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4. Empirical results

4.3 Geographic and demographic poverty profile

4.3.2 Demographic profile

A Psicogeografia analisa a maneira como os espaços e os lugares, sejam eles naturais ou não, afetam nossas atitudes. Com esse foco, o neurocientista espanhol Collin Ellard, em seu livro intitulado Psicogeografia, divide a relação entre sentimento e espaço nas seguintes categorias: lugares de afeto, lugares de desejo, lugares tristes, espaços de ansiedade e por último e mais importantes pra este trabalho, espaços amedrontadores. Para Ellard (2016), o espanto é uma combinação única de surpresa e temor, podendo englobar elementos de transcendência.

Ellard (2016) analisou os estudos realizados pelos psicólogos Dacher Keltner e Jonathan Haidt, e constatou que as sensações de imensidade e de acomodação estão presentes em todas as experiências de espanto. Segundo o autor (ELLARD, 2016), a sensação de imensidade nos traz a percepção da grandeza de algo, é um estímulo selvagem protetivo presente no ser humano, e pode mostrar o quão pequenos somos diante de certas circunstâncias. Apreciar o horizonte por exemplo, pode nos trazer a sensação da grandeza do nosso planeta e o quão somos pequenos perante à ele (Figura 09).

FIGURA 09 – Vista panorâmica da Serra do Corpo-Seco, Ituiutaba, Minas Gerias

Fonte: WOLF, 2019

Outro bom exemplo que podemos citar neste sentido, é em relação às experiências religiosas. Segundo Ellard (2016), as experiências de grandiosidade, vinculadas a uma sensação de união mística com algo superior, é uma experiência exclusiva dos humanos, pois os animais (não humanos) não passam pelos processos culturais vinculados às experiências e atitudes de seus grupos, há apenas um instinto de autopreservação.

Essa relação entre a importância do tamanho e a nossa reação diante da imensidade pode ser observada quando estamos na Serra do Corpo-Seco, pois as paisagens que ela contém “se conectam com nossos mecanismos cerebrais que foram evoluindo com o intuito de preservar as regras de ordem sociais e fomentar a submissão dos mais frágeis” (ELLARD, 2016, p. 12), ou seja, instintivamente essa relação entre imensidade e tamanho se trata de uma clara demonstração de poder e está presente na Serra do Corpo-Seco há tempos. Neste sentido,

Os estudos psicológicos sugerem que as formas de tais espaços não só afetam como sentimos, mas também influi em nossas atitudes e nosso comportamento, pois nos fazem mais obedientes e nos predispõem a aceitar uma vontade superior mais poderosa.8 (ELLARD, 2016, p. 15, tradução nossa)

A Serra do Corpo-Seco abarca tanto a imensidão quanto a religiosidade, ou seja, além da paisagem apresentar um plano horizontal grandioso, a ponto de influir nos nossos pensamentos e atitudes em relação às nossas condutas, os símbolos culturais como a lenda e a religiosidade somente reforçam essa concepção. Por vezes, essa relação entre a grandiosidade e religiosidade pode ser avistada na mesma paisagem, conforme a imagem abaixo:

FOTOGRAFIA 10 – Imensidão e religiosidade na Serra do Corpo-Seco, Ituiutaba, Minas Gerais.

Fonte: WOLF, 2019

A trilha que liga a estrada vicinal ao local da cruz, na Serra do Corpo-Seco, conta com marcações cristãs de cor vermelha em árvores durante todo o caminho (Figura 11). Estas marcações orientam o caminho para aqueles que participam de rituais religiosos, realizados na cruz erguida no topo da Serra.

FOTOGRAFIA 11 – Marcações religiosas encontradas durante a trilha na Serra do Corpo-Seco, Ituiutaba, Minas Gerais

Fonte: WOLF, 2019 Os espaços construídos, como estes na Serra do Corpo-Seco

Se conceberam de maneira explicita para alterar os sentimentos das pessoas, bem como instalar e reavaliar sua relação com o universo divino, para apaziguar seus temores com a promessa de uma vida pós morte e com a esperança de influir em seu comportamento muita depois de haver abandonado o lugar. (ELLARD, 2016, p. 14, tradução nossa)

Os lugares nas quais possuem o sentido de grandiosidade e poder demonstram uma relação explícita com os elementos da natureza humana relativos à ordem social e às relações de poder, sugerindo um certo tipo de acomodação no sentido de que esses lugares nos influenciam a termos comportamentos mais obedientes e nos predispões a aceitar uma vontade superior. Para Ellard (2016) a acomodação descreve como ajustamos nossas imagens do mundo em resposta aos estímulos que nos geram espanto ou grandiosidade.

Os processos neuronais responsáveis por essa acomodação, segundo Ellard (2016), encontram-se em circuitos subcorticais ancestrais, cuja função é administrar o medo. Estas conexões entre nossa necessidade emocional profunda e a imensidade podem ser mais simbólicas do que real (ELLARD, 2016).

