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5 Constraints on the in situ density of CO2 within the Utsira formation from time-lapse seafloor gravity
5.5 Time-lapse results
5.7.1 Density estimate
Para identificar as parteiras tradicionais da RIDE, conferindo-lhes a devida importância e o sentido mais valorativo possível, recorri ao mundo da mitologia para nominá-las, preservando suas identidades, dando-lhes o cognome de Deusas (Anexo 2) de variadas culturas, espaços geográficos e temporalidades, tendo em vista as diversificadas características das mulheres que partejam nessa região.
Com base nesse olhar, utilizou-se a idéia de dispositivo, entendido como qualquer estrutura que permita tornar visível o que estava escondido na vida ordinária, no contexto das pessoas.
Inicialmente, foi possível, com a aplicação do questionário, definir a reconstituição das trajetórias de vida e realizar entrevistas – as fontes orais, com as catorze parteiras tradicionais, tornando-as parteiras colaboradoras desse estudo, com a seguinte distribuição:
- 01 parteira na área periurbana e 01 de área rural do Município de Formosa;
- 01 parteira de assentamento rural e 01 na área periurbana da cidade de Planaltina de Goiás;
- 01 parteira na área rural, 02 na cidade e 01 na área periurbana de Santo Antônio do Descoberto;
- 02 parteiras nos assentamentos rurais e 01 na área periurbana de Padre Bernardo;
- 02 parteiras no Alto do Bonfim e 01 no Centro de Pirenópolis.
Para descrever as parteiras desse estudo, adequando-as aos pseudônimos que as identificam, viveu-se a oportunidade de refletir sobre a cultura de suas comunidades e de suas trajetórias, que trazem sentidos diversos e peculiares às transformações vivenciadas, a partir dos valores e costumes atuais que não existiam na época em que viveram a transmissão oral e transgeracional do partejar.
Transformações e descontinuidades que promoveram modificações às relações sociais, à interpretação de mundo e à estrutura do ofício e ritual do partejar, tal como foi possível observar em suas narrativas.
Diante desse entendimento, as parteiras, na mitologia e na história, são identificadas como deusas e como ícones da criação. Assim, a história informa algumas de suas nominações:
– Mama Occlo, Deusa Inca que representa a Xamã interior, a mulher
de sabedoria, capaz do encontro consigo mesma. Característica que tem semelhança com a parteira que recebe esse pseudônimo, considerando sua maturidade e centramento para viver as etapas de sua vida, assim como para a participação durante nossos encontros e na entrevista.
- Dakini, Deusa tibetana, que é chamada de "dançarina do céu", e considerada a divindade feminina da meditação. Valiosa colaboradora na compreensão e interpretação de textos sagrados. A parteira que recebe o nome dessa deusa transmite característica de pessoa compreensiva, capaz de entender textos e sinais orientadores do partejar, transcendendo suas condições de possibilidade, resultando em sincronia com o processo da parturiente que acompanhava.
- Sirona, Deusa celta das fontes, da magia e da cura e protetora das artes. Essa parteira tem forte presença junto às mulheres, sabe utilizar-se da sutileza e sensitividade ancorando as ações de cuidados apropriadas para cada mulher;
- Ceres, Deusa romana da agricultura, protegia plantações e oferecia fartas colheitas e amor maternal. Característica que se adéqua à parteira que será identificada com seu nome, por ser uma mulher ligada à terra, às plantas medicinais e à sua família.
- Dana, Deusa celta, considerada a Deusa Mãe, progenitora das outras divindades. Reverenciada como Senhora da Terra, da água, da abundância, da plenitude da Natureza e da soberania. Assim será denominada essa parteira, por sua expressão de nobreza e de forte conexão com suas ancestrais, de onde intuía sua atuação.
- Kali, Deusa ancestral hindu com aspecto energizador, venerada com
o arquétipo da Grande Mãe. Essa deusa tem relação com a parteira por ser uma mulher do silêncio regenerador e transmitir mansidão, beleza e singeleza.
- Hestia, Deusa grega do lar, simbolizada pelo fogo da lareira, protetora absoluta da família. Característica que tem relação com a parteira pragmática e determinada para atender as mulheres, cumprindo sua tarefa de forma resignada.
- Yemanjá, Deusa da nação ioruba, Oeste africano, regente do mar, da lua cheia, padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, mãe divina protetora e nutridora que acalenta e mitiga as dores. Essa deusa tem forte relação com a parteira identificada com esse pseudônimo, por sua altivez e faceirice, alegria e despojamento, capaz de concretizar seus sonhos e planos de Vida, protetora e cuidadora de mulheres e crianças.
