Para finalizar a reflexão sobre os projetos de vida dos jovens da EFAP, exposta nesse capítulo, tem-se a discussão em torno da migração campo-cidade juvenil que, como já foi trabalhado, é um tema recorrente na literatura sobre juventude (op.cit., Castro 2009a; 2009b). No caso específico da EFAP, o objetivo dessa seção é compreender se os estudantes têm como plano para o futuro, permanecerem ou migrarem para o campo ou permanecerem ou migrarem para cidade, visto que boa parte deles é proveniente de áreas urbanas. Nesse sentido, buscou-se entender como a temática da migração, que por muitos anos tem sido estruturante na vida dos jovens rurais, tem perpassado a configuração dos projetos dos estudantes da EFAP. Cabe
ressaltar, contudo, que as questões a serem colocadas aqui referem-se ao que os jovens desejam ser e nada dizem acerca da possibilidade de realização de tais projetos.
Como foi possível perceber, por meio das narrativas dos jovens, muitos deles apontaram que desejam morar no meio rural. Outros também informaram que vão precisar ir para cidade para trabalhar, mas desejam um dia poder voltar para o campo. Teve, ainda, quem disse que deseja conciliar a moradia entre o campo e a cidade, ou passar apenas os finais de semana no meio rural. No caso dos jovens urbanos o mesmo ocorreu, uma parte deles declarou que quer permanecer na cidade e outros tantos vislumbraram o campo como um meio de vida e trabalho. O resumo disso pode ser visualizado por meio do gráfico a seguir (Gráfico 33):
Gráfico 33- Local em que os jovens da EFAP pretendem morar no futuro
Fonte: Pesquisa de Campo, 2013.
Como pode-se perceber, é significativo o número, de cerca de 65%, de estudantes que declarou querer continuar tendo um vínculo com o meio rural, ou morando permanentemente, ou parcialmente, ou, ainda, buscando viver no meio rural num futuro mais longo. No caso específico da EFAP, portanto, é possível inferir que o
desinteresse pelo meio rural e atração pelas “coisas da cidade”, que geralmente são
motivações para a migração campo-cidade (ibid.), não é uma assertiva, haja vista que os jovens, em geral, demonstraram querer permanecer no meio rural, o que pode ser percebido por meio depoimento de Mirian e Joana: “[A EFAP] teve muita importância porque foi aqui que eu descobri que eu não quero morar na cidade, que não me interessa
nem um pouco ir pra lá” (ENTREVISTA COM UMA DAS ESTUDANTES DA
EFAP), ou, ainda, “Ah porque zona urbana ela é muito, vamos dizer assim, muito agitada. Você não consegue descansar, você não consegue colocar a cabeça no lugar. Em zona rural você consegue: você ouve o canto dos pássaros, o sapo lá na lagoa... Então você consegue descansar mais” (ENTREVISTA COM UMA DAS ESTUDANTES DA EFAP).
Dessa forma, pode-se inferir ainda, que o projeto ético-político da EFAP, de contribuir para que os jovens criem condições de permanecer no campo com dignidade, pode estar sendo uma referência para que esses jovens incluam em seus projetos de vida os planos de buscar viver no meio rural, no curto e/ou no longo prazo. Pode-se afirmar com clareza, que o projeto coletivo da escola tem uma relação direta com as escolhas individuais desses jovens, no que tange a suas escolhas entre permanecer no campo ou migrar para a cidade. Assim, observou-se que o projeto da escola de fazer com que o jovem perceba o meio rural como um lugar em que é possível se viver com qualidade tem sido incorporado pelos jovens, na configuração de seus projetos individuais. No imaginário da maioria dos jovens da escola, está presente a ideia de o campo é um lugar melhor para se viver, pois é mais tranquilo, se tem mais paz, ar puro, alimentação saudável, etc.
Por outro lado, foi significativa também, a quantidade de jovens que apontaram que terão que ir para a cidade para depois poder voltar para o campo, em busca de melhores condições de trabalho, uma vez que no campo eles têm enfrentado muitas dificuldades. O tema da migração aparece mais uma vez, nesse sentido, mas não como
mero interesse pelo imaginário urbano e pelas “coisas da cidade”, mas como uma
necessidade frente às limitações impostas pelas questões materiais e estruturantes da sociedade, ou seja, pela impossibilidade que os jovens encontram de reprodução social
no meio rural. “Ou, ainda, a migração frequentemente pode vir a ser, não o caminho
para a realização dos sonhos, mas o meio de escapar, de alguma forma, das restrições da vida local (WANDERLEY, op.cit., 2007)”.
Isso foi percebido por meio de algumas declarações, das quais a primeira delas é do jovem Júlio, que afirmou que quer ficar no meio rural, mas não tem acesso a terra:
“Igual, por exemplo, muita gente que está aqui é filho de agricultor, mas tem a
propriedade pequena. Como que vai sobreviver eu e o meu pai num pedacinho de terra do tamanho de um ovo? Aí ele procura outras maneiras de sobreviver” (GRUPO FOCAL COM ESTUDANTES DA EFAP).
