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DEPARTAMENT DE PSICOLOGIA Director: Mateu Servera Barceló

In document Memòria d'Investigació 2002 (sider 103-107)

ACTIVITATS DE RECERCA Tesis

3.13. DEPARTAMENT DE PSICOLOGIA Director: Mateu Servera Barceló

Na discussão acerca da construção de identidade, podemos nos reportar aos escritos de autores como Cuche(1999), Aguier (2001),Grzybowski (1990), Silva (2000) e Santos (2008) para minimamente entendermos como a identidade pode ser utilizada como elemento fundamental no que se refere à elaboração de estratégias de luta e acesso a terra, pois estes autores defendem que é no processo de luta pela terra que os camponeses se percebem e se auto definem como camponeses, uma vez que o processo de (re)construção da identidade é

sempre contextual e está intimamente ligado a uma estratégia de acesso a algo específico que está em jogo, nesse caso, o elemento em jogo seria o acesso a terra.

A identidade se constrói, se desconstrói e se reconstrói segundo as situações. Ela está sem cessar em movimento, cada mudança social leva-a a se reformular de modo diferente (CUCHE, 1999, p, 198).

E mais:

A identidade é vista como um meio para atingir um objetivo. [...] Na med ida em que ela é um motivo de lutas sociais de classificação que buscam a reprodução ou a reviravolta das relações de dominação, a identidade se constrói através das estratégias dos atores sociais (CUCHE, 1999, p, 196).

Diante dessas reflexões entendemos que aquele pequeno grupo que adentrou os limites da fazenda Dourada, que mais tarde se consolidaria no PA Bom Jardim, com o sonho da terra de morada e trabalho, em virtude do contexto de exclusão ao qual todos estavam submetidos, passaram a figurar dentro de um processo de construção de identidade. Primeiro, a identidade com um modo de vida (o camponês) e, por conseguinte a identidade com aquela determinada fração do território. Fato este que legitima a reivindicação do acesso a terra e se mostra decisivo para a resistência do grupo naquele espaço, como mostram as reflexões a seguir:

[...] o processo de identificação camponesa que necessita antes de tudo de uma base territorial para se desenvolver pode ser considerado como uma forma de estratégia identitária que vai servir de legitimação para o acesso a terra. (SANTOS, 2008, p.37)

Na disputa pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por outros recursos simbó licos e materiais da sociedade. A afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir o acesso privileg iado aos bens sociais (SILVA, 2000, p, 81).

Então defendemos a grande importância, para o sucesso no processo de ocupação e conquista da terra, da construção de uma mesma identidade pelo grupo tanto entre si como em relação ao pedaço do território que se pretende conquistar, pois quando o indivíduo toma a consciência de que é realmente parte daquele grupo social e daquela fração do território, ele se percebe tendo o direito de permanecer ali e ali se reproduzir socialmente enquanto camponês. Assim a ideia defendida por Haesbaert (1999, p. 172), propondo a existência de uma identidade territorial, faz-se muito pertinente no caso estudado, pois ele a define como sendo “uma identidade social definida fundamentalmente através do território”. Ou seja, na história de vida desses agricultores, a terra passa a compor o campo das necessidades básicas de reprodução dessas famílias.

Essa ideia torna-se bem evidente na presente pesquisa, uma vez que para esses indivíduos envolvidos em nossa problemática, a identidade camponesa só pôde ser gerada a

partir do acesso a terra que é inevitavelmente o palco de construção da identidade camponesa. Nesse sentido, para a construção da identidade do grupo analisado, houve a necessidade não só de uma base simbólica para se estruturar, mas também fez alusão a uma base concreta: o território. É nessa perspectiva que a identidade camponesa construída pode ser compreendida como uma identidade socioterritorial que de acordo com Haesbaert (1999, p. 179) “Trata-se de uma identidade em que um dos aspectos fundamentais para sua estruturação está na alusão ou referencia a um território, tanto no sentido simbólico quanto concreto.”

Dessa forma para realmente o indivíduo se reconhecer e ser reconhecido pelos outros grupos enquanto um camponês é indispensável que ele esteja intimamente atrelado a uma determinada fração do território, intimamente aqui no sentido do indivíduo se perceber enquanto parte fundamental do território e vice-versa.

Já no que se refere ao sentimento de pertença com o lugar, este é muito mais evidente naqueles indivíduos que participaram desde os primeiros anos de ocupação e construção do assentamento Bom Jardim do que naqueles sujeitos que chegaram no assentamento depois de todo o processo de luta e reivindicação por melhorias do lugar. Entendemos assim que a identidade socioterritorial se aflora muito mais, quando o sujeito participa da luta e conquista de determinada fração do território, pois como já afirmamos, é no processo da luta que a identidade vai se moldando até o ponto dever confundida a sua própria história de vida com a do lugar. Como evidenciado na seguinte fala:

“Não tem como ir embora...isso aqui é como se fosse parte de mim, porque eu sofri e lutei muito pra continuar aqui dentro porque mesmo que o fazendeiro já quisesse se livrar daqui eles nunca querem sair perdendo, então mandou jagunço pra cima da gente, sem contar com a malária que só aqui foi mais de 15. Então pra mim não dá pra viver longe daqui, esse é o meu lugar...faz parte da minha vida...tem o meu suor e até o meu sangue derramado nessa terra.”(Lírio , 61 anos.)

Na fala acima fica bastante evidente a noção de pertencimento com o lugar, onde aquela parcela do território não se apresenta somente na sua escala do concreto, mas, sobretudo na escala do simbólico e do vivido. Dessa forma deve-se entender o espaço a partir da sua escala do vivido para minimamente se compreender as suas diferentes formas de uso e ocupação.

In document Memòria d'Investigació 2002 (sider 103-107)