A relação entre a literacia em saúde e a promoção da saúde é inquestionável, assumindo cada vez mais um papel de destaque e com impacto no funcionamento dos sistemas de saúde e sociais. A realidade que vivemos em pleno século XXI impõe que se abandone o conceito de literacia em saúde enquanto mera capacidade para procurar e interpretar informação sobre saúde. Hoje, pede-se aos cidadãos que se tornem agentes de mudança e que, de forma informada e esclarecida, promovam a sua própria saúde e contribuam para a promoção da dos seus familiares e comunidade em que se inserem.
Os modelos conceptuais da literacia em saúde de Nutbem (2000) e Sørensen et al. (2012) que a seguir de apresentam seguem precisamente esta linha de pensamento, olhando para a literacia em saúde como um conceito abrangente e como uma realidade com impacto a nível individual e a nível social, onde a participação, o empoderamento e a advocacy assumem um papel de destaque.
111 2.3.1. Modelo conceptual da literacia em saúde de Nutbeam (2000)
O modelo conceptual de literacia em saúde de Nutbeam apresenta a educação para a saúde e a comunicação para a saúde como elementos da promoção da saúde. Por sua vez, a literacia em saúde surge como um resultado direto das ações para a promoção da saúde (Nutbeam, 1996, 2000; World Health Organization [WHO], 1998b).
Figura 2.2 - Modelo conceptual da literacia em saúde de Nutbeam (2000)
Fonte: Traduzido e Adaptado de Nutbeam (2000)
O modelo de Nutbeam representa todo o processo da literacia em saúde enquanto resultado dos esforços para promoção da saúde. Em primeiro lugar, as ações de promoção da saúde contemplam a educação ou informação, incluindo materiais informativos e conteúdos veiculados pelos órgãos de comunicação social. Incluem também ações de mobilização social e de advocacy, enquanto elementos essenciais para promover a participação e envolvimento.
Estes três tipos de ações resultarão, então, em três tipos de outcomes, sendo o primeiro a literacia em saúde, entendida neste patamar como a obtenção de conhecimentos e competências que promovam a saúde, ou seja, entendida na ótica da literacia funcional, o primeiro nível de literacia em saúde da
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World Health Organization [WHO] (2009a). Os restantes outcomes diretos compreendem, por sua vez, a ação e influência social e as políticas públicas para a saúde. No seu conjunto, estes outcomes diretos da promoção da saúde contribuem para resultados intermédios de saúde, como comportamentos e estilos de vida mais saudáveis, melhores serviços de saúde e ambientes que promovam a saúde.
No topo da pirâmide encontramos os outcomes sociais e de saúde, os fins últimos para os quais a promoção da saúde contribui e que se assumem como resultados da literacia em saúde. No entanto, é necessário salientar que a literacia em saúde, por si só, não leva a todos os outcomes definidos. Tal como representado no modelo, a par da literacia em saúde, as ações sociais e as políticas públicas são elementos indispensáveis.
2.3.2. Modelo conceptual da literacia em saúde de Sørensen et al. (2012)
Em 2012, Sørensen et. al., procederam a uma revisão da literatura do conceito de literacia em saúde tendo chegado a uma das mais completas definições:
A literacia em saúde está ligada à literacia e compreende os conhecimentos, motivações e competências necessárias para aceder, compreender, avaliar e aplicar informações sobre saúde, de modo a que se possam fazer julgamentos e tomar decisões no dia-a-dia relacionadas com os cuidados de saúde, prevenção de doenças e promoção da saúde, com o objetivo de manter ou promover a qualidade de vida durante todo o ciclo de vida (Sørensen et al., 2012: 3).
Na mesma obra, os autores apresentam a sua proposta de um modelo conceptual da literacia em saúde, seguido pela WHO (WHO Regional Office for Europe, 2013) e já adaptado para a língua portuguesa por Saboga-Nunes (2014).
Figura 2.3 - Modelo conceptual da literacia em saúde de Sørensen et al. (2012)
113 O modelo de Sørensen et al. (2012) surge como uma tentativa dos autores de congregar as várias dimensões, aspetos e impactos da literacia em saúde. Os três principais domínios encontram-se representadas nas figuras ovais concêntricas, num modelo de proximidade e distância dos fatores de impacto da literacia em saúde.
No centro encontramos quatro dimensões correspondentes às quatro capacidades da literacia em saúde: (1) aceder; (2) compreender; (3) avaliar; e (4) aplicar a informação sobre saúde. No seu conjunto as quatro dimensões englobam os três níveis da literacia em saúde propostos por Nutbeam (2000).