Na mesma linha, Túlio apontou a falta de investimento e de políticas públicas para os jovens rurais, como um elemento que ocorre muito pouco ainda e poderia melhorar, com vistas na diminuição da migração campo-cidade:
Incentivo do governo, eu tenho, mas é pouco ainda. Pouco, poderia ser melhor ainda. Pra nós jovens, pra quem está no campo. Porque hoje a ideia... Antigamente era você ficar no meio rural. Hoje não, você sair da roça pra ir pra cidade [...] E a cidade é ilusão, [...], experiência própria, eu, por exemplo, hoje eu moro na cidade e é ilusão (ENTREVISTA COM UM DOS ESTUDANTES DA EFAP, 2013).
E, ainda, na visão de Elizabete, é possível encontrar condições de trabalho no campo, que vão além da atividade agrícola, inclusive. Mas ela questiona que talvez isso não seja uma oportunidade real para todos os indivíduos. Para ela, portanto, os jovens estão indo para a cidade,
[...] segundo eles, em busca de uma vida melhor. Mas eu pergunto que vida melhor é essa? Eu fico me questionando. Eu também vim do meio rural, eu também passei um período de buscar a vida melhor. E acabei voltando para o campo. Mas só com uma diferença, eu to no campo, atuando no campo, mas numa profissão considerada urbana, que é ser educador. E aí: e quem não tem essa condição de trabalhar vivendo no campo, trabalhar além da agricultura? Agricultura é o caminho, mas tem outras coisas além da agricultura pra conseguir viver no campo (ENTREVISTA COM UMA DAS PROFISSIONAIS DA EFAP, 2013).
O tema da migração dos jovens rurais para a cidade, também foi um tema problematizado nos grupos focais realizados com os jovens da EFAP. Nessa ocasião, houve um intenso debate em cima da questão do jovem rural ser ou não influenciado pelo jovem da cidade, o que o leva a querer vivenciar as experiências urbanas e, ainda, se esse jovem migra por necessidade, em busca de trabalho. As opiniões que circularam podem ser resumidas pelo seguinte depoimento, de Júlio:
Tem jovem que quer ir pra cidade e jovem que talvez depende da cidade. Porque, assim, existem vários dons. Então às vezes um jovem tem um dom que se ele ficar no meio rural talvez não vai dar pra suprir pra ele. Mas se ele for pro mercado lá, na cidade é bem maior. Então, [...] ele vai começar e vai acabar suprindo. E já, às vezes, o jovem ir pra cidade por precisão, às vezes é o que eu digo, o trabalho no meio rural está se acabando pouco a pouco. Então a gente mesmo, eu posso me considerar que eu busco as minhas origens e corro atrás pra não deixar [...], porque até então eu vivo no meio rural e me sinto muito bem vivendo no meio rural. Talvez eu precise um dia ou pra estudar mais, ou pra tirar uma carteira, tirar habilitação, porque no meio rural é complicado [...]. Então é uma das poucas coisas que no meio rural não tem. Então, de vez em quando com certeza eu preciso ir pra cidade, mas não, assim, ir pra ficar.
Certamente, houve, entre os casos pesquisados, jovens que manifestaram interesse pelo universo urbano, haja vista a porcentagem de 29% de jovens, que declararam que desejam morar na cidade. A realização profissional e a facilidade de encontrar emprego foram motivações muito apontadas por esses indivíduos. Muitos também indicaram que a cultura mais ampla é uma referência para elaboração dos seus projetos de vida, que incluem morar na cidade e ter acesso às tecnologias, às informações e a outras manifestações socioculturais tidas como urbanas. O que remete,
ainda, à “nova ruralidade” que se configura no campo, impactando principalmente os
jovens, os quais constroem seus projetos de vida oscilando ora entre cultura local e a cultura da sociedade globalizada. Foi muito recorrente, nessa linha, declarações como as de Davi e Eva: “Ah eu sou muito ligado nessas coisas de tecnologia, essas coisas, e no meio rural já não tem muito isso. Eu, assim, essas tecnologias que eu falo é assim: é
computador, esses trem” (ENTREVISTA COM UM DOS ESTUDANTES DA EFAP,
2013); “Eu sou muito ligada a tecnologia. Não sou assim de chegar lá, época que eu pegava em terra é aqui e quando eu era criança, entendeu? Eu posso ser, eu sou a mais
urbana, mesmo” (ENTREVISTA COM UMA DAS ESTUDANTES DA EFAP, 2013).
Em linhas gerais, é possível afirmar que uma parte considerável dos jovens da EFAP não quer evadir do campo e uma parte significativa de jovens que, atualmente moram na cidade, deseja viver no meio rural. Isso certamente guarda uma relação com o projeto ético-político da escola que procura construir junto com esses atores uma imagem positiva do campo, como um lugar de vida e trabalho. Essa representação do meio rural é partilhada por um expressivo número de jovens que veem no campo um lugar melhor para se viver. Nesse sentido, pode-se inferir que os estudantes da EFAP, em sua maioria, não querem ir embora do campo. Isso não significa, porém, que eles vão ter condições reais de realizar tais projetos. Inclusive, boa parte deles já manifestou, de antemão, que terão que ir pra cidade, apesar de preferirem o campo, uma vez que lá terão acesso a melhores condições de vida. Da mesma forma, também é possível dizer que outra parte dos jovens da EFAP deseja ir pra cidade e constroem seus projetos de vida tendo como espelho a imagem da cultura mais ampla.