1 Innledning
3.5 Departementets vurdering og forslag
Outro que fez do negro matéria poética e, por isso mesmo, pode ser incluído como representante da poesia negrista brasileira, é Mário de Andrade. Já em 1924, por exemplo, o escritor paulistano assim declara a Manuel Bandeira: “é preciso acabar com esse individualismo orgulhoso que faz de nós deuses e não homens. Hoje sou muito humilde. Meu maior desejo é ser homem entre os homens. Transfundir-me. Amalgamar-me. Ser entendido”121. Lateja na
121 ANDRADE, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966. p. 37.
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escrita de Andrade o anseio de aproximação do sujeito com a realidade. Tratar das questões sociais é, nesta medida, função do artista e missão da literatura. E esta tendência vai-se acentuando ao longo de sua vida; sua poesia se torna cada vez mais comprometida com questões sociais, com a condição humana. Essa atuação empenhada em certo sentido explica o vasto e diverso gradiente de atividades que Mário de Andrade exerceu: além de poeta, foi contista, romancista, professor, crítico, musicólogo, etnólogo, epistológrafo e funcionário público. Este multifacetado esforço criativo impacta, naturalmente, o valor e os rumos de sua obra literária, em termos de conjunto. O artista, aliás, estava bem consciente deste fato. Em sua correspondência, frequentemente alude ao caráter efêmero de seu ofício, sabendo que está “sacrificando a procura da beleza estética”, como ele mesmo diz, pelas tarefas do homem que participa do destino dos outros:
nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade. Eu me sacrifiquei inteiramente e quando eu penso em mim nas horas de consciência, eu mal posso respirar, quase gemo na pletora da minha felicidade. Toda a minha obra é transitória e caduca, eu sei. E eu quero que ela seja transitória.122
Os compromissos com a condição humana e com a própria vida são temas que Mário de Andrade mais valorizava. Pode-se afirmar, sem medo, que são dois dos fundamentos de sua poesia. Seu universo poético recria experiências psíquicas individuais. É marcado pela constante interação entre o sujeito e o objeto, entre a vida interior e a realidade externa. É a vivência do poeta no mundo que o faz múltiplo e, por isso mesmo, capaz de perceber a inteireza da existência por meio de rastros do vivido.
A poesia de Mário de Andrade representa, pois, uma espécie de
testimonio de sua vida, na qual subjaz a realidade exterior, aqui entendida como
individualizada, interiorizada. Não se apaga de todo, em Mário, a sua condição mulata e o seu trabalho linguístico de tentar expressar a alma negra. Sintetiza
122 ANDRADE, Mário de. “Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade”. In
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este argumento o poema “Eu sou trezentos”, contido em Remate de Males: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,/ As sensações renascem de si mesmas sem repouso,/ Ôh espelhos, ôh Pirineus! Ôh caiçaras!/ Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!”123
Os poemas de Mário de Andrade deixam, em geral, uma impressão de intensidade, fragmentação e ambiguidade, fato que é estreitamente ligado à procura modernista de outras formas da expressão verbal, correspondentes a um novo olhar do mundo contemporâneo. A vida é concebida como uma instância multiforme e complexa; daí a desconstrução de sua concepção tradicional como unidade e a busca de uma nova síntese.
Inevitavelmente, a criação literária de Mário de Andrade deságua no universo do conflito: parte de um problema, de um choque de impressões diversas. O conflito provoca uma série de associações, desencadeia um amálgama de imagens, ideias, sensações, assim como uma sobreposição de vários planos vividos. O mosaico de imagens independentes aspira a uma visão totalizadora, embora muitas vezes a síntese é impossibilitada pela convivência minimamente “harmônica” dos “trezentos Mários”. O próprio eu-lírico de Mário testemunha reiteradamente o seu caráter fragmentário e conflituoso; consciente da relatividade dos valores, de sua condição efêmera e instável, orienta-se, em sua busca, para o autoconhecimento e para a superação da fugacidade da existência:
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, Mas um dia afinal eu toparei comigo... Tenhamos paciência, andorinhas curtas, Só o esquecimento é que condensa, E então minha alma servirá de abrigo.124
Homem de seu tempo e de seu país, Mário de Andrade não deixou de trabalhar as questões que envolvem o universo afro-brasileiro, talvez até por sua condição de mulato, a qual jamais assumira plenamente, embora pululem aqui e ali heranças de África, diasporizadas no vocabulário, no ritmo, em algumas das estruturas poéticas e nos ensaios sobre música.
