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Kapittel 4 – 1995-2004. Under nytt banner på Balkan

4.2 Kort bakgrunn

4.3.4 Den norske infanteribataljonen – et evolusjonært steg

Em “Bildungsroman” (também na seção “Desistórias”, de A poesia está morta mas juro

que não fui eu), o humor irônico do poeta deixa verter uma melancolia corrosiva mais

contundente que a maioria de seus epigramas cômicos (p. 352): antes bebia de desgosto

agora bebe por gosto

O título eleva o poema a um brevíssimo “romance de formação” desse indivíduo arquetipificado em certa parte da obra paesiana. No tradicional gênero aqui apropriado, a narrativa é centrada na evolução de um protagonista ao longo de sua vida, paralelamente ao andamento histórico de seu entorno. Na sátira em questão, a evolução temporal “antes bebia” e “agora bebe” é caracterizada ironicamente com a repetição paronomástica de “gosto” e “desgosto”. É como se o descontentamento com o mundo, já existente no passado, aprofundasse a amargura a um nível em que ela deixa de ser negativa. O torpor e a alienação sugeridos pelo álcool não são mais uma resposta a nada, mas configuram o estado final do indivíduo. Está formado o eu contemporâneo, fundado na aporia de que tanto participar do jogo do capitalismo de espetáculo como refutá-lo é inócuo, seja pelo gigantismo institucional, seja pela impossibilidade de participação e de utopia. Embora não seja uma tendência dominante, essa rendição aparece em alguns momentos da poesia de Paes. Sendo uma poética de “resposta aos apelos do mundo”, retomando a definição de Arrigucci, é natural que haja oscilações para a desistência e até mesmo para a euforia quase ingênua, como se verá em breve. Entretanto, ainda com relação àquela, convém destacar a insistência com que Paes traz a figura do suicida, em

contextos diversos, que variam da admiração à condenação absoluta. Já em seu segundo livro,

Cúmplices (1951), tal signo está no poema “Carta de guia” (p. 61):

[...] III

Caminhemos Sem perguntas Como os suicidas Que jamais indagam A profundidade do abismo. [...]

Como em toda a antologia, nesse poema o eu-lírico dialoga com Dora, a esposa de Paes, a quem ele dedicou praticamente todos os seus compêndios. Em todo o texto há um tom positivo, de fluxo constante da vida de ambos – desde que estejam juntos. Causa surpresa, pois, que a caminhada desta terceira parte seja associada ao ato de se tirar a própria vida. Note-se que há uma obstinação em ambas as ações, uma coragem de encarar o desconhecido, seja ao caminhar em vida, seja ao mergulhar para a morte. Cada um cumprindo a sua “sentença” (o título já remete ao documento oficial que declara o resultado de um julgamento). Não há, assim, condenação do suicídio – ao contrário, certo encanto –, e o que se depreende do livro como um todo é que o próprio poeta pode permanecer vivo pela presença da companheira,32 expressão da insegurança identitária vista nos nomes das três primeiras publicações do autor: O aluno (1947), que pressupõe a necessidade dos mestres; Cúmplices, a da companheira; e Novas cartas

chilenas, que além da remissão a uma obra canônica traz consigo a dúvida de autoria já citada

acima. Assim, a necessidade da presença do outro para legitimar sua expressão marca a juventude da escritura de Paes, que apenas em Epigramas (1958) começa a delinear seu estilo pessoal de forma mais evidente. Antes disso, a presença constante da morte na cena poemática parece estar ligada a tal hesitação egóica, cenário que retornaria na sua poesia dos anos 80 em diante, como se verá futuramente. Quanto ao suicida no texto acima, seu desapego pelo futuro é uma forma de se posicionar fora da ditadura do tempo, da clausura do devir. Pois seu correlato em vida, a caminhada “sem perguntas”, almeja o mesmo: desatar-se do nó do tempo, como exposto na primeira parte do poema (“Nossa vida/ Construímos/ A cada passo,/ A cada minuto, /A cada esquina,/ De mãos unidas.”) e concluído na última: “Vivemos, Dora, na certeza/ De sermos amanhã/ O que ontem não fomos.”.

32

No poema Cúmplices, a ideia de caminhada é retomada dando tal sentido: “Atrás de mim ficou o

Não mais em “tom de admiração”, o suicida retorna neste poema (p. 129) publicado na obra de 1958:

PRIMEIRO TEMA BÍBLICO Dorme o profeta

Muito além da cama, Enquanto um rato Devora a colheita, [...]

Dorme o profeta, sempre Entre mãos cruzadas: A inútil mão limpa Dos suicidas.

Em Epigramas, veem-se os poemas mais participativos de Paes, representativos de uma época em que seu ativismo social era intenso. Na série dos dois poemas bíblicos (cujo primeiro está acima), a inação política causada pela passividade inerente ao cristianismo (ou a suas interpretações) é criticada duramente por meio de algumas figuras como o profeta que dorme ou o cordeiro. Pelo trecho acima, nota-se que a inoperância do enviado divino é posta em correlação com a inocuidade do gesto suicida. Em ambos os casos, não fazer nada reforça o

status quo,33 ainda que as mãos permaneçam “limpas”. Tal ideia é reforçada no poema “A

Maiakóvski” (de Anatomias ): “uns te preferem suicida/ eu te quero pela vida/ que celebraste na flauta [...]”. No caso do poeta russo, sua obra e sua participação política foram mais representativos ao cenário que o rodeava que seu suicídio.

