Em relação ao projeto nacional, o Romantismo desempenha papel crucial nas tentativas de definição do caráter brasileiro de nossa vida nacional. O índio, as paisagens, as línguas nativas, o folclore, adquirem status diferenciados. O indígena é alçado à condição de herói nacional, ou de herói-mítico fundador. Os vários estágios do Romantismo brasileiro exaltam contradições ou paradoxos do projeto literário nacional. No período romântico, a Amazônia ganha sucessivas representações literárias. Monteiro (1976) atrela o período romântico da Amazônia ao ciclo econômico do cacau.
Durante os primórdios do romantismo brasileiro, ocorre a independência política do Brasil, o que, em parte, fortalece o sentido de nacionalidade da antiga colônia, não obstante seja comandada monarquicamente por representantes da metrópole portuguesa. A notícia sobre esse fato histórico somente chegaria na Amazônia, mais especificamente em Belém, em 9 de novembro de 1823, pelo almirante inglês John Pascoe Greenfeld. A classe amazônica dominante, em sua essência portuguesa, de imediato se pactuara com D. Pedro I. (SOUZA, 1977, p. 49)
De alguma maneira, os escritores românticos tentaram se apropriar artisticamente dos múltiplos aspectos de um Brasil recém-liberto da dominação portuguesa. A independência cultural concretizaria a independência política. Seria preciso aproveitar o momento para fixação dos signos culturais da nação. Seguindo o padrão europeu, o Romantismo brasileiro investe em novas formas líricas, como a balada e a canção, deixando de lado outras: epopéia, soneto, ode. O abandono da epopéia não significa o fim do epos. Na verdade, ele se redescobre no poema político e no romance histórico (BOSI, 1994, p. 96). O romance se transforma em um dos gêneros literários preferidos do público leitor de literatura.
A virada romântica atribui novos significados para a presença amazônica na nacionalidade brasileira. No poema épico Confederação dos Tamoios (1857),
Gonçalves de Magalhães (1811-1882) dedica poemas que tratam da Amazônia. No
entanto, pelo momento histórico e por representar um indianismo tardio, o inaugurador de nosso romantismo segue a linha de Durão e Basílio, ficando aquém do indianismo
praticado por Alencar e Gonçalves Dias. O poeta e dramaturgo Magalhães é considerado romântico somente por alguns temas, uma vez que não adotou a liberdade expressiva característica do movimento (BOSI, 1994, p. 98).
Gonçalves Dias (1823-1864) investe na imagem edênica do lócus. Segundo Mário
Ypiranga Monteiro (1976, p. 127), trechos orais do poema Os timbiras foram compostos em Manaus. A visita de Gonçalves Dias à Amazônia ocorreu entre agosto e outubro de 1861, após o governo imperial o haver designado a integrar Comissão Científica para pesquisas na região norte:
Gonçalves Dias, que visitou diversas escolas e incluiu em seu relatório de viagem um capítulo sobre a educação no Amazonas, registrou a pouca frequência às aulas e o fenômeno da rejeição da língua portuguesa por uma população de fala nheengatu, usada ‘em casa e nas ruas e em toda parte’. (SOUZA, 1977, p. 97)
De acordo com Josué Montello (2002, p. XVIII), Gonçalves Dias tinha espírito científico, associava arte e ciência em seu trabalho literário, tal qual um Goethe. O poeta empreendeu estudos etnográficos no vale amazônico, mesmo quando o governo retirou o apoio à Comissão Científica da qual participava. Nesse ínterim, Antônio Gonçalves Dias tornou-se um dos raros representantes do indianismo romântico que estabeleceu contato com os índios da Amazônia. Sua experiência poética na Amazônia influenciou outro poeta de sua geração: Fagundes Varela (1841-1875), que faz referências ao norte em alguns de seus poemas. De Vozes da América, podemos recolher, por exemplo, “A lenda do Amazonas”.
Em sua estada por Manaus, um dos poemas que Gonçalves Dias compôs foi “Como! és tu?” (1861), dedicado a sua grande paixão Ana Amélia. O autor de Os timbiras pode ser considerado um intérprete do Amazonas não só pela poesia de inspiração amazônica, mas também pelo Diário de viagem ao rio Negro e por seus relatórios da expedição científica.
