Visando recuperar a competitividade das empresas, restabelecer a confiança no dólar e centralizar o dinheiro do mundo de novo nos EUA, os governos republicanos de Reagan e Bush I estabeleceram uma nova “aliança” com o setor financeiro buscando: a) a elevação da taxa de juros acima da inflação para o governo competir pelo capital circulante mundial; b) a desregulamentação do sistema financeiro para incentivar o livre fluxo de capitais, e; c) o endividamento do Estado pela esfera militar, ora com o reaquecimento da Guerra Fria – sendo o programa “Guerra nas Estrelas” do governo Reagan, o exemplo mais conhecido – ora com a série de exibições militares em países “inamistosos” do Terceiro Mundo, tais como Granada, Líbia, Panamá e Iraque (ARRIGHI, 1996, p. 328). Ademais, por meio do Acordo Plaza de 1985, que desvalorizou o dólar em relação ao iene japonês e ao marco alemão, os EUA buscaram reduzir o déficit em conta corrente e se reerguer da recessão. Embora o déficit comercial com a Europa Ocidental tenha diminuído, o acordo falhou em reduzir o déficit comercial com o Japão devido a condições estruturais como a alta produtividade japonesa e as restrições desse país às importações (SILVA, 2012, p. 164-165).
Reagan’s key policies of higher military spending and lower taxes, increased budget deficits from 2.6% of GDP in 1981 to 6% of GDP in 1983. The effect of Reagan’s
dual commitments was a debt driven consumption boom which was accompanied by high interest rates which then caused trade deficits (IEP, 2011, p. 14).
No âmbito geral, o objetivo dessas ações foi atingido conforme a queda na taxa de lucro das empresas foi compartilhada com Alemanha e Japão; o Leste Asiático passou a receber capital e tecnologia das grandes corporações visando explorar as vantagens produtivas locais; e os EUA viveram um período de forte crescimento econômico.
Não obstante, esta retomada adquiriu caráter insustentável, pois a redução maciça de impostos na Era Reagan sem uma correspondente diminuição dos gastos do governo resultou num grande e persistente déficit orçamentário. A poupança nacional, inadequada para financiar esse déficit, obrigou o governo a assumir pesados empréstimos estrangeiros, dos quais o Japão tornou-se o principal credor (GILPIN, 2002, p. 362). Essa parceria nipo- americana foi reforçada por interesses simbióticos de um país que vivia além dos seus meios (os EUA) e de outro que tinha necessidade premente de mercados no exterior para seu capital excedente (o Japão) (idem, p. 364). Assim, enquanto o Japão tornava-se o principal credor norte-americano, os EUA entraram em um ciclo vicioso:
De um lado, precisavam do capital estrangeiro para financiar seu déficit fiscal; de outro, esse capital valoriza excessivamente o dólar e diminui a posição competitiva da economia americana, enfraquecendo, com isso, a sua base industrial. E uma economia enfraquecida tem mais necessidade de capital estrangeiro, mas o peso dos juros que precisam ser pagos diminui a sua competitividade internacional (GILPIN, 2002, p. 368).
Este ciclo culminou na bolha financeira da segunda metade da década de 90, durante o governo Clinton, caracterizando o período de Belle Époque, em que uma prosperidade súbita das classes capitalistas deu a ilusão de um “momento maravilhoso” de desenvolvimento econômico e fez lembrar a Belle Époque dos ciclos genovês-ibérico, holandês e inglês. Nesse sentido, “o fim do século foi semelhante ao seu início”, quando os investimentos estrangeiros eram muito maiores e os mercados nacionais afundavam na imensidão dos fluxos financeiros globais (FRIEDEN, 2008, p. 415-416). Popularizou-se assim, a figura dos yuppies como a cultura materialista e hedonista dos jovens profissionais urbanos dos anos 1980 e 1990, que ascendiam socialmente e ficavam ricos em pouco tempo.
