Comecemos por tratar dos anos de 1956, quando fora criada a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), instituição diretamente subordinada à Presidência da República e encarregada de criar diversos organismos e setores necessários ao funcionamento da cidade. Um desses setores foi o Departamento de Educação e Saúde, criado no final de 1956, posteriormente denominado Departamento de Educação e Difusão Cultural, sob a égide do médico Ernesto Silva.
Nos anos de 1957, muitas famílias de operários e funcionários já haviam por aqui chegado, e com elas uma numerosa quantia de crianças, que precisavam estudar, portanto era preciso a criação imediata de escolas. Esse mesmo departamento tratou de providenciar uma sala de aula improvisada. As primeiras aulas no Planalto ocorreram no pavilhão da administração. Enquanto isso Niemeyer corria um traço simples e arrojado para o chamado GE-1 (Grupo Escolar 1), que foi construído em apenas vinte dias e inaugurado no dia 18 de outubro de 1957. Quanto à formação e contratação dos professores para esse grupo e para outros que foram surgindo posteriormente, à medida que a demanda de crianças e jovens aumentava, não passava despercebida a necessidade de um suporte diferenciado para esses profissionais. Havia desde já a preocupação em “qualificar o ensino, promovendo e facilitando estágios e cursos intensivos em outros centros de renomada qualidade educativa [...]. A admissão das professoras era procedida através de concurso (títulos, entrevista e prova escrita)” (SILVA, 1985, p. 242).
Organizados os primeiros espaços para acolher os estudantes, outras medidas precisavam ser tomadas. Para isso:
Por iniciativa do Departamento de Educação e Difusão Cultural, foram criadas as primeiras escolas da nova Capital. Para tanto, o referido departamento [...] buscou assessoramento técnico junto ao educador Anísio Teixeira, então diretor do Inep. Nessa ocasião, foi-lhe então solicitada orientação geral sobre o sistema escolar da nova Capital. (PEREIRA; ROCHA, 2011, p. 28). Anísio Teixeira não fora escolhido por acaso. Era homem messiânico e consciente de que não podiam ser repetidos na educação da nova Capital os erros até então plantados por todo o país. Acreditava que uma nação emancipada não se fazia apenas com política desenvolvimentista e dinheiro, mas com homens e mulheres dotados de uma condição ciente e refletida. Encontramos no texto das professoras Eva Waisros Pereira e Lúcia Rocha (2011) a compilação de um discurso de Teixeira publicado na revista Senhor, datada de 1960, que muito sintetiza seu pensamento sobre a escola que se pretendia proporcionar a partir das novas perspectivas educacionais que se tinha para o futuro:
Só a escola e uma escola verdadeiramente de estudo e de conhecimento do Brasil poderá mostrar-nos o caminho para esse imenso esforço de emancipação nacional. Tal escola não poderá ser a escola privada, mas a escola pública, pois só esta poderá vir a inspirar-se nessa suprema missão pública, a de nacionalizar o Brasil. [...] o problema da educação não é hoje, pois, somente uma questão de progresso ou desenvolvimento, mas o da própria sobrevivência individual numa sociedade nova, superorganizada e impessoal, em que se faz extremamente difícil o senso de participação consciente. Ora, sem este senso de participação torna-se difícil, se não impossível, a sobrevivência da própria sociedade. (TEIXEIRA, 1976 apud PEREIRA; ROCHA, 2011, p. 30).
Tomados de ideias e experiências, Teixeira e seus colaboradores, tais como Lúcio Costa e Ernesto Silva, iniciaram o Plano Educacional de Brasília. Esse plano perpassava desde estratégias pedagógicas, políticas e filosóficas até a logística relativa à localidade de onde as escolas seriam construídas, pensadas de acordo com o tráfego de automóveis, as distâncias residenciais e as faixas etárias dos estudantes. Tal nos assinala Pereira e Rocha (2011, p. 32):
O plano arquitetônico da cidade, traçado por Lúcio Costa, definira a priori a estrutura básica da implantação da rede física dos estabelecimentos de ensino (COSTA, 1984, p. 101), com a distribuição equidistante e equitativa das escolas. A cidade seria organizada em superquadras com blocos residenciais, e nelas se localizariam as escolas primárias, de modo que as crianças percorressem o menor trajeto possível para atingi-las, sem interferência com o tráfego de veículos. Já as escolas secundárias, que se destinavam aos jovens e adolescentes, seriam construídas em locais predeterminados e de fácil acesso, onde também se localiza a igreja, o cinema, o comércio de varejo, etc. As propostas pedagógicas para o plano educacional deveriam se estender desde o primário até o nível superior ou terciário, cada qual suprindo suas especificidades e dotado da unanimidade de uma educação inovadora e criadora, banhada da democracia que se pretendia instaurar no ensino público. Em uma educação “sem a velha dicotomia entre formação geral e formação específica [...], a instituição escolar teria de ser repensada em seus fundamentos, alterando seus objetivos, a sua organização e os modos de funcionamento” (PEREIRA; ROCHA, 2011, p. 35). A educação proposta para Brasília deveria ser composta por instituições escolares que não fossem apenas escolas, mas “centros educacionais”, onde fosse possível a implementação de uma “educação integral” em tempo e conteúdo. Para tal, Brasília seria constituída pelos seguintes tipos de instituições escolares:
a) Centro de Educação Elementar, integrado por Jardim de Infância, Escolas Classes e Escolas Parques; b) Centros de Educação Média, destinados à Educação Secundária Compreensiva e ao Parque de Educação Média; c) Universidade de Brasília, composta de Institutos, Faculdades e demais dependências destinadas à administração, biblioteca, campos de recreação e desportos. (TEIXEIRA, 1961 apud PEREIRA; ROCHA, 2011, p. 38). Nesses “centros” a arte, entornada das influências da Escola Nova, admitidas no Brasil por Anísio Teixeira, sob influência de Dewey (1934), ganhará espaço presente e muito relevante. Ainda apresentava resquícios das “artes e ofícios”, mas agora vinha guarnecida por um alicerce mais humanista, fundamentada na teoria da educação baseada na experiência. As escolas classes e as escolas parques tinham como referencial o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, concebido em Salvador, Bahia, sob os ideais de Anísio Teixeira. Esse centro trazia o teor da estimada educação integral creditada por Teixeira: “Configurava-se a ideia de uma educação integral, que se voltava para o indivíduo em todas as suas dimensões [...], possibilitaria aos alunos participação em experiências educativas diversificadas, pelas quais se habilitariam para a ação inteligente” (PEREIRA; ROCHA, 2011, p. 40).
Cabe ressaltar que, à medida que as ideias e interferências para a concretização desses espaços ocorriam, eles eram implantados. O Plano Educacional para Brasília era pensado e implementado, por vezes, simultaneamente. No entanto, a realização factual de muitas dessas ideias e planos começou a sofrer entraves ou se esvaiu rapidamente, ora por questões financeiras, ora por motivos políticos, ora por fatos inesperados, não pensados na magnitude desse grande sonho. Analisar esses desvios ao longo do intenso e curto tempo de preparo do Plano Educacional e do nascimento da nova Capital foge de nossas propostas; porém, nos é interessante compreender um pouco a estrutura física e filosófica dos Centros de Educação Média (CEM) e do Centro Integrado de Educação Média (CIEM), já que o eixo de nossa pesquisa se baseará na perspectiva dessa etapa da educação.