Embora os espaços amedrontadores sejam símbolos de poder e, por sua vez, provocam a conformação e a coesão social de seus membros, outro fator psicológico deve ser considerado: a consciência pessoal. Ainda que acreditemos na nossa existência, incluindo nossa consciência pessoal, estes fatores apenas respondem à estímulos químicos e físicos e nos aparenta que nosso mundo interior está repleto de incógnitas. Porém, não podemos separar o ser social do ser biológico, pois o

homem possui uma inteligência genética e organicamente social. Isso ocorre devido à relação entre o ambiente social e questões biológicas, por meio da qual o indivíduo se constrói, por meio da reciprocidade e da interdependência com o meio.

De fato, quando tentamos entender o significado superior de nossa existência, também tentamos compreender o que significa ter consciência de nós mesmos (ELLARD, 2016). Neste sentido, o autor afirma que

[...] os estudos científicos tem revelado que a exposição a cenas de grandeza, que se trate de fenômenos naturais, assombrosos como um céu escuro e estrelado, ou os desfiladeiros [...] ou um artefato de construção humana, [...] podem exercer uma influência quantificável na concepção que temos de nós mesmos, e em como tratamos o próximo, incluindo a maneira como percebemos o passo do tempo. (ELLARD, 2016, p. 15, tradução nossa)

A exclusividade dos seres humanos em saber que um dia morreremos, é a verdadeira chave para entendermos a natureza humana (ELLARD, 2016). A incapacidade de afrontar o fato inevitável de sua própria finitude pode acarretar estresse, depressão e suicídio. No que tange esse assunto, Ellard (2016) descreve que

Dado o pano mortuário que ameaça pôr fim à complexidade de nossas vidas interiores, é razoável supor que possamos haver desenvolvido estratégias explícitas para lidar com a consciência da morte. Além do mais, é possível que tais estratégias sejam exemplificadas em desenhos cerebrais específicos, concebidos para apartarmos do precipício da desesperança e reconduzirmos a uma vida produtiva no sentido darwiniano de ser capazes de desembaraçarmos do mal estar da mortalidade e tempo necessário como para nos cuidarmos, relacionarmos e reproduzirmos. (ELLARD, 2016, p. 188, tradução nossa)

Os estudos sobre gestão do terror tentam nos explicar como nossos medos em relação a morte influem nosso comportamento diário, bem como nossos impulsos inconscientes relacionados a mortalidade podem modificar nossas atitudes, crenças e valores. Neste sentido, Ellard (2016), ao analisar os estudos de Solomon, defende a ideia de proeminência da mortalidade como sendo um estado mental que aflora quando os arredores de um indivíduo insinuam sua mortalidade.

Em um experimento, Solomon solicitava aos participantes que pregassem numa parede um prego, usando um crucifixo como martelo. Em outro momento solicitava aos participantes que peneirassem um pó negro na bandeira estadunidense. Desta maneira, Solomon identificou que as pessoas que foram expostas a situações de proeminência da mortalidade se mostraram mais acanhadas diante ao experimento do que outras. Para ele, a condição da proeminência da mortalidade modificou a perspectiva de mundo dos participantes, tornando-os mais conservadores e respeitosos. Solomon sugere que, ao desencadear a proeminência da mortalidade, os participantes geralmente tendem a demonstrar mais apego às suas culturas e menos tolerantes à cultura alheia. (ELLARD, 2016)

Contudo, estes resultados sugerem que os acontecimentos que afloram o terror e colocam nossa vida em dúvida podem exercer efeitos globais de comportamentos, bem como mudar o que sentimos a respeito de outras pessoas ou o que sentimos diante de um monumento religioso.

Sempre que nossa existência se vê ameaçada e vivemos ao redor do terror de uma morte eminente e inevitável, respondemos sustentando nossa relação com uma cultura duradeira, incluindo seus artefatos físicos, e confiando que, ainda nossos frágeis corpos talvez só durem um instante, as culturas as quais pertencemos e contribuímos perdurarão mais tempo. (ELLARD, 2016, p. 191, tradução nossa)

Além disso, as experiencias amedrontadoras podem modificar nossa percepção de tempo e produzir a sensação de viver no presente. Essas experiencias nos induz uma dilação subjetiva do tempo, nos influencia a pensarmos que temos mais tempo disponível (ou a valorização do pouco tempo que há) para fazer nossas coisas, geralmente em condutas pró-sociais em causas benéficas.

Os experimentos dos psicólogos Piercarlo Valdesolo e Jesse Graham, explicitados na obra de Ellard (2016), demonstram que as experiências de amedrontamento alimentavam as crenças em seres sobrenaturais e negligenciavam as aleatoriedades. Assim, ao se deparar com uma situação de espanto e medo, os participantes expressaram crenças religiosas mais sólidas em um criador do universo, e concomitantemente se demonstraram mais relutantes a aceitarem a ideia de que as construções naturais grandiosas, que provocam a sensação de pequenez humana, sejam resultados de processos aleatórios, sem a intervenção de um ser divino.