Há, assim, essa intensa oscilação de tom no tema do suicídio, inclusive um viés cômico34 que não nos interessa nesse momento, mas que retornará no segundo capítulo. O que parece relevante é que nos últimos livros de Paes a figura do suicida volta a ter certa idealização, como no distante Cúmplices. Em 1988, no livro A poesia está morta mas juro que não fui eu, lê-se o poema (p. 334):

PISA: A TORRE

em vão te inclinas pedagogicamente

o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos bêbados ou o mergulho dos suicidas

33

Ainda nesse livro, Paes chega sugerir a luta armada como contraponto a essa omissão: “[...]Homem, não sejas/ Pássaro nostálgico,/Cão ou boi servil./ Levanta o fuzil/ Contra o outro homem/ Que te quer

escravo./ Só depois disso morre.” (“Baladilha”)

Há uma ode à imperfeição nesse irônico epigrama. A conhecida inclinação do campanário italiano é uma metáfora à excentricidade, à fuga do mainstream, ainda que se trate de um monumento altamente reificado pelo turismo massivo. No poema, a preocupação no título (“a torre”, em evidência após os dois pontos) de reforçar a função da edificação é um contraste à sua condição anacrônica em termos urbanísticos,35 já que seu papel hoje é meramente decorativo, para o usufruto dos turistas consumidores. A partir dessa imagem, são colocados em cena o bêbado e o suicida, figuras à margem da estrutura social que sustenta a engrenagem capitalista (aqui generalizada por “o mundo”). Em seus alheamentos, na obliquidade e no mergulho, de certa forma rejeitam esse cenário exterior. São, assim, heroicizados em seu escapismo. O poeta apreende a pedagogia da imperfeição, da diferença, do desvio da norma. Da mesma forma, em “Opção” (p. 486), de Socráticas, reaparece o tom positivo com que se trata a autodestruição suicida:

OPÇÃO

Seja para uma plateia de muitos ou de um só espectador

aos atores incumbe representar seus respectivos papéis

até o fim da peça.

Nisso diferem dos suicidas que sem a menor cerimônia

voltam as costas ao respeitável público e saem de cena

quando bem entendem.

O suicida é contraposto ao ator social, integrado à rede de relações da sociedade de espetáculo (a presença da “cena” e da “plateia” reforça esse sentido). Mais uma vez, o colocar- se fora do jogo desvela um tipo de autonomia, alguma liberdade, enquanto acatar a falsidade sígnica do mundo contemporâneo é representar papéis quase maquínicos em uma estrutura imposta. Nesse grupo de poemas, nota-se um outro posicionamento do poeta José Paulo Paes, diferente daquele tom rebaixado, tendendo ao dia-a-dia, visto na maior parte de sua obra. Aqui, as imagens do suicida e do bêbado sugerem um artista outsider, à margem da cotidianidade, com traços românticos de sacrifício e autoflagelo.

Há ainda que se registrar, além dos epigramas nostálgicos e dos autodestrutivos, momentos esparsos em que Paes abarca um otimismo quase ingênuo, em que a crença na luta social predomina o seu ideário. Geralmente menos sofisticados formalmente, com associações

fáceis e se rendendo a chavões socialistas, esses poemas denunciam a dificuldade do autor de compor sem a sua instintiva verve irônica. Em sua maioria, estão nos primeiros livros do poeta, fase de afinação entre sua acidez cômica e seu desejo pelo denuncismo. Textos em versos como “Ressalva” (“Árdua pobreza de muitos./ [...] Mas um diamante – o orgulho”) e “Do mecenato” (“Apesar de tudo,/ Há sempre mais leões/ do que domadores.”), ambos de Epigramas, permitem-se uma pouco elaborada louvação aos mais pobres, recaindo em um prosaísmo simplório. Na ânsia de uma poesia participativa, o jovem escritor afrouxou, nos casos em tela, tanto o crivo da forma como a precisão da observação irônico-crítica do mundo, aproximando- se do ideologismo. Ainda no mesmo livro, outros poemas como “Matinata” e “Ode” repetem esse padrão.

É essa heterogeneidade da obra de Paes que dificulta conclusões generalizantes, e que me obriga a registrar diversas facetas de sua relação com o mundo e com o tempo antes de tentar desenhar uma tendência dominante em sua poética. Entretanto, uma análise detida na criação madura de Paes (de Anatomias em diante) revela que, no grupo de poemas em que aborda a sua relação com a contemporaneidade, quando reflete sobre as malhas temporais que perpassam a existência e quando deixa expor o seu “sentimento de mundo”, é o tom nostálgico- reflexivo que impera, a partir do exame da vacuidade do presente e da retomada do passado (a última, de forma mais tardia) – apesar dos direcionamentos autoagressivo e otimista que irrompem por vezes. Dessa forma, é no novelo intrincado do tempo que repousa um dos mais relevantes feixes formais e significativos dessa obra, em que gravitam as relações do eu com o passado, a história e a memória, com o cenário urbano ao fundo. E é a partir deste entorno que se pode começar a desenrolar os fios.