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8.3 Departementets vurderinger
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
146 Considerações finais
Neste trabalho foi nossa intenção contribuir para o conhecimento e para uma melhor compreensão do mundo funerário da Idade do Bronze, a partir do estudo de um núcleo de nove monumentos sob tumuli localizados no extremo sudeste da serra da Freita, concelhos de Arouca e Vale de Cambra, no Centro-Norte litoral de Portugal. Para tal, apoiámo-nos nas várias características constitutivas destes espaços, desde logo tentando abordar de forma aprofundada e concisa todos os aspectos relacionados com os contextos e práticas, apoiados nos vários pontos que estabelecemos na metodologia de trabalho. Assim, foram alvo de um estudo detalhado, não só, os aspectos arquitetónicos das estruturas tumulares, como os seus elementos construtivos, as práticas funerárias, mas igualmente o meio físico em que estavam envolvidas.
Deste modo foi-nos possível perceber que, no que toca às arquiteturas, há uma grande complexidade e diversidade de tipologias construtivas no contexto da Idade do Bronze, mesmo numa área relativamente reduzida como é a dos monumentos em estudo. Constatámos, pelo menos, 4 grupos construtivos que tanto podem corresponder a diferentes cronologias, como a grupos identitários. Notámos, igualmente, que os seus montículos não eram construídos de forma arbitrária e que todos eles possuíam quartzos e outros materiais, por vezes de proveniência não local, que interpretámos como escolhas motivadas pelo universo religioso destas populações.
A grande dificuldade esteve em averiguar as práticas funerárias e o tratamento dado ao corpo, dada a inexistência de dados arqueológicos claros, a ausência de espólio, bem como ao grande revolvimento da área sepulcral das estruturas que foram alvo de escavação.
Não obstante a escassez de espólio, a análise da localização espacial dos monumentos permitiu-nos assinalar aspetos relevantes, tal como facto de se localizarem nas áreas mais altas do planalto, na linha de cumeada, em portelas, em áreas naturais de circulação, em áreas pedregosas mas perto de lameiros, de áreas depressionárias com acumulação de solos e de recursos de cassiterite de coluvião. Estão, igualmente, sempre, nas imediações de afloramentos de quartzo, uns mais impressivos do que outros e em locais onde não se conhecem outros vestígios arqueológicos, a não ser neolíticos. Estes elementos permitem-nos avançar com
147 algumas hipóteses interpretativas sobre os modos de vida das comunidades pré- históricas que frequentaram este espaço, ou seja, a possibilidade de estarmos perante construções erigidas por pastores que frequentariam os planaltos ciclicamente em busca de pastos, em épocas onde a permanência em locais com altitudes elevadas pudesse ser tolerada. Estariam estas populações associadas a povoados das vertentes mais abrigadas da serra ou de áreas mais longínquas, tal como ainda se verificava na primeira década do século XX, momento em que A. Girão (1922) relata a prática da transumância aqui ocorrida, e que contemplava, inclusive, rotas oriundas da região da serra da Estrela? Não sabemos, mas o único povoado que se conhece da Idade do Bronze localiza-se a cotas muito mais baixas, na bacia do Caima, no Rossio, freguesia de Vila Cova de Perrinho, concelho de Vale de Cambra, local onde também apareceu um eventual depósito metálico, entre outros achados metálicos avulsos (Bottaini & Rodrigues, 2011). Outro achado inserível na Idade do Bronze é, por exemplo, o punhal gravado na Sobidade, em Roge, Vale de Cambra19, lugar que fica, igualmente, a cotas mais baixa e perto de
vales agrícolas. A aproximação dos monumentos com recursos mineiros de cassiterite sugere que a metalurgia poderia igualmente ter sido praticada pelas comunidades que os construíram.
A escassez de espólio e de dados que nos permitissem avaliar as práticas funerárias e a dimensão religiosa destas comunidades foi compensada por outros dados a partir dos quais elaborámos algumas hipóteses interpretativas sobre o universo de crenças. A grande diversidade dos elementos litológicos presentes na constituição arquitetónica de cada estrutura em estudo parece apontar para uma seleção rigorosa e cuidada na sua disposição e organização, o que nos faz considerar que materiais geológicos como o quartzo, o granito, o xisto, os seixos rolados quartzíticos e os nódulos biotíticos, presentes nas redondezas ou em áreas mais afastadas, e selecionados para fazer parte do monumento, estariam dotados de determinadas propriedades e simbolismo, incluindo, eventualmente, cultos
19 -Segundo comunicação apresentada por Alexandre Rodrigues, Ana Bettencourt e Pedro Pimenta Simões intitulada: “The
rock art of the Caima bassin (Central-North of Portugal). Some reflection about time, space and hierarquy”, 2nd Colloquium Enardas. Recorded places, experienced places. Matter, space, time, liminarity and memory in the holocene rock art of the Iberia atlantic margin, Associação Portuguesa para o Estudo do Quaternário – APEQ, Departamento de História da Universidade do Minho, Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória – CITCEM/UM, Braga, Portugal, 6th December of 2013.
148 ligados às águas (no caso do seixo quartzítico), sendo que nada parece estar ao acaso na sua disposição nas estruturas tumulares.
Assim, tais materiais funcionariam como metáforas do universo cosmológico das comunidades, sendo que a utilização intensiva dos quartzos leitosos aponta para uma necessidade de manter a memória e o espaço dos mortos visíveis na paisagem e na dinâmica do quotidiano das comunidades. Tais interpretações rejeitam deste modo a ideia de que a dimensão reduzida destas estruturas e o seu aparente desinvestimento construtivo traduzem a perda de importância da morte e da memória dos antepassados como referente sócio religioso.
O caminho percorrido para a execução deste trabalho foi desafiante e aliciante, espacialmente pelo facto dos estudos de caso sobre monumentos sobre
tumuli da Idade do Bronze serem relativamente escassos no Centro-Norte litoral.
Desta feita, cremos ter dado um contributo, ainda que pequeno, para o conhecimento destas tão singulares manifestações funerárias da pré-história.
Ainda assim, o caminho a percorrer é grande e urge a necessidade de serem desenvolvidos mais projectos de investigação que possam dar resposta às diversas questões que persistem.
O estudo de outros núcleos destes monumentos sob tumuli existentes na Freita e noutras áreas do Centro-Norte Litoral poderá contribuir para futuras leituras globais ou para verificarmos especificidades no que toca aos contextos e práticas da Idade do Bronze, a nível local e regional.
Assim, parece-nos claro que é de uma importância extrema voltar a percorrer “caminhos velhos” para poder trilhar caminhos novos e assim compreendermos quem somos, de onde viemos, onde estamos e para onde vamos no âmbito, não só, de uma “arqueologia da morte”, mas também, e essencialmente, de uma arqueologia da vida.
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