Em meio ao romantismo, destacam-se no cenário nacional pensadores sobre diversos problemas sociais e políticos do Brasil. Em Contrastes e confrontos, Euclides da Cunha afirma que o Vale do Amazonas (1866) constitui um reflexo virtual da Hiléia portentosa e é ainda hoje o programa mais avantajado do nosso desenvolvimento. Tavares Bastos (1839-1875) publicou essa obra em decorrência de suas viagens pela região entre 1862 e 1866 (BASTOS, 1957, p. 59). Na perspectiva de Bastos, para julgar o país, é preciso percorrê-lo e conviver com seu povo. Entre outras preocupações, o ensaísta discute a problemática envolvendo as questões de limites entre Brasil e outros países amazônicos,
como a Bolívia, o Peru e a Venezuela. O autor de O vale do Amazonas enfrenta a política de navegação na província, questionando a política brasileira na região. Tavares Bastos vislumbra que a conduta governamental deveria corresponder aos progressos científicos, indicando os primeiros resquícios da onda positivista que engendraria novos grupos de intelectuais. Embora adepto do liberalismo econômico, o pesquisador denuncia que, como minas de exploração, as províncias amazônicas foram entregues à sociedade de capitalistas poderosos do Rio de Janeiro (BASTOS, 1957, p. 63).
O cientificismo da intelectualidade brasileira surge paulatinamente, como já se percebia em Gonçalves Dias. Torquato Xavier Monteiro Tapajós (Manaus, 1853 – Rio de Janeiro, 1897) pode ser registrado nessa geração goethiana. Atuando como geógrafo, Torquato Tapajós legou alguns volumes literários, entre os quais: Nevoeiros (1872, poesia), Nuvens medrosas (1874, poesias), Regeneração (1876, drama), Cromos (1897, poesias). Nos poemas “Saudades” (de Nuvens) e “O Descrente” (de Nevoeiros), percebemos a predominância de estruturas poéticas simplificadas (redondilhas/quadrinhas). Em nota de fim de sua História da Literatura Brasileira, Werneck Sodré (1960, p. 293) classifica Tapajós entre os “poetas menores do romantismo”. Luciene Cardoso (2006) apresenta interessante relação de Torquato Tapajós com Élisée Reclus. O geógrafo francês marca presença no tumultuário prefácio de Sombras n’água, o que reconstrói o espírito científico da época:
Reclus achou um cubo formidável para o volume diário desses materiais suspensos, que deveriam edificar o escudo de um delta, vaidoso encargo de que jamais se exime o Nilo, o Mississipi, o Indus, e outros de menor estirpe ou senhorio. (p. 35)
Alexandre Rodrigues Ferreira, Tavares Bastos, Torquato Tapajós, Gonçalves Dias configuram o grupo de representantes brasileiros de viajantes naturalistas e românticos que pesquisaram em loco as condições fisiográficas e sociológicas da Amazônia. Esse dado permite reconstituir parte da ascendência positivista e naturalista de Rangel e Euclides.
1.5.1 Indianismo Amazônico
Destacando a influência dos ciclos econômicos amazônicos na literatura, Monteiro (1976, p. 25) afirma que “os intelectuais se fizeram naquele ambiente de relativa expansão capitalista e ascese médio-burguesa”. De acordo com Figueiredo (2011, p. 104), as dificuldades econômicas até meados 1850 impedem o desenvolvimento da
ficção amazônica. Desse momento, podemos destacar o aparecimento de três ficcionistas de relevância: Lourenço da Silva Araújo e Amazonas, na linha temperamental; o indianismo de Francisco Gomes de Amorim (português, 1827- 1891), assim como o de Gonçalves Dias; e Inglês de Sousa, como naturalista.
Para Temístocles Linhares (1987), a história da literatura amazônica começaria a partir da segunda metade do século 19, quando a região amazônica se multiplica no mercado da literatura. Linhares analisa a produção ficcional amazônica tendo como ponto de partida Inglês de Sousa. Antes dele, no entanto, verifica-se a presença de dois romances cruciais para o entendimento da história da literatura amazônica: Simá e Os Selvagens. Em boa medida, ambos consagram-se ao indianismo.
O primeiro romance amazônico é Simá (1857), de Lourenço da Silva Araújo
Amazonas (1803 – 1864). Para Mário Ypiranga Monteiro (1976, p. 38), dois aspectos
predominam nessa obra: a economia e a população indígena. Sobre a fração econômica, percebemos o enquadramento do romance dentro da atmosfera do ciclo econômico dominado pela cultura patriarcalista do cacaulismo. Além disso, demonstra o “choque das culturas européia-amozoníndia” (MONTEIRO, 1976, p. 38). Sua fundamentação histórica parte da Rebelião do Lamalonga (1757), planejada pelos jesuítas para expulsar os portugueses da Amazônia. Nessa linha historicista, entremeada de ficção, Lourenço Amazonas narra capítulos substanciais da história da Amazônia: a organização do Diretório dos Índios após a expulsão dos jesuítas pela política pombalina; as partidas de demarcações dos portugueses contra as investidas dos colonizadores espanhóis; a fundação de algumas fortalezas no século 18 contra esses invasores. Todos servem para o entendimento da situação histórica dos amazônidas na primeira metade do século 19.
