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Den fiksjonale komedien i Holbergs Introduction

O uso das palavras: observação64 e seus sinônimos foram encontrados em 19 roteiros práticos (76%) dos 25 analisados. Sendo:

 08 em 10 roteiros práticos, volume 1;  10 em 10 roteiros práticos, volume 2;  01 em 05 roteiros práticos, volume 3.

No apêndice G, apresentamos vários exemplos de fragmentos dos roteiros práticos em que a palavra observação e seus sinônimos aparecem na sua configuração, mostrando à audiência-aluno e à audiência-professor que a Ciência é visual, oriunda da capacidade visual do indivíduo. Como os exemplos a seguir:

 A maneira mais simples de identificar lipídios é observar a formação de manchas

gordurosas e translúcidas em papel de embrulho (volume 1, p. 51, grifo nosso).

 [...] procure focalizar uma letra do jornal (não serve a letra ―o‖). Procurando deixar sempre

aquilo que quer observar no centro do campo, desenhe exatamente o que está observando.

[...]. b) Desenhe e identifique as partes da célula que você observou (volume 1, p. 83, grifo nosso).

 [...] prepare a observação da seguinte forma: [...]. Observe ao microscópio o material

preparado, usando primeiramente as objetivas de menor aumento [...]. Faça um desenho dos

organismos que você visualizou e tente identificá-los [...] (volume 2, p. 56, grifo nosso).

64 Chalmers (1993) esclarece que o problema de se questionar o paradigma empírico-positivista não está na

 Observe uma flor e identifique suas partes. [...]. Sacuda o estame e veja se caem grãos de

pólen. Observe ao microscópio. [...] desenhe o que observar, identificando as partes

(volume 2, p. 87, grifo nosso).

A partir desses exemplos, é possível entender que o real significado dos termos observação e seus sinônimos se relacionam apenas à visualização, ao ato fisiológico de enxergar, em vez de uma interpretação dos dados, da elaboração de explicações intelectuais, da argumentação que devem ser entrelaçadas com o conhecimento científico.

Na nossa acepção, ao analisarmos os roteiros práticos entendemos que eles objetivam que a audiência-aluno enxergue os dados e os registrem, como nos exemplos: observe o que acontece, desenhe o que você está observando, desenhe o que viu, observe ao microscópio, desenhe o que visualizou, veja o que acontece bem como passando a ideia que é para a audiência-aluno,observar o material x ou y, observar a aparência/aspecto da amostra.

Para Chalmers (1993), em grande parte, a razão do uso dos termos observação e seus sinônimos estão relacionados com a obtenção dos dados adquiridos pela realização da prática experimental.

Igualmente, os roteiros práticos da coleção Biologia Hoje se focam no ato da observação para o registro dos dados obtidos, a partir da execução dos procedimentos do trabalho prático. Seus efeitos são mais visuais do que interpretativos, porque se espera que a audiência-aluno anote os resultados observados para depois, incorporar os conhecimentos científicos quando forem responder as questões do resultado e da discussão presentes ao final dos roteiros práticos.

Dessa forma, a observação fica centrada em enxergar os dados e registrá-los, excluindo os aspectos importantes da observação: a interpretação, a argumentação e a elaboração de explicações intelectuais como esclarece Hanson (1975).

Na perspectiva de Hanson (1975), para o sujeito observar, é preciso interpretar intelectualmente os dados coletados, sem essas elaborações intelectuais, o indivíduo apenas enxerga alguma coisa, ficando restrito aos aspectos visíveis do fenômeno observado. Dois indivíduos podem ver o mesmo objeto ou fenômeno, mas esses objetos ou fenômenos podem ter significados diferentes para ambos, porque a interpretação está condicionada às experiências de vida e ao nível de conhecimento dos indivíduos. Para esse autor, há uma diferença entre a ação de observar e a ação fisiológica de enxergar.

Em relação aos roteiros práticos e ao trabalho prático, não é porque o aluno vê que ele entende. Não é porque responde ilustrando a teoria que ele aprendeu aquele determinado conhecimento. Dessa maneira, ao considerar a observação equivocadamente como o ato

fisiológico de enxergar, os registros dos dados ficam separados da interpretação teórica, da argumentação e das elaborações mais intelectuais, já que o indivíduo apenas descreve o que está enxergando.

Ao resgatar a minha memória de professora, entendo que era por isso que, muitas vezes, ao repetir o mesmo roteiro de trabalho prático tradicional, em anos diferentes a um mesmo aluno que passou para série seguinte, a proposta de trabalho prático sempre parecia neutra, sem impacto no processo de ensino-aprendizagem, porque o aluno apenas enxergava os dados a serem coletados, registrava-os e ilustrava a teoria envolvida no trabalho prático, num perfeito trabalho mecânico, neutro e sequencial. As análises e interpretações dos próprios alunos nunca eram propostas.

