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DEL 1 - Juridiske drøftelser

6.2 Den straffbare handling etter strl. § 283

O filme tem seu desfecho com uma canção composta e cantada pelos gêmeos e que revela: o que os gêmeos querem do mundo!

IV. 2 - COMENTÁRIO

O diretor deste documentário – Chico Teixeira – durante uma conversa, revelou- me que a idéia deste trabalho nasceu de uma questão sempre presente para ele: a identidade. Naquele mesmo momento ele estava, mais uma vez, dirigindo uma outra filmagem dentro do mesmo tema.

Podemos traduzir sua questão nos seguintes termos: como é ser desafiado a uma identidade única e singular tendo ao seu lado um idêntico a si mesmo? A partir da definição deste tema entrevistou e filmou 13 pares de gêmeos, em várias situações, de onde editou este documentário.

Acredito poder afirmar, após a análise da sua produção, que a autenticidade pessoal da questão norteadora do seu trabalho deu-lhe condições para expor os aspectos mais relevantes da experiência gemelar. Assim observo, nas cenas apresentadas, semelhanças reveladoras do que encontrei nos textos específicos do tema bem como escutei na clínica, e as considerações teóricas para este documentário não diferem, essencialmente, de todo estudo feito até agora.

Chico Teixeira mostrou-nos que a gemealidade dificulta, mas não impede a separação individualidade/alteridade. Outros fatores podem intervir tanto numa direção quanto em outra. Também apontou o prazer e o provável aprisionamento dos pares de gêmeos na experiência do amor e admiração a si mesmo; do fechamento da dupla que

impede a entrada do terceiro, as situações conflitivas quando um outro procura quebrar o par, colocando-se entre eles; bem como outras tantas situações, às vezes constrangedoras, decorrentes do nascimento gemelar univitelino. Estes aspectos estão delimitados dentro do conceito teórico psicanalítico do narcisismo.

O filme: “Carrego Comigo” ilustra de forma primorosa o conceito do narcisismo e o Complexo Fraterno restando-nos, no momento, apenas relembrar sinteticamente o que já foi exposto nesta pesquisa.

Assim a gemealidade remete ao primitivismo narcísico, elucida o modo de funcionamento egóico dos começos da vida psíquica: enquanto vivência ilusória do um completo e na negação de faltas. Tendo seu fundamento na crença da dualidade humana – espírito e corpo – tal qual nos fala Rank184 que vê na dupla gemelar a concretização do dois-em-um, torna-se fundamento de mitos heróicos, reproduz crenças de onipotência mágica e megalomaníaca do pensamento. Há uma supervalorização narcisica do sujeito, de seus próprios processos mentais, uma ênfase nos poderes do pensado e desejado. O amor que une os gêmeos é a fascinação frente à própria imagem é a experiência prazerosa do “idêntico a si mesmo” que obtura a vivência anterior do corpo fragmentado.

A experiência narcísica impede o conhecimento da alteridade e quando isso acontece em “lugar do outro aparece o duplo”- Salzberg.185 O duplo que me reflete propicia a vivência de estranheza tão bem abordada por Freud186 – estranho ou assustador: tudo aquilo que sendo familiar retorna como oposto ou não-familiar. O outro ao me refletir como um todo não fragmentado se é fonte de prazer e ideal de ser, ao

184 RANK, O. “Don Juan et le double”. Paris: Petite Bibliothèque Payot, 1932.

184 SALZBERG, B. “Los espejos vivientes”. In: BRAIER, E. (org.) & outros: Gemelos Narcisismo y

dobles. Buenos Aires: Editorial Paidós SAICF, 2000.

185 FREUD, S. (1919). “O estranho”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas

de S. Freud. v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1977. p. 293.

mesmo tempo aliena-me numa imagem que, a partir de então, me representa para mim mesma. Desta origem egoica resta o prazer do espetáculo, da parada e da sedução, dá sua forma às pulsões sado-masoquistas e escoptofílica (ver e ser visto), nega a essência do outrem.

O duplo espelhar impede a separação Eu/Não Eu, a alteridade e, consequentemente, o desejo “...Sem alteridade não há desejo.” Salzberg187 (pág 186). A ausência do desejo é conseqüência da ausência da falta que o instaura. A dupla formada se fecha em si mesma proibindo a entrada do terceiro, que como sabemos é o 188 estruturante edipiano. Como a experiência edipiana é a responsável pela definição do sujeito desejante, da entrada no simbólico, da fuga do imaginário e da possibilidade de subjetivação; todos estes processos se tornarão comprometidos.

Essas reflexões nos remetem à cena da entrevista com as cantoras Celma e Célia, descrita anteriormente na p. e, retratam, a dificuldade de assunção da identidade própria. A escuridão melancólica escolhida pelo diretor do filme transmite-nos uma mensagem: o espelhismo obstruindo a diferença; o enlace tanático impedindo a vida. É constrangedor assistirmos o faz-de-conta que somos mães, já que entre nós está proibida a entrada de qualquer outro, mesmo se fosse filho. Os gêmeos têm que estar sempre juntos, e isolados dos outros, porque aquilo que os diferencia dos que os rodeiam é a situação específica da gemealidade, só assim são imortais e podem tornar-se heróis, só assim estariam fora das leis naturais da afiliação e da morte. (Rank1871932 – p.97)

186

SALZBERG, B. “Los espejos vivientes”. In: BRAIER, E. (org.) & outros: Gemelos Narcisismo y

dobles. Buenos Aires: Editorial Paidós SAICF, 2000, p. 186.

Celma e Célia recriam o par de “indivíduos duplos” estudados por Freud.189 Se aparentam um amor supremo, incondicional, na verdade, vivem o contrário, um amor que “se apresenta como a inversão completa do amor: ele não se realiza na articulação de duas faltas, mas na saturação de uma falta por um completo que produz o engodo de um retorno ao narcisismo. Diz-se desses apaixonados que eles se bastam ou que estão sós no mundo.” (Rey-Flaud190 – Os fundamentos metapsicológicos de O mal-estar na cultura – p. 36) Enclausuradas numa bolha recriam o estado narcisico original onde o objeto não é passível de substituição nem de partilha. “Os indivíduos duplos encontraram de uma vez por todas os objetos “deles” e perduram petrificados num gozo atemporal: nada, nem ninguém pode perturbar esses casais de pedra, senão o intruso, pronto a suscitar a cólera e o ódio deles, que se apresenta no limite do círculo mágico deles.”191 (Rey-Flaud p. 37)

A possibilidade de um contraponto é bastante elucidativa, portanto gostaria de relembrar agora uma situação no documentário “Carrego Comigo” onde é retratado um desfecho oposto ao acima descrito, isto é os gêmeos se diferenciam. Trata-se dos irmãos cartunistas que numa cena relembram o sonho materno de ter filhos gêmeos. Com a morte da mãe um deles sente-se liberto do desejo que os traziam aprisionados. Ele diz que se o desejo de ter filhos gêmeos era da nossa mãe, agora que ela não está mais entre nós, podemos seguir cada um a sua própria vida.

Constatamos também que estes gêmeos não se vestem da mesma forma, moram em cidades diferentes, constituíram família própria e vão aos poucos apresentando

189 FREUD, S. (1919). “O estranho”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas

de S. Freud. v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1977. 189

REY-FLAUD, H. “Em torno de o mal-estar na cultura de Freud”. São Paulo: Escuta, 2002, p. 36.

traços fisionômicos diferenciados. Neste caso, a entrada na dupla do terceiro normatizante foi possível e, a partir de então, podemos pensá-los como qualquer outra pessoa nascida de uma gestação simples.