva.

Tantas veces me mataron, tantas veces me morí, sin embargo estoy aquí

resucitando. Gracias doy a la desgracia

y a la mano con puñal, porque me mató tan mal,

y seguí cantando. (...)

Tantas veces me borraron, tantas desaparecí, a mi propio entierro fui,

solo y llorando. Hice un nudo del pañuelo,

pero me olvidé después que no era la única vez

Cantando al sol, como la cigarra, después de un año

bajo la tierra, igual que sobreviviente que vuelve de la guerra.

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