Quanto à aplicação das BPA nas propriedades leiteiras no Brasil, é importante ressaltar que as melhores tecnologias adotadas, com seus impactos avaliados qualitativa e quantitativamente, são as que formam um conjunto de tecnologias e técnicas que, além do ganho tecnológico em si, também contribuem para a geração de empregos, para a educação, para a conservação ambiental e para a geração de recursos ou redução de custos de produção, resultando em impacto social e econômico positivo a uma região e ao país (BERNARDI et al., 2010).
Paixão et al. (2014), ao avaliarem o impacto econômico da implantação das BPA relacionadas com a qualidade higiênica sanitária do leite, concluíram que a inclusão das boas práticas para a melhoria da qualidade do leite, quando praticadas em seu nível máximo, mostra-se com rápido retorno do capital investido e ótima taxa interna de retorno para pecuaristas que já possuem a sala do leite e o tanque de expansão, visto que a necessidade de investimentos em infraestrutura e equipamentos, que representam a maior parcela dos custos da qualidade do leite, já havia sido realizada e seus custos diluídos ao longo do tempo, mas demonstrando aos pecuaristas e aos laticínios a importância dessas práticas tanto para a qualidade do produto quanto para a rentabilidade da atividade leiteira.
Em estudo com o objetivo de identificar os principais pontos de contaminação do leite cru na linha de ordenha de uma propriedade rural da região de Viçosa/MG e os efeitos de práticas higiênicas na redução do nível de contaminação microbiológica do leite, Yamazi et al. (2010) concluíram que as práticas de produção aplicadas na produção de leite cru são eficazes para reduzir o nível de contaminação em pontos específicos da linha de ordenha, como teteiras de ordenhadeiras mecânicas, e em superfície de tetos dos animais em lactação, de modo que a adoção de boas práticas de produção é fundamental para obtenção de um produto final com baixas contagens microbianas, característica indicativa de boa qualidade do leite.
Essas conclusões estão de acordo com os resultados de Matsubara et al. (2011), que demonstraram que aplicação das boas práticas reduziu, em média, 99.9% dos microrganismos aeróbios mesófilos no leite de quatro propriedades do agreste Pernambucano, levando a uma melhor qualidade microbiológica e maior vida de prateleira do produto final. As práticas por eles indicadas eram simples, de fácil incorporação na rotina da ordenha em qualquer situação de tecnificação das propriedades, não requerendo gastos com instalações, sendo, portanto, eficientes para adequar o leite produzido às variáveis e atributos de qualidade estabelecidos pela Instrução Normativa MAPA nº 51/2002 (MAPA, 2002). Da mesma forma, Júnior et al. (2011) relataram que, após a implantação das BPA, também houve melhorias na qualidade do leite dos animais, principalmente para na contagem padrão em placa e acidez.
Vallin et al. (2009), em um estudo em 19 municípios da região central do Paraná, com o objetivo de avaliar a eficiência da implantação de boas práticas simples e baratas de higiene na ordenha que pudessem ser facilmente introduzidas pelos produtores de leite nos principais pontos identificados como passíveis de maior contaminação, identificaram que após a implantação houve uma redução média de 87,90% na contagem
bacteriana total (CBT) do leite nas propriedades com ordenha manual e de 86,99% nas com ordenha mecânica, cabendo observar, entretanto, que essas reduções de CTB são provavelmente não significativas, pois foram menores que 90% ou um ciclo logarítmico.
Além da CBT, houve a redução média, significativa, de 33,94% na contagem de células somáticas (CCS) em propriedades com ordenha manual e de 51,85% nas com ordenha mecânica, demonstrando que as práticas simples implantadas (desprezo dos três primeiros jatos de leite, lavagem dos utensílios de ordenha - latões, baldes, teteiras - com detergente alcalino clorado 2%, pré-dipping com solução clorada 750 ppm em caneca sem refluxo, e eliminação da água residual dos utensílios de ordenha) se mostraram eficientes nos diferentes sistemas de produção e foram suficientes para a adequação do leite fluido à Instrução Normativa MAPA nº 51/2002.
Entretanto, Oliveira et al. (2015) concluíram que não houveram alterações significativas em alguns dos indicadores de qualidade do leite após a aplicação de um protocolo de boas práticas para a ordenha higiênica (o Kit EMBRAPA de Ordenha Manual®) em 236 fazendas do agreste e semiárido do Sergipe, pois os pecuaristas não utilizaram todas as recomendações que foram passadas durante o treinamento, mas que o procedimento de refrigeração imediata das amostras de leite colhidas para análise laboratorial, que contribuiu para a redução na CCS e nas Unidades Formadoras de Colônias (UFC) no leite analisado, constitui uma orientação clara para que o produtor refrigere o leite dentro do período de tempo necessário para cumprimento da Instrução Normativa MAPA nº 62/2011 (MAPA, 2011).
Já Brito et al. (2004), apesar dos seus resultados indicaram que grande parte das 48 propriedades leiteiras por eles avaliadas nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro adotavam as principais práticas consideradas necessárias para a produção de leite de qualidade, identificaram que uma série de procedimentos fundamentais não eram adotados em muitas delas, podendo colocar em risco tanto a qualidade do leite para processamento quanto a saúde do consumidor, merecendo atenção por parte dos produtores rurais e da Assistência Técnica e Extensão Rural ao serem incluídos em um programa efetivo de boas práticas.
Dentre os procedimentos fundamentais, o manejo adequado das bezerras na fase de recria; correto armazenamento dos alimentos; realização de testes para o controle da tuberculose; monitoramento e controle das mastites, incluindo a antissepsia de tetos e o tratamento de vacas secas; não-uso de anti-helmínticos em vacas em lactação; uso adequado de carrapaticidas, com adoção de um programa estratégico de controle de carrapatos;
obediência ao período de carência para antibióticos usados na vaca em lactação; higienização e dimensionamento adequados dos equipamentos de ordenha e de estocagem do leite (BRITO el al., 2004).
Dessa forma, diferentes autores, como Brito et al. (2004), Vallin et al. (2009), Yamazi et al. (2010), Matsubara et al. (2011) e Oliveira et al. (2015), corroboraram com a importância de um controle efetivo da contaminação microbiana durante a obtenção do leite, mas também que esse controle, embora seja fundamental, é apenas uma das etapas cruciais de um programa efetivo de boas práticas aplicado na pecuária de leite.
Deste modo, somente com a devida implantação e manutenção de um programa completo e eficiente será possível que os objetivos e resultados esperados sejam de fato alcançados, cumprindo com FAO & OIE (2010) quando afirmaram ser a segurança alimentar uma prioridade de saúde pública, exigindo, portanto, uma abordagem holística, da produção ao consumo.
Assim, as BPA, desde que efetivamente implantadas, também são fundamentais para agregar o conceito da gestão de negócios à assistência técnica tradicional, sendo as deficiências em gestão (econômica, social e ambiental) normalmente uma das maiores encontradas junto aos empresários rurais (CAMARGO et al., 2009).
Com a melhoria da gestão, amplia-se a capacidade do produtor em gerir sua atividade, permitindo a aplicação de melhorias técnicas capazes de promover ganhos quantitativos e qualitativos ao produto primário, o leite, melhorando os indicadores técnicos e econômicos das propriedades rurais leiteiras (NUNES, 2011). O uso de instrumentos de controle gerencial, tais como planilhas de controle e de análise de custo de produção e de controle zootécnico, têm possibilitado tornar mais rentável a atividade leiteira nas pequenas propriedades familiares (TUPY et al., 2006).