Discutiremos mais à frente um conceito elementar nesta busca pela interconexão que é a biosfera365. Porém, quando dela tratarmos, veremos que se estará pressupondo certa unidade
357 São aqueles que, segundo Lévêque, “modificam o ambiente pela sua própria estrutura física” (LÉVÊQUE, Christian. Ecologia: Do Ecossistema à Biosfera. Lisboa: Instituto Piaget, 2001, p. 368).
358 Ibid., p. 368. 359 Ibid., p. 368. 360 Ibid., p. 369. 361 Ibid., p. 369. 362 Ibid., p. 369. 363 Ibid., p. 369. 364 Ibid., p. 369.
365 Trata-se da “parte do planeta capaz de sustentar a vida. Vai desde elevações de aproximadamente 10.000 metros acima do nível do mar até o fundo do oceano, e algumas centenas de metros abaixo da superfície da Terra” (ART, Henry W. Dicionário de Ecologia e Ciências Ambientais. 2ª ed. São Paulo: Editora UNESP, p. 60).
mais ampla de todas as partes vivas e não vivas da Terra. Daí ser relevante trazermos para a discussão a própria ideia de unidade. O que faz a biosfera como tal, uma unidade?
É primeiramente o fluxo das águas e dos gases – os ciclos biogeoquímicos que sabemos analisar em escala planetária. Mas também os fluxos de partículas, de moléculas, de seres vivos que isso implica. Enfim, o homem, por sua onipresença, pelo poderio de seus efeitos sobre o planeta (dispersão de espécies, emissão e propagação de poluentes, gás e produtos diversos), faz da Terra uma entidade que merece ser apreendida enquanto tal. Uma entidade viva cujos equilíbrios ele ameaça e dos quais ele depende366.
A vida no planeta está estruturada (e, em certa medida, viabilizada) em um complexo fluxo de energia367. A fonte primária de energia é o sol. Esta energia é captada, grosso modo,
pelas plantas clorofilianas, chamadas de produtores primários – conceitos já apresentados quando enfrentamos as cadeias alimentares. Esta energia será utilizada pelos animais chamados de consumidores primários e, posteriormente, pelos consumidores secundários368. “Do sol ao
consumidor de quarta ou quinta ordem, a energia se esgota assim de nível trófico em nível trófico, diminuindo a cada transferência de um elo ao outro. Falamos então de fluxo de energia, noção indissociável daquela de cadeia alimentar”369.
Os ecossistemas não existem enquanto entidades isoladas, fechadas a conexões com o mundo exterior. Os processos de transferência de elementos para fora de um ecossistema e para dentro dele são muito bem descritos pela Ecologia370. A entrada é também chamada de import,
geralmente se dá por meio da atmosfera – “transporte pelo vento ou pela chuva”371. A saída,
também chamada de export, geralmente se dá pelas “águas de drenagem e as perdas pela exploração humana”372
O fluxo de matéria entre ecossistemas é igualmente relevante como fator de interconexão. “Os nutrientes são transportados por grandes distâncias pelos ventos na atmosfera e pelo movimento das águas de cursos d'água e de correntes oceânicas. Nesses movimentos não há limites, nem naturais nem políticos”373. Neste contexto, destacam-se os grandes ciclos
biogeoquímicos:
Os elementos químicos, incluindo todos os elementos essenciais para a vida, tendem a circular na biosfera em caminhos característicos, que vão do ambiente para o
366 BARBAULT, Robert. Ecologia Geral: Estrutura e Funcionamento da Biosfera. Petrópolis: Vozes, 2011. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 57. 367 Ibid., p. 232. 368 Ibid., p. 233. 369 Ibid., p. 233. 370 Ibid., p. 250. 371 Ibid., p. 250. 372 Ibid., p. 251.
373 BEGON, Michael; TOWNSEND, Colin R.; HARPER, John L. Ecologia: De Indivíduos a Ecossistemas. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 541.
organismo e de volta para o ambiente. Esses caminhos mais ou menos circulares são conhecidos como ciclos biogeoquímicos374.