Simá veio a lume oito anos antes de Iracema e no mesmo ano de O Guarani (1857). O
indianismo romântico de Simá em nada se assemelha ao indianismo mitológico de Alencar. Em Lourenço Amazonas, o índio distancia-se da visão de mito fundador e adquire um realismo que falseia menos a realidade do índio amazônico, especialmente suas agruras históricas em face dos colonizadores. A obra representa o índio e uma nação carentes de liberdade. É dentro desse quadro que o protagonista índio manaus Marcos/Severo transita entre os sítios da Tapera e do Remanso. Esse duplo do romance resulta da ambivalente identidade do indígena colonizado por portugueses e que perde sua identidade indígena.
Nas palavras de Arthur Reis (1973, p. 14), o “romance amazônico é, desde o nascedouro, um romance telúrico, paisagístico, ao mesmo tempo que social.” Esse mote poderá ser aplicado ou discutido com base em outros prosadores que sucederão o Simá de Araújo Amazonas. Inglês de Sousa, José Marques de Carvalho, Raul Pompéia, Paulino de Brito, Raimundo Morais, Alberto Rangel, Euclides da Cunha, para considerar apenas os prosadores, darão a medida da assertiva de Arthur Reis quanto ao
romance telúrico.
Lourenço Amazonas preocupa-se ainda em fazer registros botânicos, hidrográficos e linguísticos, embora de modo pouco sistematizado em suas notas de fim. Para essa linhagem de estudos amazônicos, Amazonas elaborou o Diccionario topográfico,
histórico e descriptivo da Comarca do Alto Amazonas (1852). No capítulo “A geografia
real e a mitológica”, do relatório da Comissão ao Alto Purus, Euclides recorre ao dicionário topográfico de Lourenço Amazonas (CUNHA, 2000, p. 284).
Em sua vivência amazônica, o romântico português Francisco Gomes de Amorim (1827-1894) legou duas obras poéticas, Cantos matutinos (1858) e Efémeros (1866), bem como o romance Os Selvagens (1875). De acordo com Mário Monteiro (2004, p. 8), “o indianismo de Francisco Gomes de Amorim é mais impessoal do que o de Lourenço da Silva Araújo e Amazonas e mais autêntico”, focando nos índios Mundurucu, lembrados por Tenreiro Aranha e Inglês de Sousa. O estado de dispersão e de definhamento desse povo indígena constam de Viagem ao Tapajós (1897), de Henri Coudreau. Pela leitura de Monteiro, percebemos como a voz narrativa de Os Selvagens desvela uma sociedade perturbada pelas instabilidades políticas que sucederam à Independência. Nesse contexto histórico, Gomes de Amorim não foge à representação da revolta da Cabanagem, em que mestiços e índios sonhavam com uma Amazônia livre do poder colonial.
Desse modo, Mário Ypiranga Monteiro argumenta que Os Selvagens funciona como um romance histórico, verdadeira epopéia amazônica do período. Entre outros interesses do indianismo de Amorim, refere-se ao registro linguístico daquilo que se considerava a linguagem do brasileiro amazônico. Outro tema latente do romance trata-se do conflituoso processo de catequização e domesticação do indígena, embora amenize os possíveis conflitos e harmonize os sucessos das missões católicas, em narrativa por vezes pueril.
Em perspectiva comparativa do romantismo amazônico, Mário Ypiranga (2004, p. 12) analisa Lourenço Amazonas como nacionalista, deixando a Gomes de Amorim a cosmovisão indianista, também compartilhada por Lourenço, em soluções distintas. Dentro da geração romântica brasileira, o indianismo amazônico alcançou o nacionalismo do projeto literário de José de Alencar (1829-1877), que procurou cobrir todas as facetas nacionais, embora o artificialismo de composição tenha predominado em algumas obras, como: O Gaúcho (1870) e Ubirajara (1875). Nesta última, Alencar pensou a Amazônia indígena. Esse indianismo amazônico não transparece qualquer conexão com o momento contemporâneo vivenciado pela região Norte. De acordo com Bosi (1992, p. 186), Alencar não se concentrou na destruição das tribos tupis; preferiu idealizar uma nova nacionalidade brasileira emergida do contexto colonial.