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Os levantamentos apresentados sobre as instituições e observações realizadas nas escolas nos orientam na compreensão de melhor percebermos os ambientes selecionados para análise.

Trata-se de locais onde as práticas comunicativas são tecidas e, no espaço amazônico escolhido, Cametá, um lugar de marcas histórico-culturais atravessadas por ganhos, perdas, trocas, estigmas, num território em que se mesclam dinâmicas e fazeres peculiares à realidade de diversas regiões desse imenso interior de natureza surpreendente.

São fatores que nos orientam a imaginar um sujeito que não pode ser constituído por um sistema que ainda o vê alheio ao exercício da cidadania, pautado em ações educativas programadas para a sua “construção”.

As reflexões sobre esses contextos nos remetem inicialmente à ideia de que a figura tradicional do detentor do saber centrava-se no professor, e ainda o é na realidade de muitas escolas, numa extrema preocupação com o “emissor”, o que restava ao aprendiz (estudante) preencher sua “caixa vazia”, em que passivamente recebia e guardava informações e mensagens.

Compreendemos que, na tentativa de expandir e reformular o campo educacional, os esforços dependem de algumas percepções sociais e principalmente da tentativa de enxergar os sujeitos aprendizes como partícipes de todo o processo e não fora dele. Mas, o que percebemos é o predomínio das práticas transmissivas e repetitivas que contribuem para esvaziar o processo comunicacional.

Experienciar e compreender as relações discentes, suas inquietudes, semelhanças e diferenças nos possibilitou o enriquecimento nesta pesquisa, entendendo que a escola é muito mais do que um lugar de encontro com o outro, é uma instância na qual emergem simultaneamente experiências do mundo e dos indivíduos.

Assim, optamos em analisar a realidade dessas duas instituições, pelo fato de se enquadrarem nos perfis que julgamos importantes para as reflexões desencadeadas. Jovens, adolescentes e adultos compõem o público de estudantes, cuja média de idade oscila entre 1353 e 55 anos. São alunos que apresentam em seu cotidiano escolar dinâmicas de interação as mais variadas possíveis. Contudo, a etapa final de nossa pesquisa compreende apenas a faixa etária dos jovens estudantes, de 15 a 26 anos, estudantes matriculados nos turnos da manhã e

53 Segundo a coordenadora pedagógica da escola Júlia Passarinho, o estudante mais novo é uma aluna do 1º ano,

tarde, pois a dinâmica metodológica utilizada no próprio campo, conforme mencionamos anteriormente, definiu a seleção dos sujeitos que iriam participar das rodas de conversa54.

Informalmente, percebemos alguns aspectos interessantes que fazem parte do dia a dia dos alunos, ignorado ou desconhecido pela maioria dos sujeitos que participam das ações rotineiras das escolas. No caso da escola Júlia Passarinho, o período da manhã é basicamente ofertado aos alunos que residem nos interiores do município, com exceções; e nos períodos da tarde e noite estudam os alunos residentes na sede da cidade ou que se deslocam para nela trabalhar.

A realidade do SENAI, por sua vez, mostra que os alunos matriculados são, em sua maioria, residentes na sede do município. As matrículas nesse colégio são esgotadas logo que o sistema online abre para as inscrições. Se mais vagas fossem ofertadas, certamente haveria mais alunos nas escolas55.

Nessa escola, os alunos, apesar de algumas opções variadas de amplos e interessantes espaços, revelaram nas rodas de conversa seu descontentamento em relação à ausência de espaços legitimamente voltados às práticas escolares da rede estadual (não possuem quadra própria, biblioteca, um laboratório de informática ou multimídia, por exemplo). Mesmo assim, as salas geralmente estão lotadas. E quando cogitados sobre a possibilidade de transferência para outra instituição, a resposta é negativa. Lógica incoerente, típica da faixa etária desses alunos.

Nas suas relações, as dinâmicas também se estruturam de formas similares. Contudo, a dinâmica inicial (observação exploratória) no campo, nos conduziu a pensar e a investigar a respeito de uma diferença percebida. Nessa fase, vimos que os alunos interagiam, mediados por ferramentas tecnológicas, de forma bem intensa na escola SENAI, enquanto que na escola Júlia Passarinho, os usos desses aparatos aconteciam de forma mais esporádica. Todavia, após nosso contato com os jovens estudantes, nas rodas de conversa, percebemos que não havia possibilidades de estabelecer diferença, pois como afirmaremos no capítulo destinado às análises, os alunos não foram percebidos da mesma forma como nas primeiras impressões, constatadas na etapa exploratória.

É importante ressaltar que inicialmente pretendíamos um estudo comparativo entre as escolas, devido aos perfis diferenciados, porém, no percurso da pesquisa, a comparação não se

54 Não selecionamos os estudantes matriculados no turno da noite, pois não há intervalos regulares neste período.

A idade média dos estudantes que participaram das rodas de conversa também foi delineada de forma espontânea, sem estratégias previamente demarcadas, no contato com os mesmos.

55 Em revisita à instituição, em janeiro de 2016, conversando com alguns pais que aguardavam para falar com o

diretor, prof. Márcio Gonçalves, ouvimos comentários de que existem pessoas físicas e jurídicas que chegam a cobrar o valor de R$150,00 para garantir a matrícula de seus filhos para o ano letivo de 2016.

mostrou como o principal eixo de análise, dadas as especificidades e ao mesmo tempo similaridades das observações nas duas escolas.

Dentre essas e outras diferenças notadas o crucial foi perceber o que acontece nas práticas comunicativas e como os alunos desencadeiam suas relações nessas duas instituições nos processos de comunicação e como o campo foi imprescindível para nos indicar os caminhos que precisaríamos percorrer.

As etapas que organizam a análise desse esforço constituem eixo fundamental nas investigações. As estratégias de observação direcionadas à análise das práticas comunicativas dos estudantes nos ambientes periformais de aprendizagem, desenhadas nas escolas Júlia Passarinho e SENAI, no período de março a novembro de 2015, serão apresentadas nos últimos capítulos. Antes de chegarmos a eles é importante apresentar outras etapas de composição da pesquisa.