O mar e a sua utilização constituem temas transversais à esfera política, económica, social e ambiental. São já muitos os estudos (Krantotellis, 2001; Gamito, 2009, Pita & Cunha, 2011) que tem vindo a apontar o aproveitamento dos recursos marítimos e, em particular, o desenvolvimento do turismo náutico, como imperativo estratégico para Portugal. Todavia, o sucesso desse desenvolvimento estará condicionado a uma base de rigoroso e profundo conhecimento acerca do fenómeno.
Provavelmente, o conceito de centro de mar/estação náutica não pode ser cegamente importado para Portugal, devendo antes ser adaptado às características do território e da sociedade. O facto de o termo «estação náutica» já ser uma marca, poderá ser facilitador nos processos de promoção e identificação junto dos mercados externos. Advogamos que estes espaços se devem fundar como plataformas desportivo-turísticas, integrando a abordagem comercial do modelo espanhol, que nos parece pertinente num país marcadamente turístico, mas também uma lógica fortemente marcada pela promoção e desenvolvimento dos desportos náuticos junto das crianças e jovens, o que a médio-longo prazo se tornará mais sustentável a vários níveis (por exemplos: gosto e hábitos de prática desportivas que aumentam o número de consumidores adultos; recursos humanos com experiência e motivados para se tornarem futuros profissionais qualificados, etc.).
Consideramos ainda que Portugal e a região do Algarve, em particular podem vir a comportar mais do que um centro de mar/estação náutica. Os pressupostos em que nos baseamos são: o potencial natural ao nível dos planos de água, o potencial urbano- turístico, a possibilidade da navegabilidade sequencial em diferentes suportes flutuantes, ao longo de toda a costa Algarvia, as distâncias mínimas aconselháveis entre estações náuticas definidas nos modelos já existentes, entre outros. Salientamos que este conceito é identificativo de um espaço desportivo-turístico com um enfoque na oferta de serviços náuticos (comportando uma ampla e diversificada existência de bases náuticas num espaço territorial alargado).
Julgamos ainda que a organização da oferta deve ser precedida por uma análise minuciosa das dinâmicas do território. Existem zonas onde determinada modalidade pode ganhar mais expressão, como, por exemplo, a prática do surf na zona de Sagres. Todavia, se nos debruçarmos sobre o eixo Lagos-Portimão-Silves, ou sobre a Ria Formosa, tal diferenciação pode ser um pouco forçada, na medida em que se tratam de zonas com potenciais equivalentes para prática de vários desportos náuticos. A zona de VRSA-Alcoutim-Castro Marim poderá apresentar maior apetência para canoagem, no entanto, a vela e o kitsurf poderão ter também uma expressão relevante.
Para incorporar este conceito na região do Algarve é fundamental que exista uma visão estratégica partilhada, na qual os serviços desportivos náuticos sejam identificados como um fator de desenvolvimento regional e façam parte integrante do desenvolvimento do tão apregoado cluster do mar. É necessário colocar este tema na agenda estratégica e só através de lideranças inovadoras, proativas e com competência para a definição de modelos integrados de desenvolvimento e gestão do território, será possível avançar para
planos de ação que tornem a região num destino náutico de eleição.
Por outro lado, como é sabido, o turismo náutico e a navegação de recreio afetam e promovem o desenvolvimento de uma autêntica fileira de atividades económicas direta, ou indiretamente, ligadas às necessidades dos navegantes. As infraestruturas de estacionamento e a manutenção das embarcações são apenas duas delas, a que se poderiam acrescentar muitas outras. Esta forma de turismo pode pois contribuir substancialmente para o desenvolvimento socioeconómico, para aumentar o emprego e o nível de vida dos habitantes da região e para a preservação dos ecossistemas, na condição, claro, de ser estabelecido sob condições cientificamente fundamentadas.
Alertamos para a questão da necessidade de se agir em tempo útil, nomeadamente: estabelecer uma rede de compromissos entre atores públicos e privados, elaborar diagnósticos dos subterritórios, definir prioridades de ação, criar espaços náutico- desportivos qualificados, formar recursos humanos de qualidade, desenvolver serviços náuticos associados aos recursos culturais, ambientais, gastronómicos a oferecer nos pacotes turísticos, desenvolver uma oferta de qualidade e volume com significado para a promoção da região, ancorada na imagem e notoriedade associadas à náutica, tendo em vista a atração de operadores, agentes turísticos e eventos desportivos náuticos de elevado nível.
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