7. VILJESVAKHET
7.5. Den sterke viljen
O primeiro problema que o estudo do mudejarismo alentejano (e o português, numa visão global) levanta é o da sua origem. São três, fundamentalmente, as teses que têm sido defendidas pelos historiadores e que Pérez Embid reuniu e criticou ao tratar da arte alentejana da época manuelina168.
Uma defende o ressurgimento de formas e fórmulas tradicionais que, desde o tempo do domínio muçulmano, teriam ficado em território nacional como que em hibernação e que, nos finais do século XV, despertaram desse longo sono centenário.
Outra teoria admite a directa influência da arte magrebina por via dos contactos que os portugueses passaram a ter com as praças do Norte de África que iam conquistando. Finalmente, a terceira, sustenta a possibilidade da existência de uma importação directa de territórios peninsulares de além-fronteiras, isto é, de Espanha.
A teoria que defende as influências marroquinas, tão queridas da historiografia portuguesa dos anos vinte e trinta, está hoje posta de parte, sobretudo após a publicação pelo Professor Doutor Virgílio Correia, da obra Lugares d`Além. Nesta obra o autor escreve:
167 RIBEIRO, Orlando, Geografia e Civilização (4.ª edição), Lisboa, Letra Livre, 2013, pp. 48-52.
168
Pérez Embid, o. c. (cit. por DIAS, Pedro, «A Viagem de D. Manuel a Espanha e o surto Mudéjar na Arquitectura Portuguesa» in Relaciones Artisticas entre Portugal e España, Junta de Castilha y Leon, Consejeria de educación y Cultura, 1986, p. 115.
«Do que vi de português nas três cidades costeiras, nada revela que os construtores nacionaes se houvessem deixado influenciar pela arte indígena. Muros, torres, igrejas, trechos avulsos dos edifícios civis e militares, mostram-se tal como se os tivessem erguido em solo lusitano.
Mazagão foi levantada, a fudamentis, pelos portugueses. Que nessa, portanto, não houvesse mostra de exotismo construtivo, explica-se. Mas já o mesmo não sucede em Azemôr e Çafim, cidades mouriscas que nos limitamos a fortalecer durante os decénios que durou a ocupação. Aí houve tempo e ocasião de elaborar um estilo misto. Pois mesmo nessas cidades, o que se reconhece como português é nitidamente europeu, sem mistura.
Se os nossos pedreiros houvessem sofrido uma forte influência maghrebina, essa deveria começar a manifestar-se no próprio solo mauretanense que dominávamos. Tal não sucede. Conscientemente podemos portanto afirmar que a influência
marroquina sobre a nossa arte do começo do começo do século XVI, sobre o manuelino, foi nula, ou, pelo menos, imperceptível.
Duas razões, estou convencido do que afirmo, levaram o divulgador da asserção contrária, a lançá-la a público.
A primeira, o encontrarem-se no manuelino do sul, fortemente representados: o
ajimez e o portal de arcos ultrapassados e por vezes polilobados, à mourisca. A
segunda, o deparar-se, nesse belíssimo livro que é o Portuguese Architecture de Walter C. Watson, com alusões sucessivas a Marrocos, que aliás esse autor não visitara. Uma dessas referências respeita mesmo à Torre de Belém.
Simplesmente, essas influências da arte moura não haveria necessidade de as ir procurar à pobre e atrasada terra de Marrocos. Elas penetravam muito mais rapidamente em Portugal pelas nossas fronteiras, vizinhos como somos de dois grandes centros de arte mudéjar, Toledo e Sevilha. Foi de Espanha, não da Mauritânea, que nos veio esse qualquer coisa de oriental que em várias construções do fim do século XV e começo do XVI, tão claramente se patenteia.
A miragem marroquina passará, como passou a miragem indiana!»169.
As outras duas teorias, nunca totalmente rejeitadas, ou pelo menos com argumentos julgados suficientemente sólidos para tal, parecem parcialmente
169
CORREIA, Virgílio, Lugares Dalêm, Azemôr, Mazagão, Çafim, Lisboa, Tipografia do Anuário Comercial, 1923, pp. 96-99.
aproveitáveis considerando a existência de mudejarismo ao longo de todo o período medieval.
