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In document Høring - Ny boligsosial lov (sider 30-34)

Os estudos voltados para a criança e suas relações com os produtos culturais nos levam a refletir sobre a concepção da criança e o valor atribuído a ela na sociedade contemporânea. Comumente, observa-se que a criança é vista como um ser incompleto, alguém que precisa ser ensinada pelos adultos sobre os bons modos, sobre o que deve aprender, ler e fazer. Por sua vez, nesta perspectiva, o adulto, já tendo aprendido e vivenciado mais que as crianças, alcançou um estágio de formação “cristalizada”, o que o capacita a formar crianças de acordo com o que aprendeu. A infância como um processo de transformação anula a possibilidade da criança como indivíduo participante da sociedade e produtor da cultura. Perrotti (1982) afirma que é comum que se veja a criança numa perspectiva simplesmente etária, desse modo

[...] a criança é sempre alguma coisa imperfeita que necessita ser lapidada, educada. E a lapidação será feita segundo critérios fixados pelo adulto, pois este representa, na perspectiva evolucionista, o estágio mais avançado do organismo vivo em suas diferentes fases. (PERROTTI, 1982, p.12)

Muito se busca conhecer sobre as crianças na psicologia, na educação e na história, contudo, há um risco de que a criança seja tratada, no dia-a-dia, como um indivíduo que não tem consciência do que faz ou fala, de suas opiniões serem desconsideradas e até mesmo não serem ouvidas. Segundo Sônia Kramer, vivemos atualmente “o paradoxo de ter o conhecimento teórico avançado sobre a infância, enquanto assistimos com horror à incapacidade da nossa geração de lidar com as populações infantis e juvenis.” (KRAMER, 2000, p.9).

As crianças são sujeitos sociais e históricos, marcados pelas contradições da sociedade em que vivemos. A criança não é filhote do homem, ser em maturação biológica; ela não se resume a ser alguém que não é, mas que se tornará (adulto, no dia em deixar de ser criança!). (KRAMER, 2000, p.12)

Kramer defende uma concepção de infância que reconhece seu poder de imaginação, fantasia e criação. Como cidadãs, possuem senso crítico para subverter a ordem das coisas. Essa visão das crianças ajuda a compreendê-las e a ver o mundo a partir do ponto de vista delas (KRAMER, 2000).

A presente abordagem busca um entendimento mais aprofundado da criança, que vai além de seu desenvolvimento fisiológico, do avanço gradual que a levará à fase adulta, de modo que a criança é vista como um indivíduo “enraizado em um tempo e um espaço, alguém que interage com estas categorias, que influencia o meio onde vive e é influenciado por ele” (PERROTTI, 1982, p.12).

No enfoque dado a presente pesquisa, trataremos especificamente de uma produção literária voltada ao público infantil, o que requer um entendimento da criança justo e apropriado às suas necessidades específicas. A partir dos autores citados, compreende-se a criança como um ser social, que muda seus comportamentos, seus interesses e visões de mundo de acordo com as raças, os costumes, as regiões, as classes sociais e as fases de crescimento e não mais como um adulto em miniatura, como foi vista por muitos anos. Considera-se, portanto, a criança em duas esferas que se relacionam: a esfera natural de sua faixa etária e a esfera da História (PERROTTI, 1982, p.15).

Não se pretende, nessa pesquisa, estudar as crianças leitoras do século XX mas, sim, apresentar a visão de Lobato sobre a infância e seu posicionamento diante da criança, talvez como um dos primeiros escritores a se preocupar de fato com a formação delas enquanto sujeitos sociais. O delineamento do percurso histórico da noção de infância também é fundamental para o entendimento da visão que a sociedade tem da criança no presente e para o estudo das produções culturais literárias para ela e sua relação com o texto literário, nesse caso, com a literatura infantil lobateana.

Lobato criticou a concepção da criança que imperava no contexto histórico e social em que vivia, no qual a criança ainda era vista como um “adulto em miniatura”, e expõe seu sentimento e opinião em carta endereçada a Godofredo Rangel:

Ah, Rangel, que mundos diferentes e do adulto e o da criança! Por não compreender isso e considerar a criança “um adulto em ponto pequeno” é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno. Estou nesse setor há já vinte anos e o intenso grau de minha

reeditabilidade mostra que o meu verdadeiro setor é esse [...] (LOBATO, 2010, p.502)

Mantendo-se fiel à sua concepção da infância, que se diferenciava da visão de seus contemporâneos, Lobato considerava a criança um ser completo e diferente do adulto, com autonomia de pensamento e capaz de analisar, opinar sobre sua própria vida e sobre a sociedade na qual vive, descobrindo e desenvolvendo sua identidade. Nas palavras de Angelina de Castro (2008, p.17), Lobato tratou as crianças como seres pensantes ao debater os problemas do país em suas histórias, levando o leitor a uma reflexão e permitindo que participassem de uma realidade que poderia ser transformada no futuro.É possível perceber que o escritor tinha essa preocupação com a formação das crianças não apenas como leitoras, mas como indivíduos historicamente situados. Em sua literatura, o autor demonstra- se interessado em revelar os acontecimentos do mundo real e permitir que seus leitores pensem e reflitam sobre os fatos sem, contudo, ignorar o imaginário. J. W. Penteado afirma que a literatura lobateana “estimula o leitor mirim a não ter medo de perguntar, aventurar-se, rompendo com os limites entre fantasia e realidade." (1997, p. XIX). Na literatura lobateana, a criança é representada como indivíduo capaz de opinar, questionar, discordar ou concordar com determinados fatos, ensinamentos e situações que presencia, com potencial para entender e atribuir sentido às coisas da vida, imaginárias ou reais. Lobato acreditava que a criança precisava saber coisas para participar efetivamente da vida em sociedade. A opinião de Lobato se reflete em suas obras, nas quais são protagonistas personagens infantis que não apenas sabem das coisas do mundo, como querem emitir opiniões, reconhecem o valor de suas ideias e questionam as “verdades” que o mundo adulto deseja lhes impor sem receio algum.

Lobato, ao se corresponder com seus leitores, trazia-os para mais perto dos personagens, permitindo que eles também participassem das histórias, possibilitava uma troca, uma relação de compartilhamento entre as histórias e o leitor, ultrapassando os limites impostos pelo realismo do mundo adulto. J. Roberto Whitaker Penteado (1997) afirma que Lobato rompe com a tradição das histórias clássicas dos contos de fadas ao permitir que situações vividas por seus personagens ocorram no mundo cotidiano e passem para o “plano fantástico” através de “um veículo, ainda que abstrato” que é o pó de pirlimpimpim – sem esquecer do “faz-de-conta” da Emília, pois segundo o escritor:

A criança é um ser onde a imaginação predomina em absoluto. O meio de interessá-la é falar-lhe à imaginação. Vive num mundinho irreal e dêle só sai, para aos poucos, ir penetrando na das duras e cruas realidades [...] (LOBATO, 1968, p.250 apud RAFFAINI, 2008, p.15)

Falar de Monteiro Lobato nos remete à liberdade que foi concedida às crianças que liam suas obras. Não se trata da liberdade de fazerem tudo que querem, mas da possibilidade de imaginar e realizar tudo aquilo que a princípio não seria possível no mundo real.

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