- Pacha Mama, Deusa dos povos andinos, provedora de todos os alimentos, nutridora e protetora de seus filhos. Característica que se adéqua à parteira por sua persistência em viver e trabalhar no campo, onde desempenhou suas habilidades como parteira, raizeira e benzedeira com convicção e fé.
- Beltia, Deusa babilônica, era "A Senhora", reinando nos céus, tinha a capacidade de aliviar sofrimentos, dar vida, alegria e prazer. A parteira que está identificada com essa deusa é uma mulher engajada na cultura popular, com muita fé, alegria e consciência de seu potencial de cuidadora.
- Oxum, Deusa da água doce, do ouro, da fertilidade e do amor. Orgulhosa da beleza que pensa ter por direito natural, não gosta da pobreza e nem da solidão. Características que se adéquam à parteira que identificará, por ser uma mulher bonita, corajosa e determinada a galgar os passos necessários à concretização de seus planos e sonhos vinculados às suas ancestrais, preservando a arte e ofício do partejar.
– Oya, Deusa dos raios, dos ventos e das tempestades. É uma espécie de entidade feminista, brilhante, conversadora e corajosa. Simboliza as estações do ano. A parteira que representa essa deusa tem características semelhantes, apresenta-se consciente de sua ancestralidade, foca-se na religiosidade e em seu papel social de cuidadora.
– Damona, Deusa celta das fontes e das águas termais, da fertilidade e cura. Assim, será chamada a parteira, por ser uma mulher forte e vinculada à terra e às águas, características do território onde vive e se sente bem, tendo desempenhado o ofício do partejar com expressão de brio e mansidão.
– Jaci – Deusa da Lua na mitologia tupi-guarani, Mãe Divina, protetora dos amantes e da reprodução, atração grande pelo mistério, silenciosa e realizadora, exerce grande atração e influência no meio onde vive. A parteira que recebeu seu nome é vista como uma pessoa estóica, de firme convicção na sua visão de mundo e na forma de cuidar das pessoas que lhe buscam, visível na expressão de sua fé e na forma como descreve suas experiências de parir e de partejar.
4 DISCURSOS E NARRATIVAS DAS PARTEIRAS
Inicialmente apliquei um questionário (Anexo 5), para identificação e registro de dados sociodemográficos, permitindo melhor conhecer parteiras, ouvindo-as e aprendendo sobre o contexto em que desempenhavam a tarefa do partejar.
Dentre as vinte parteiras identificadas a que tiv acesso, 14 delas atenderam aos critérios desse estudo, que considerou a atuação do partejar no domicílio, como experiência construída por transmissão oral das mais velhas para as suas novas aprendizes, parentes e ou conhecidas da comunidade onde habitam.
O tipo de entrevista (Anexo 6) usada nesse estudo permitiu que as informantes respondessem livremente às indagações feitas de cunho confidencial e íntimo, com relatos muito ricos, expondo o contexto pessoal e social em que emergiram suas experiências e práticas no partejar, algumas vezes permeadas pelas emoções e sentimentos frente às suas memórias, com manifestação de choro por lembrar de momentos impactantes de ventura, de alegria, mas também de alívio e gratidão; lembranças envoltas em histórias pessoais, familiares e comunitárias de seus momentos e movimentos.
Ao observar os discursos das parteiras em sua particularidade, pude apreender os fatores associados à dinâmica do processo que as tornou parteiras, pela necessidade de participarem e vivenciarem de forma concreta os espaços do parir e do partejar, onde se desenrola a trama efetiva dos vínculos sociais fundamentais a esse ofício.
Por meio da análise das narrativas foi possível alcançar o entendimento detalhado das práticas sociais em sua descontinuidade histórica, imersas em relações de poder, ao mesmo tempo em que elaboram e produzem discursos e saberes.
Nesse percurso e busca da compreensão, organizei todo material que constitui o corpus da pesquisa. Assim, foram surgindo questões norteadoras, tendo como apoio a sustentação teórica e os estudos conhecidos e analisados sobre parteiras para embasar, teoricamente, o caminho investigativo.
Durante a exploração do material ouvi repetidamente as entrevistas, seguidas de várias leituras das narrativas. A escuta permitiu compilar os dados originais e organizá-los em categorias pré-formuladas, que constituem a abordagem genealógica – Emergência, Permanência e Adequação ao campo discursivo.