A arte almóada tem um papel decisivo na cristalização da arte mudéjar. A última cultura andaluza, antes da quase total reconquista da Península por Fernando III, o Santo, Jaime I, o Conquistador, Sancho II e Afonso III de Portugal, foi a cultura almóada. Os antigos povoadores das terras conquistadas, nelas permaneceram na sua maioria e, de certo modo, imobilizaram a cultura que havia ficado suspensa no momento da conquista. O relógio tinha parado na hora dos almóadas e esta hora veio a ser, naturalmente a hora mudéjar. Por este motivo o mudéjar andaluz é discreto, de forma simples, brancas e introvertido. Talvez as mais belas construções sejam as capelas sepulcrais cupuliformes, sentidas como pequenas grutas de um mundo mágico e perfeitamente fechado170.
Se há que procurar em terras africanas as principais mesquitas almóadas e almorávidas, a Península guarda, contudo, notáveis construções dos monarcas unitários. Os restos da mesquita de Sevilha, segunda capital do Império com Marraqueche; a melhor torre de todo o Islão, a Giralda, irmã das almenaras de Marraqueche e Rabat; os restos almóadas do Alcácer de Sevilha; «mirahbs» de mesquitas desaparecidas em Almeria e Mértola; obras de Las Huelgas de Burgos, Santa Maria la Blanca de Toledo, sinagoga estilisticamente almóada, e numerosas e interessantíssimas obras de fortificação171.
Sevilha é, sem dúvida, o foco mais notável do mudéjar andaluz. Granada não está incluída no mudéjar; é, por si própria islâmica, bem como todo o reino nazarita com as províncias de Málaga e Almeria. O centro do mudéjar andaluz é, indubitavelmente Sevilha, de onde irradia para toda a Andaluzia do Sul e chega, ao que parece, ao Algarve e a uma boa parte do Alentejo.
As igrejas do mudéjar sevilhano são as mais almóadas de toda a Península. Se em vez de três naves, tivessem cinco ou mais, seriam mesquitas, tanto como as construídas pelos califas unitários. Isto compreende-se facilmente pois que os modelos estavam à vista. A única coisa que se alterou foi a morfologia da planta e não a estrutura, a decoração, o espírito espacial da obra arquitectónica. Estas três naves que, em geral, estavam cobertas por um tecto de madeira, precisavam de ter como
170
CHUECA GOITIA, F, Arquitectura Muçulmana Peninsular e sua influência na Arquitectura Cristã, (Exposição de documentação fotográfica), Lisboa, Fund. Cal. Gulbenkian, 1962, s/n.
complemento uma capela-mor e um presbitério172. Estes começaram a ser construídos no estilo gótico, justapondo-se simplesmente à obra mudéjar, mas pouco a pouco, e por influência do meio, estas cabeceiras foram-se arabizando. Substituem-se as cabeceiras poligonais góticas por capelas-mor de planta quadrada, com abóbadas octogonais, quer de pedra quer de madeira. Assim, as igrejas, do ponto de vista estilístico, tornam-se integralmente muçulmanas, curiosa associação de uma organização basilical com uma «qubba» ou capela.
Os exemplos mais puros de este tipo de são a capela de «N.ª S.ª del Valle», da «Palma del Condado», a ermida de Gelo, a Igreja de Benacason, a igreja paroquial de Hinojos e a igreja de Gerena, situadas na região chamada de Aljarafe, a Oeste de Sevilha, em direcção a Portugal. Aqui, em pequenas aldeias no meio rural do Sul do país, elas são frequentemente constituídas por uma só nave, com uma capela-mor em forma de «qubba», tal como se encontra em Aljarafe173.
Ao lado de este mudéjar, existe outro, mais conhecido por pertencer a monumentos de maior relevo histórico, como o palácio de Sintra, o paço real de Évora e outros paços da nobreza nesta cidade e seus arredores, construídos fundamentalmente em finais do século XV e princípios do século XVI. Este tipo de mudéjar, essencialmente de origem castelhana, principalmente de Toledo, decorativamente mais rico que o andaluz, tira partido das possibilidades decorativas que o tijolo oferece. Ele insinuou-se nos edifícios do tardo-gótico alentejano, de grandes panos lisos e brancos, através da decoração dos vãos (portas e janelas), utilizando o tijolo (e por vezes o granito) recortado em arcos de ferradura. As características do tardo-gótico alentejano, com influências do Midi e da Catalunha, de panos lisos, geométricos, com tendência para a simplificação, reforçam o carácter mudéjar daqueles edifícios, evocando o mudéjar com origem na arte dos almóadas. Contributo fundamental para o aparecimento deste tipo de mudejarismo, foi a viagem de D. Manuel I a Castela, descrita, sumariamente, no capítulo anterior, e de nobres portugueses que o acompanharam, ou permaneceram vários anos em Castela, como D. Álvaro de Bragança, que chegou a ser governador do Alcazar de Sevilha.
172
Ibidem, s/n.