(1)Acesso refere-se à capacidade para procurar e obter informação sobre saúde; (2) Capacidade de Compreensão refere-se à aptidão para compreender a informação sobre saúde a que se tem acesso; (3) Avaliar descreve a capacidade para interpretar, filtrar, julgar e avaliar a informação sobre saúde a que se tem acesso; (4) Aplicar refere-se à capacidade para comunicar e utilizar a informação sobre saúde para tomar decisões que mantenham ou promovam a saúde (Sørensen et al., 2012: 9).
Todo este processo resulta em aquisição de conhecimentos e capacidades que permitirão ao indivíduo enveredar pelas três dimensões da literacia em saúde: cuidados de saúde; prevenção da doença; e promoção da saúde. Em cada uma das três dimensões, seja enquanto utente dos cuidados de saúde, seja enquanto pessoa em risco de desenvolver ou contrair uma doença ou, ainda, enquanto cidadão envolvido nos esforços de promoção da saúde na comunidade, o indivíduo passará pelas quatro dimensões da literacia em saúde, que começam com a aquisição de conhecimentos e terminam na mudança de comportamentos.
Quadro 2.1 - Matriz das quatro dimensões da literacia em saúde aplicadas aos três domínios da saúde
Acesso à informação Compreensão da informação Avaliação da informação Aplicação / uso da informação Cuidados de Saúde Capacidade para aceder a informação sobre assuntos médicos e clínicos Capacidade para compreender informação médica e derivar o seu significado Capacidade para interpretar e avaliar informação médica Capacidade para tomar decisões informadas sobre questões médicas Prevenção da Doença Capacidade para aceder a informação sobre fatores de risco para a saúde
Capacidade para compreender informação sobre fatores de risco e derivar o seu significado Capacidade para interpretar e avaliar informação sobre fatores de risco para
a saúde
Capacidade para tomar decisões informadas sobre os fatores de risco para
a saúde Promoção da Saúde Capacidade para se atualizar sobre os determinantes de saúde no seu ambiente físico e social Capacidade para compreender informação sobre determinantes de saúde no meio físico
e social e derivar o seu significado Capacidade para interpretar e avaliar informação sobre determinantes de saúde no meio físico
e social
Capacidade para tomar decisões informadas sobre determinantes de saúde no meio físico
e social
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Tanto nos cuidados de saúde, como na prevenção da doença ou na promoção da saúde, é exigido a cada um a capacidade para procurar a informação, interpretá-la, analisar e avaliar a sua importância e aplicar os conhecimentos, sempre numa ótica de ultrapassar as eventuais barreiras à saúde, promovendo o seu bem-estar e qualidade de vida, assim como o da sua família e comunidade.
Analisando o modelo de Sørensen et al., (2012) encontramos bem patente a importância das mudanças tanto a nível individual, como a nível populacional ou comunitário já discutidas anteriormente. O eixo horizontal demonstra-nos que, para a esquerda se encontram os fatores mais individuais e, para direita os mais populacionais. Do mesmo modo, encontramos à esquerda os antecedentes e à direita as consequências da literacia em saúde. No que diz respeito aos fatores que influenciam o grau de literacia em saúde, encontramos um conjunto de determinantes sociais e ambientais, como a demografia, a cultura, a língua, o sistema político e os sistemas sociais. Por outro lado, determinantes mais pessoais, como a idade, o género, a etnia, o estatuto socioeconómico, o grau de educação, a profissão, os rendimentos e a literacia. Por último, determinantes de contexto, como o suporte social, a influência da família e outros grupos de referência ou o uso dos media (Sørensen et al., 2012).
No que concerne às consequências de um grau elevado de literacia em saúde nos indivíduos de uma determinada sociedade, estas começam por se evidenciar em comportamentos de saúde mais informados que, por sua vez, levarão a resultados em saúde e a melhorias na utilização dos serviços de saúde, assim como a uma redução dos custos. Cidadãos com elevado nível de literacia em saúde serão capazes, por sua vez, de participar em debates públicos e privados sobre saúde, medicina e conhecimento científico, tornando-se cada vez mais autónomos e evidenciando um grau de empowerment cada vez maior, conceito traduzido por Saboga-Nunes como empoderamento e conscientização, uma expressão que pretende traduzir a ideia de que os indivíduos para além de conscientes da informação, estarão também cientes dos comportamentos que deverão ter e terão todas as bases para tal. A nível individual, os efeitos serão uma melhoria na qualidade de vida e, a nível populacional ou social, um aumento da equidade e sustentabilidade da saúde pública (Luis Saboga- Nunes, Sørensen, & Pelikan, 2014; Luís Saboga-Nunes, 2014; Sørensen et al., 2012).
Todo este processo da literacia em saúde, incluindo os seus antecedentes e consequências, por depender de tantos fatores, vai sofrendo alterações e evoluindo ao longo da vida de cada indivíduo. De facto, aquilo que é verdade num dia, não o será 30 ou 40 anos depois, daí a necessidade de uma adaptação constante às novas realidades e exigências da sociedade.