123 ANDRADE, Mário de. Poesias completas. 4 ed. São Paulo: Martins, 1974. p. 157. 124 ANDRADE, 1974, p. 157.
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Reavivo as palavras do próprio Mário de Andrade, para quem a arte inspirada na cultura popular do Brasil era menos uma prioridade estética do que um instrumento para a integração nacional, a qual passa sem dúvida alguma pela África, entendida aqui como fonte primitiva:
O período atual do Brasil, especialmente das artes, é o de nacionalização. Estamos procurando conformar a produção humana do país com a realidade nacional. E é nessa ordem de ideias que justifica- se o conceito de Primitivismo aplicado às orientações de agora. Ele é social.125
A dimensão social, proposta por Mário de Andrade, se faz significativa se pensarmos que o objetivo era exatamente reafirmar a integração das “raças” formadoras de nossa nacionalidade, e não se preocupar com os problemas reais do coletivo afro-brasileiro.
Bom exemplo é o livro Poemas da negra (1929). Ele é composto por 12 textos líricos, dirigidos a uma mulher negra, a qual é tratada com profunda admiração. Em certo sentido, estratégias típicas do trovadorismo, como a “coita d’amor”, a vassalagem amorosa e a idealização do outro são reeditadas pelas falas do eu-lírico. Perpassa as páginas em questão um intenso desejo em definir o “caráter brasileiro” sem se esquecer da “alma do negro”. Esta está imbuída de vasta herança africana, aqui plasmada na linguagem, aliás, repleta de termos tomados de empréstimo do bantu e do iorubá. A influência de línguas africanas também é encontrada na prosa do escritor, mais especificamente em
Macunaíma (1928). O desejo de fundir as três matrizes étnicas a fim de
configurar o brasileiro real está presente em parte da obra de Mário.
Em “Você é tão suave”, a mulher negra é vista como musa, o que não deixa de ser um grande avanço por parte do poeta. O tom carinhoso e o tom de louvor à beleza negra conferem um movimento de ruptura com atitudes representativas do passado. Poder-se-ia questionar se esta atitude não se deve ao espelhamento ou dissolução do fenótipo negro da mulher na negritude da voz poética.
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você é tão suave, vossos lábios suaves vagam no meu rosto fecham meu olhar. Sol-posto.
É a escureza suave Que vem de você,
Que se dissolve em mim.126
Mesmo com todos os atributos positivos, o texto está preso ainda à condição física da mulher negra, sem, portanto, trabalhar as suas potencialidades psicológicas. É curioso notar que o mesmo enunciador que vê na pele da mulher negra seu espelhamento, linhas depois, remarque a diferença que há entre eles. A perturbação identitária do enunciador parece ser, em verdade, um desdobramento da perturbação do sujeito empírico Mário de Andrade, para quem assumir de vez a “escureza” não foi ponto pacífico. Tanto é que não a assumiu – nem a negou com veemência e em definitivo.
Estou com medo Estou com medo... Teu beijo é tão beijo Tua inocência é dura, Feita de camélias. Oh, meu amor,
Nós não somos iguais!127
Mais uma vez, conduz o poema o apelo sensual, o desejo de possuir o corpo de sua amada. O titubeio do enunciador pode tanto apontar o receio em possuir a amada quanto em assumir a “diferença” entre ele e ela. Assim segue o conjunto de poemas, exaltando o desejo pela mulher negra, entendida enquanto mulher-corpo. Será que, nas entrelinhas, o texto não acaba por reproduzir o ditado popular: “branca para casar; negra para trabalhar; e mulata para fornicar”? Ao menos, é o que se percebe, mais uma vez:
126 ANDRADE, 1974. p. 186. 127 ANDRADE, 1974, p. 187.
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XI
Ai momentos de físico amor Ai momentos de físico amor, Ai reintrancias de corpo...
Meus lábios são que nem destroços Que o mar acalanta em sossego.128
Por um lado, o poema avança em relação às posturas do século XIX e em relação a muitos dos seus contemporâneos, ao retratar a possibilidade de desejo e amor pela mulher negra, esta vista como desejada, amada, querida. E a forma deste bem-querer é regada de servilismo amoroso de cunho sensual. Por outro lado, a inteireza da mulher negra é relegada ao segundo plano. A voz condutora do projeto poético é somente a masculina. O titubeio étnico do enunciador aponta para o local conflituoso do ponto de vista enunciativo. Nem branco nem negro, mas numa espécie de fronteira étnica, quiçá marcada pelo branqueamento. Trataremos deste aspecto adiante, quando formos abordar
Macunaíma.
Como Jorge de Lima e Raul Bopp, Mário de Andrade recai no estereótipo mulher-corpo, ou seja, aquele que reduz o outro a mero objeto de prazer. Será o erotismo o mecanismo de integração nacional por detrás de Poemas da negra? Mas este mecanismo já não estava presente em outros poetas negristas? O universo negro não é, na corrente da qual tratamos, um primitivo estilizado e devolvido palatavelmente ao gosto nacional do início do século passado? Mais: tudo isso não aparecerá no campo do romance?