A valorização do dólar feita em 1995 pelo Acordo Plaza invertido34, aliada ao regime de crédito fácil do Fed e à expansão da dívida pública e privada, provocou uma maciça
34 O Acordo Plaza invertido, de 1995, teve como objetivo a valorização do dólar para aumentar a
competitividade dos setores manufatureiros de Japão e Alemanha e evitar que estas economias entrassem em recessão.
entrada de capital estrangeiro nos EUA – resultando numa verdadeira bolha financeira cuja principal força ativa foi a atuação de empresas não financeiras norte-americanas, que buscaram “ampliar enormemente seu endividamento com o propósito de comprar ações em volume colossal” (ARRIGHI, 2008, p. 151).
Entre 1994 e 2000, o valor das ações em mercado das empresas não-financeiras norte- americanas saltou de US$ 4,8 trilhões para US$ 15,7 trilhões, o dobro do crescimento dos dez anos anteriores (BRENNER, 2002, p. 257). Para Brenner, essa enorme reavaliação dos ativos “abriu caminho para a maior expansão de tomada de empréstimos por empresas não- financeiras jamais vista”, atingindo um endividamento inédito como proporção do PIB corporativo de 85% em 2000 (idem, p. 257).
Essa explosão de tomadas de empréstimos não só permitiu que as recompras de ações por empresas não-financeiras continuassem a pulular, agravando a bolha no valor das ações em direção a seu apogeu e levando a relação dívida/ações das empresas a novos recordes; também permitiu às empresas não-financeiras elevarem a proporção de seus gastos de capital financiados por empréstimos (e não por seus ganhos retidos) a níveis até então não alcançados durante uma expansão econômica, ensejando, portanto, que amplificassem um já muito poderoso boom de investimento (BRENNER, 2002, p. 257-259).
Tomando com exemplo as empresas start-ups e outras com parcos recursos e pouco acesso ao financiamento bancário, Brenner (idem, p. 258) demonstra a importância da valorização de seus papeis como forma de se manter no mercado. Esse foi em especial o caso de empresas de tecnologia, mídia e telecomunicações, cujas ações cresceram num patamar muito acima dos seus lucros reais.
Outra característica da expansão financeira discutida anteriormente como a Belle Époque da hegemonia é a tendência de concentração interna dos capitais e dos rendimentos. O gráfico abaixo apresenta a participação da camada do 1% e 10% mais ricos na distribuição de renda nos EUA, sendo notório o aumento da desigualdade a partir da década de 1970 e o retorno a padrões de antes da Segunda Guerra Mundial.
Gráfico 4. Concentração da renda nos EUA dos 1% e 10% mais ricos (%)
Fonte: elaborado pelo autor a partir dos dados publicados por PIKKETY; SAEZ, 2003.
Assim como os lucros das empresas tornaram-se mais “virtuais” do que reais, a concentração de renda das famílias norte-americanas também contribuiu para a expansão financeira. Entre 1994 e 2000, a capitalização do mercado das ações em posse das famílias cresceu de US$ 4 trilhões para US$ 12,2 trilhões e o estrato superior de 20% da renda nacional detinha entre 96% e 98% deste total. Logo, essa minoria percebeu que a extraordinária apreciação de seus ativos pelo mercado de ações lhe permitiria fazer uso de empréstimos “a um grau antes inconcebível”, fazendo despencar o índice de poupança pessoal entre 1992 e 2000, de 8,7% para - 0,12% (BRENNER, 2002, p. 254-255).
Portanto, os EUA chegam à virada do século XXI com uma crescente concentração interna de riqueza e uma dependência de investimentos externos para subsidiar o endividamento público, o consumo privado e os déficits em conta corrente. Se ao menos esses investimentos fossem em grande parte produtivos, pondera James A. Dorn (2008, p. 161), os EUA poderiam incorrer em déficits “saudáveis”. Porém, o capital especulativo neste período chegou a somar US$1,6 trilhão em comparação com cerca de US$900 bilhões em investimentos produtivos; e em 2000, os ativos brutos norte-americanos na posse do resto do mundo alcançaram US$ 6,7 trilhões ou 78% do PIB dos EUA (BRENNER, 2002, p. 275).