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2.2. Data collection

2.3.1. Demographic information

No tópico anterior, observamos algumas idéias sobre o declínio das visões de subjetividades fixas, imutáveis, territorializadas, que evidenciam como fragmentado o sujeito antes considerado unificado. Segundo tais concepções, a subjetividade está na relação dos sujeitos com o mundo, com a ordem social.

Retomando as idéias trabalhadas no capítulo anterior acerca das mutações do sistema capitalista que objetivavam a acumulação de capital, concordamos com Miranda (2005); Fonseca (2002) e Giacomel et al. (2003) ao afirmar que tais transformações incidem sobre a vida dos sujeitos, capturando-os por meio de uma lógica de dominação.

Tendo isso em mente, Miranda (2005) afirma que a produção de subjetividade contemporânea ocorre em função de dispositivos capitalistas, enquanto formas de garantir o poder, assegurando, assim, a manutenção do pensamento

hegemônico controlado pelo capital. Isso significa dizer que os indivíduos se formam em relação a instrumentos de poder.

Logo, ao remontar o discurso de Deleuze (1991) sobre as sociedades de controle, a partir do século XX, o controle ultrapassa os muros das instituições, expandindo para espaços abertos e passando a localizarem-se onde os sujeitos se encontram, colocando-se, por exemplo, na mídia, na internet, ou seja, no mundo virtual (MIRANDA, 2005).

A suposta liberdade conquistada, ao sair dos espaços fechados de confinamento e disciplina (das fábricas para as empresas, no caso do trabalho) mostra-se talvez como uma ilusão, visto que os sujeitos acabam entrando em outra ótica de dominação, mais profunda, que não se resume ao controle de seus corpos, mas ao de suas vidas. O controle passa a ser internalizado, passa a ser o pano de fundo sobre o qual as subjetividades são construídas.

Trazendo essa questão para o ângulo que estamos priorizando nesta pesquisa, o das transformações no mundo do trabalho, conforme foi relatado no capítulo anterior, as mutações do capitalismo trouxeram desafios estruturantes na nova ordem do trabalho, que repercutiram nos trabalhadores.

Nesse sentido, ao considerar a noção de subjetividade como a maneira dos sujeitos perceberem o mundo, de articularem-se com a ordem social e com o processo de trabalho, Fonseca (2002) nos traz a pertinência de articular a (des)

reestruturação produtiva com a (des) reestruturação subjetiva.

Segundo a autora, com a mudança da lógica anterior do capital, que construía sujeitos previsíveis, estáveis e idênticos, voltados para a repetição e reprodução, contemporaneamente, os sujeitos devem dar conta de uma nova organização centrada na flexibilidade, na maleabilidade ou ainda na plasticidade dos fluxos produtivos. Eles são “compelidos a abandonar suas moradas subjetivas, sob a ameaça de serem excluídos e marginalizados do processo histórico” (FONSECA, 2002, p. 23). A flexibilidade, que caracteriza a precarização, acaba sendo um fator que interfere na construção dos trabalhadores.

Giacomel et al. (2003) traz uma discussão interessante, nesse aspecto, ao abordar as exigências do trabalhador contemporâneo em relação ao sucesso profissional. As autoras colocam que o mercado atual exige competências objetivas, mas que também estão no plano da subjetivação, visto que o trabalhador bem sucedido necessita principalmente de flexibilidade, alcançada por meio de desapegos, primeiro em relação ao próprio emprego com caráter de estabilidade, considerando a terceirização, os trabalhos autônomos, temporários. Em seguida, desapegos em outras esferas de sua vida, como família e moradia, em favor das exigências do

trabalho.

Esse perfil exigido aos trabalhadores define seus modos de trabalhar, mas define também seus modos de ser, pois essa plasticidade impregna a toda vida do trabalhador. O processo produtivo extrapola os limites físicos e invade as casas, as famílias e o tempo livre deste. Podemos falar de um trabalhador completamente disponível para o trabalho ou ainda uma vida à disposição da produção; o trabalho tornado vida (GIACOMEL et al., 2003).

É possível traçar um paralelo dessa discussão com os trabalhadores do tráfico de drogas. Supõe-se que esses trabalhadores também são submetidos a uma ótica de precarização, pois vivem em função do tráfico. É uma atividade que exige muita dedicação e, caso não seja possível alcançá-la, não se consegue uma margem de lucro. De acordo com alguns relatos constatados no livro Falcão – meninos do

tráfico, a maioria dos sujeitos que são inseridos no tráfico de drogas reclama dessa

indissociabilidade do trabalho com suas vidas pessoais, tendo que se dedicar dia e noite à venda de drogas. Isso será melhor abordado a seguir.

Podemos dizer, então, que os novos modos de controle social interferiram nos processos de reestruturação produtiva e de gestão de trabalho, implicando em novos modos de trabalhar que repercutiram em seus processos de produção de subjetividade.

Discorrendo ainda sobre subjetividade em relação à categoria trabalho, remetemo-nos aos pensamentos de Nardi, Tittoni e Bernardes (1997), que caracterizam essa relação como o modo que os indivíduos vivenciam e dão sentido às suas experiências laborais. Isso muda de acordo com o período histórico e com o contexto cultural em que os sujeitos se inserem, sendo possível afirmar que, no atual cenário capitalista com forte influência do pensamento neoliberal, ocorre a produção de uma nova subjetividade, marcada por uma sociedade pós-industrial e de consumo.