No caso da Serra do Corpo-Seco, podemos afirmar que tanto a religiosidade quanto a imensidão podem provocar no observador questionamentos existenciais, pois a sensação de pequenez humana diante à paisagem amedrontadora e grandiosa influi nossos pensamentos e atitudes. Essa sensação há de vir independentemente da lenda, o espaço por si só é amedrontador, a lenda é mais um vetor nesse processo.

10 CONCLUSÃO

A Geografia é a ciência que estuda a relação homem-natureza. Porém, os primeiros estudos geográficos sobre cultura valorizavam as técnicas e os utensílios utilizados para modificar a paisagem. A uniformização das técnicas advindas da globalização, sobretudo em regiões urbanizadas, favoreceu a valorização do conteúdo simbólico presente na cultura. Esse fato foi um pontapé inicial para a mudança metodológica que viria a ocorrer em meados da década de 1960.

O contato da Geografia com a Sociologia e com a Etnologia nesta época, proporcionou a inserção do conteúdo simbólico nos estudos culturais. Assim, as concepções subjetivas do mundo oriundas da percepção, cosmovisão e das representações foram concretizadas como materiais de estudo culturais na década seguinte. Neste sentido surge então a Geografia da Percepção e a Geografia das Representações.

No que tange o assunto deste trabalho, a Lenda do Corpo Seco é uma representação simbólica da cosmovisão cristã, oriunda dos ritos de sepultamento malsucedidos durante a Idade Média, e foi trazida pelos portugueses e inserida no interior brasileiro por meio das bandeiras. Essa lenda tem por

objetivo orientar as ações humanas a partir da memorização de condutas. Possui um caráter ideológico pois é uma representação das ideias cristãs, do que se acredita ser verdade perante os ensinamentos de Jesus, porém, não é uma verdade universal.

Esse tipo de lenda é resultado da maneira como lidamos com a morte, pois somos os únicos animais que reconhecem a sua própria finitude. Esse fato associado ao medo do julgamento final levam os indivíduos a serem mais corretos em vida. Neste sentido, a Lenda do Corpo-Seco vem para reforçar essa concepção.

No que diz respeito à Serra do Corpo-Seco, esta pode ser considerada um espaço amedrontador por dois motivos. O primeiro é referente à Lenda do Corpo-Seco, que nos conta a história de um garoto maléfico que recebeu uma praga de sua mãe após fazê-la de cavalo. O corpo desse garoto, após sua morte, foi rejeitado tanto por Deus quanto pelo Diabo; e seu corpo, respeitado pelos vermes, foi enterrado na Serra do Corpo-Seco.

O segundo motivo para considerar a Serra do Corpo-Seco um espaço amedrontador é sua própria paisagem, que contém tanto os símbolos religiosos que nos fazem refletir sobre nossa função no mundo e sobre o que há de vir depois de nossa morte, quanto à imensidade, que nos traz a sensação de quão pequenos somos diante este planeta ou diante ao universo ou ao Criador. Tanto a religiosidade quanto a imensidade estão ligadas ao fato de sentirmos medo, principalmente da nossa morte. Assim, estes espaços possuem o poder de moldar as ações humanas, num processo que envolve tanto a psique humana quanto as relações sociais.

Este trabalho tomou rumos diferentes durante sua execução. Na medida em que fomos levantando alguns dados bibliográficos, novas possibilidades foram sendo descobertas. Nosso foco inicial era abordar a relação Mitologia e Geografia Cultural por meio das categorias de análise geográfica, como o espaço, território e lugar, bem como tinha o intuito de realizar entrevistas com moradores locais e com os literatas que escreveram suas obras referente à Lenda do Corpo-Seco. Porém, ao nos depararmos com a Geografia das Representações e com a Geografia da Percepção, esse trabalho foi ganhando outros vieses, valorizando a compreensão subjetiva do espaço e compreendendo como o espaço influencia essa mesma compreensão.

Entender a relação entre a Geografia e a Psicologia me possibilitou compreender os aspectos culturais como forma de dominação e segregação social, assim como favoreceu o entendimento de que somos tanto um ser biológico quanto culturalizados. Essa relação me abriu os olhos para o entendimento de diversos assuntos científicos, sobretudo no que tange os novos objetos de estudos que eram negligenciados até então: os conceitos abstratos como as ideias e a literatura.

Aliás, foi o fato de relacionar a Literatura com Geografia que me fez escolher esse tema. O fato do Luciano Teodoro Vilela, escritor do livro O Corpo-Seco (2017) fazer parte do meu circulo de amizades influenciou demais a escolha do tema deste trabalho.

Por fim, este trabalho é uma forma de valorizar a arte, a cultura popular, as crenças e o subjetivo. É uma forma de valorizar a Serra do Corpo-Seco, local por onde acampei diversas vezes e, subjetivamente falando, é um lugar na qual adoro. A Lenda do Corpo-Seco, como já não bastasse ser interessante demais para me comover, ainda faz parte do meu eu. A partir de agora, não sou o mesmo, o Corpo-Seco me influenciou e continuará a influenciar a todos que ouvem esta lenda.

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