Após a realização das entrevistas, todas foram transcritas de forma integral em arquivos do Microsoft Word, fonte Arial, tamanho 11, espaçamento 1,5. Obteve-se um total de 128 páginas de transcrição. A partir dos dados coletados, a pesquisadora empreendeu a análise do conteúdo transcrito, utilizando como categorias a priori aquelas sugeridas pelos modelos analisados, além de identificar nas transcrições algumas práticas informacionais adotadas pelas mães na busca pela melhor qualidade de vida de seus filhos alérgicos, que permitiram a elaboração de categorias a posteriori. Dessa maneira, pretendeu-se identificar algumas das práticas informacionais presentes no dia-a-dia das mães, uma vez que, devido a sua complexidade, subjetividade e flexibilidade, torna-se impossível relacionar todas as práticas que fazem parte dos universos dessas famílias.
No Apêndice C, é possível observar os sete quadros referentes às famílias entrevistadas. Todos os nomes citados foram trocados por xxx, a fim de preservar a privacidade das mães, de suas crianças e das demais pessoas/empresas/instituições citadas. As práticas informacionais identificadas em cada núcleo familiar, a partir da transcrição e análise das entrevistas, foram relacionadas a categorias de análise, criadas pela autora a fim de favorecer a análise do material coletado.
O quadro da Família 1 serviu de modelo para os quadros das demais famílias. A partir desse exemplo, as demais práticas informacionais identificadas nas falas das outras sete mães foram relacionadas às categorias de análise já citadas, o que, obviamente, não impediu a criação de outras categorias, de acordo com as novas práticas informacionais observadas. Cada prática identificada a partir das entrevistas foi relacionada a 16 categorias de análise, que posteriormente são detalhadas, a saber:
1) Introdução alimentar por testes práticos com a criança.
2) Busca por informação especializada no tema alergia alimentar. 3) Busca por informação na internet (sites).
4) Busca por informação na internet (redes sociais). 5) Apresentação de informações ao médico.
6) Indicação de informação especializada.
7) Tentativa de diagnóstico a partir de testes práticos e observação. 8) Busca de diagnóstico a partir da identificação de sintomas.
9) Informações obtidas em ações cotidianas.
10) Rótulos de alimentos e contato com Serviços de Atendimento ao Consumidor (SAC). 11) Sugestões sobre alergia alimentar por parte de terceiros.
12) Obtenção de informação especializada relativa à alergia alimentar a partir de terceiros.
13) Estudos da parte científica da alergia alimentar.
14) Tentativa de adaptação a partir de conhecimentos adquiridos. 15) Mãe que atua enquanto fonte de informação.
16) Compartilhamento de informações entre mães de crianças alérgicas.
Os resultados mostram que foi possível relacionar a cada família, no mínimo, 12 deas categorias (ver QUADRO 4). Embora cada prática informacional tenha suas características próprias, de acordo com os contextos que compõem a vida da mãe entrevistada, a criação das categorias permite organizar a visão do fenômeno, a fim de melhor estudá-lo.
Vale destacar que o fato de não ter sido identificada uma categoria de análise na Família 1, com relação à Família 2, não indica que a mãe da Família 1 não realiza tal prática informacional em seu cotidiano, uma vez que não é possível apreender todas as práticas adotadas pela família em somente uma conversa (e, pela complexidade das mesmas, nem mesmo se a pesquisadora vivesse uma semana na casa da família seria possível identificar todas as ações em prol da qualidade de vida das crianças).
O resultado indica que, especificamente na análise do conteúdo transcrito após a entrevista, não foram observadas tais práticas. Essa questão está diretamente relacionada às características da pesquisa, a qual teve as categorias de análise definidas a posteriori, de acordo com a análise dos conteúdos transcritos. Acredita-se que a definição dessas categorias de análise antes da entrevista seria imatura, uma vez que a cada conversa foi
possível compreender novas nuances e perceber questões diversas sobre o tema alergia alimentar.
Quadro 4 – Categorias de análise identificadas nas práticas informacionais das famílias entrevistadas.
Família Categorias
1 2 3 4 5 6 7
1 Introdução alimentar por testes práticos com a criança X X X X X X
2 Busca por informação especializada no tema alergia alimentar X X X X X X X
3 Busca por informação na internet (sites) X X X X X X X
4 Busca por informação na internet (redes sociais) X X X X X X
5 Apresentação de informações ao médico X .X X X X X
6 Indicação de informação especializada X .X X X X X
7 Tentativa de diagnóstico a partir de testes práticos e observação X X X X X
8 Busca de diagnóstico a partir da identificação de sintomas X X X X X X X
9 Informações obtidas em ações cotidianas X X X X X X X
10 Rótulos de alimentos e contato com SAC X X X X X X X
11 Sugestões sobre alergia alimentar por parte de terceiros X X X X X X X
12 Obtenção de informação especializada a partir de terceiros X
13 Estudos da parte científica da alergia alimentar X X X X X X
14 Tentativa de adaptação a partir de conhecimentos adquiridos X X X X X X X
15 Mãe que atua enquanto fonte de informação X X X X X X X
16 Compartilhamento de informações entre mães de crianças alérgicas X X X X Fonte: a autora.
Dessa forma, ao longo das entrevistas, em momento algum se buscou conseguir exemplos de categorias de análise específicas, uma vez que estas ainda não estavam
definidas. O que ficou claro, de toda forma, conforme as próprias mães relataram, é que cada família encontra suas formas de lidar com a alergia alimentar.
Em alguns momentos, percebe-se que as práticas informacionais podem ser encaixadas em mais de uma categoria de análise. No entanto, a fim de uma melhor organização do conteúdo, optou-se por relacionar cada prática somente a uma categoria, conforme pode ser observado até então.
Vale destacar que as categorias de análise foram construídas aos poucos, após a identificação das práticas informacionais de cada família. A primeira análise da Família 1, por exemplo, apresentava 11 categorias de análise (a versão final aqui apresentada mostra 15 categorias relacionadas às práticas da Família 1). Isso ocorre porque, a cada família analisada, a autora tem tido a oportunidade de avaliar novas práticas informacionais e, ao não conseguir relacioná-las a nenhuma categoria existente, surge a necessidade da criação de uma nova descrição.
Uma das questões que foi observada a partir das entrevistas, e que pode ser identificada em diversas categorias de análise, é um aparente despreparo de parte dos médicos para lidar com a questão da alergia alimentar, exigindo das mães uma participação ativa no encontro do diagnóstico e de formas de cuidado e/ou tratamento. A mãe da Família 7, por exemplo, relata ter recebido orientações erradas do médico que assistia ao seu bebê, o que causou um choque anafilático na criança. Mesmo assim, o especialista se recusava a acreditar que o choque tivesse mesmo acontecido. De acordo com a mãe, “ele (o médico) olhava pra mim, não acreditava que o xxx tinha a alergia que ele tinha. [...] Um erro desses pode ser fatal. Se eu não moro ao lado de um hospital [...]? O que pode acontecer, sabe?”.
Provavelmente devido às dificuldades enfrentadas na compreensão da alergia, o que se percebeu é que cada mãe estudou de forma aprofundada sobre o tema. A cada entrevista, a pesquisadora teve a sensação de que estava participando de uma aula sobre o assunto. Mesmo com pesquisas prévias realizadas sobre alergia alimentar para este estudo, o pleno entendimento de termos como “traços”, “mediados”, “não-mediados” e “sensibilização”, por exemplo, ocorreu de forma efetiva após as explanações feitas pelas mães. É fundamental, portanto, reconhecer o protagonismo dessas mulheres na busca por informações sobre o tema.