Nardi (2006) nos traz toda uma discussão, em conformidade com as leituras de autores atuais sobre a centralidade da categoria, acerca de como o trabalho exerce grande influência sobre os processos de produção de subjetividade dos sujeitos ou, ainda, sobre seus modos de subjetivação.

Assim, pensar a subjetividade nas suas conexões com o trabalho implica compreender os processos através dos quais as experiências do trabalho conformam modos de agir, pensar e sentir, amarrados em dados momentos – mais ou menos duráveis – que evocam a conexão entre diferentes elementos, valores, necessidades e projetos (NARDI, 2006, p. 22).

integração social, pode ser considerado ainda um suporte simbólico de condição das existências. Segundo o autor:

Mesmo de forma desigual, o trabalho foi, na sociedade moderna, o dispositivo central de integração social e, ao mesmo tempo, a forma de acesso à proteção social. A criação de um conjunto de regras morais que permitiram a valorização e a identificação com o trabalho foi fundamental como justificativa ideológica do capitalismo, assim como para os suportes simbólicos da existência (Op. Cit., p.40).

O autor nos traz ainda que cada contexto societário possui um código moral próprio (conjunto de padrões e normas que rege uma sociedade), o qual entra também na dimensão do trabalho, proporcionando uma subordinação (e uma identificação/apropriação também) que justifica a ótica de dominação do capitalismo, porém com um peso do valor simbólico que dá suporte para os modos de subjetivação.

Nossa reflexão nos dirige a configurar um pressuposto de que o trabalhador

marginal vivencia suas experiências em geral à margem de um processo de

identificação social e individual e de reconhecimento de cidadania, tendo suas construções simbólicas de existência afetadas por esse processo.

Nardi (2006) afirma que o trabalho é guiado por um conjunto de regras, que é legitimado pelo atual contexto sócio-histórico em que vivemos, ou seja, o código moral do trabalho adquire uma legitimidade de verdade embasada pela atual sociedade do capitalismo neoliberal, a qual é marcada por profundas desigualdades sociais que coloca sujeitos vivendo à sua margem.

Nesse ponto, é importante trazer as considerações de Foucault (1994) acerca dos jogos de verdade, seguindo a discussão do papel fundamental das práticas sociais na formação dos sujeitos e das próprias verdades. Ele afirma que cada realidade é dotada de um conjunto de verdades que rege as relações sociais, exercendo um papel de identificação que justifica a dominação do capitalismo.

De acordo com o autor, há vários lugares em que a verdade se forma, de onde se vê nascer formas de subjetividades e certos tipos de saber. Dentre esses saberes, as práticas jurídicas estão entre as mais importantes, sendo considerada uma das formas de verdade, a partir da qual, subjetividades foram definidas. Em relação às práticas jurídicas ou judiciárias, Foucault (2005, p. 11) coloca:

As práticas judiciárias – a maneira pela qual, entre os homens, se arbitram os danos e as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do Ocidente, se concebeu e se definiu a maneira como os

homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido, a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras, todas essas regras ou, se quiserem, todas essas práticas regulares, é claro, mas também modificadas sem cessar através da história – me parecem uma das formas pelas quais nossa sociedade definiu tipos de subjetividade, formas de saber e, por conseguinte, relações entre o homem e a verdade que merecem ser estudadas.

Logo, esses regimes de verdade comportam a compreensão do que é correto e incorreto, bom ou mal, criando uma moral a partir da qual o sujeito se constrói e se insere socialmente. Como se constrói então o trabalhador que vive à margem do modelo de sociedade salarial – que se torna cada vez menos hegemônica da sociedade?

Foucault (1994) traz ainda a idéia sobre a necessidade de desconstruir esses regimes de verdade através da percepção de que não são naturalizados e sim estabelecidos em dado contexto. No caso do trabalho marginal, esses trabalhadores podem, por exemplo, em certo momento histórico, deixarem de ser “marginais”.

No caso do presente trabalho, em que vamos falar de trabalhadores

marginais exercendo atividades de tráfico de drogas, podemos verificar que apesar de

se encontrarem em posições extremamente marginalizadas no âmbito societário, eles vivenciam seus exercícios laborais de maneira particular em relação à determinada parcela da sociedade. Em seus grupos minoritários, ou em suas comunidades, há uma representatividade e reconhecimento próprios no que diz respeito à sua ocupação, que poderá ser melhor analisado a partir das entrevistas.

Diante do que foi exposto, a formação dos sujeitos contemporâneos se estabelece em função das alterações do capital, que passou do nível da produção para o consumo. Logo, é a partir do mecanismo de controle do consumo que os modos de subjetivação se constituem, o que nos traz a necessidade de entender melhor como funciona sua lógica. E é também a partir de suas condições de marginalidade que os trabalhadores marginais do tráfico de drogas se constituem enquanto sujeitos no mundo. Tais observações serão melhor discutidas adiante.

Seguindo esse pensamento, ao falar do trabalhador do tráfico de drogas, enquanto uma nova forma de inserção laboral na contemporaneidade, mostra-se importante mencionar o papel que o consumo vem ocupando em suas realidades e na sociedade em geral.