É por isso também que os locutores dos roteiros práticos da coleção Biologia Hoje repetem trabalhos práticos usados desde a alfabetização até o Ensino Médio, por exemplo, a repetição do roteiro prático de denominação pressuposta por esta dissertação de germinação de semente, volume 2 (p. 107). Esse roteiro prático continua a priorizar o crescimento da planta, a mudança da sua aparência ao passar do tempo, estimando, apenas, o seu aspecto visual. Entretanto, somente ver a planta crescer e registrar os dados, diferenciando-as entre mono e dicotiledôneas, não consolida a aprendizagem e não promove o “fazer ciência”. Porque a Ciência não está restrita apenas na capacidade visual do indivíduo, mas inclui outras capacidades, como a argumentativa.

Nesse sentido, a palavra observação e seus sinônimos, nos roteiros práticos, tem uma relação direta e equivocada com o ato fisiológico de enxergar, privilegiando os alunos com boa acuidade visual. Porque o efeito de sentido produzido, ao analisarmos os roteiros práticos, é que a audiência-aluno somente realizará bem a proposta de trabalho prático se for capaz de observar (enxergar), registrando os dados, desconsiderando a presença dos alunos de baixa visão ou cegos. O que torna o trabalho prático excludente.

Portanto, o uso das palavras observação e seus sinônimos bem como o seu ritual de coletar os dados adquiridos nos roteiros práticos reforçam a concepção popular de ciências que formaliza uma visão indutivista ingênua (CHALMERS, 1993). Isso porque, “de acordo com o indutivista ingênuo a ciência começa com a observação” (CHALMERS, 1993, p. 23). Dessa forma, para o indutivista ingênuo, o sujeito precisa ter órgãos do sentido da visão perfeitos e aguçados, não compreendendo que a observação não é restrita apenas no ato fisiológico de enxergar, mas está ligada à capacidade dos indivíduos de argumentar, elaborar explicações intelectuais e interpretar. Desse modo, observar não pode ser entendido num roteiro prático e no trabalho prático, como enxergar um objeto ou fenômeno visível aos olhos,

fazendo os devidos registros e apresentando as respostas certas às perguntas. Observar carece de argumentação, de interpretação e de explicações intelectuais.

A palavra observação e seus sinônimos: linguagem e ideologia

A escolha de qualquer palavra pode se constituir num discurso. O uso da palavra observação diz muito da visão de mundo dos seus locutores e das influências ideológicas que os domina, social e historicamente. Segundo Bakhtin (2012),

“A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a essa função, nada que não tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social” (BAKHTIN, 2012, p.36, grifo do autor). Nas concepções bakhtinianas, segundo Rodrigues (2013), é na palavra que a ideologia é difundida, influenciada pelas organizações sociais como a científica. A escolha das palavras observação e seus sinônimos é, portanto, reflexo da materialidade e historicidade da linguagem e das organizações sociais científicas. E por isso, estão carregadas de ideologia. A partir, desse posicionamento podemos, enfim, dizer de qual ideologia estamos falando65. Para Fiorin (1998, p. 29, grifo do autor), a ideologia „é uma “visão de mundo‟, o ponto de vista de uma classe social a respeito da realidade, a maneira como uma classe ordena, justifica e explica a ordem social”.

Dentro dessa perspectiva, a seleção das palavras, observação e seus sinônimos, não podem ser analisadas como uma escolha de vocábulos aleatórios. Essas palavras acabam por adquirir significados que lhe são exteriores, tornando-as carregadas de significados e permeadas da historicidade da Ciência. São palavras com história e que demonstram a influência social que os seus locutores foram ou são influenciados, a concepção empirista- indutivista.

É devido a esse apelo ideológico que, na nossa memória discursiva, ao usar os termos observação e seus sinônimos nos roteiros práticos, a historicidade impressa nesses dizeres nos transporta para posição de cientistas e para a visão epistemológica que entendemos por Ciência. Lembrando o que afirma Orlandi (2001, p. 32) ao explicar que “as

65 Relembrando que usamos as ideias de Bakhtin para entendermos a ideologia, e não a sua teoria e a corrente da

análise de discurso. Por isso, nos sentimos livre para escolhemos o termo ideologia de Fiorin. Isso porque sua ideia de ideologia se aproxima com o que consideramos mais apropriado para os caminhos dessa dissertação.

palavras não são só nossas. Elas significam pela história e pela língua”. Ao serem ditas, nos posicionamos no discurso e apresentamos o vínculo ideológico que nos domina.

Por conseguinte, a seleção dessas palavras, nos roteiros práticos da coleção, reflete a história das Ciências e aponta a visão de mundo dos seus locutores que contribuirão para o reforço ideológico e epistemológico a ser compartilhado entre os sujeitos, reforçando a imagem indutivista ingênua na qual nós, os professores das disciplinas das Ciências da Natureza, continuamos a repassar aos nossos alunos e que, por sua vez, repassarão a sociedade, mantendo o ciclo que faz imperar a concepção popular de Ciências.