O ciclo hidrológico, de todos, é o mais conhecido e de mais fácil compreensão. A energia proveniente do Sol evapora a água presente na terra – em especial dos oceanos –, o vapor decorrente atinge a atmosfera e, por fim, a água é devolvida em forma de precipitação375.
Não importa o local de onde esta água é evaporada, pois os ventos a distribuem por todo o planeta376. Diga-se que a maior parte das águas provenientes da precipitação decorre dos
oceanos377, que possuem 97,3% da reserva de água da Terra378. Veja que este caminho das
águas não se limita ao processo evaporação-precipitação, pois há também o “fluxo líquido pelos canais dos cursos d’água ou pelos aquíferos subterrâneos”379, retornando aos oceanos. A
vegetação impacta sensivelmente neste processo. Em uma das formas, a partir do próprio sistema de transpiração (vapor), quando as plantas absorvem água presente no solo, que posteriormente é expelida, em parte, na forma de vapor pelas folhas. Na outra forma, a água é “depositada sobre o dossel como precipitação; a partir dele, ela pode evaporar ou gotejar pelas folhas ou descer pelos caules até o solo”380. Deste modo, a vegetação impede que parcela das
águas decorrentes da chuva alcance os cursos d’água (quando retém parte na folhagem ou com relação à parte que é utilizada no processo de transpiração das plantas)381. Disto, podemos
extrair as consequências do desflorestamento: aumento no fluxo de água para os cursos d’água, “juntamente com sua carga de matéria dissolvida e particulada”382 (em termos práticos, a perda
de grandes áreas de florestas, além de impactar no próprio regime de chuvas, pode ocasionar o aumento das inundações e o empobrecimento do solo).
Embora o ciclo da água seja o mais conhecido – ao menos do público leigo –, há outros grandes e importantes ciclos, que demonstram, na mesma proporção, a mais absoluta interconexão entre ecossistemas e a impossibilidade de se impor à natureza fronteiras e limites humanos. Junto com a água, o ciclo do carbono se destaca em nível global, pois a água e o carbono são essenciais para toda a vida. Além disto, ambos são “vulneráveis às perturbações
374 ODUM, Eugene P.; BARRET, Gary W. Fundamentos de Ecologia. São Paulo: Cengage Learning, 2011, p. 141.
375 BEGON, Michael; TOWNSEND, Colin R.; HARPER, John L. Ecologia: De Indivíduos a Ecossistemas. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 541.
376 Ibid., p. 541.
377 ODUM, Eugene P.; BARRET, Gary W. Op. cit., p. 157.
378 BEGON, Michael; TOWNSEND, Colin R.; HARPER, John L. Op. cit., p. 541. 379 Ibid., p. 541.
380 Ibid., p. 542. 381 Ibid., p. 542. 382 Ibid., p. 542.
produzidas pelo homem, podem modificar o tempo meteorológico e o clima, deforma a afetar muito a vida no planeta”383.
O ciclo do carbono está intimamente ligado à fotossíntese das plantas. As plantas utilizam o dióxido de carbono no processo de fotossíntese, obtendo como produto o oxigênio (em uma fórmula bem simplificada do processo). Ao respirarem, “as plantas, os animais e os microrganismos [...] liberam o carbono retido nos produtos fotossintéticos de volta aos compartimentos de carbono da atmosfera e da hidrosfera”384. Nisto não haveria problemas se
as reservas de carbono se mantivessem estáveis. Entretanto, a concentração do dióxido de carbono tem aumentado sensivelmente na atmosfera nos últimos anos, causando consequências danosas, como o efeito estufa. Basicamente, o dióxido de carbono possui várias formas normais de armazenamento na natureza – na própria atmosfera, dissolvido nos sistemas aquáticos, na biomassa viva ou morta, etc. Nas últimas décadas, a humanidade tem comprometido estes reservatórios, por exemplo, a partir da modificação no uso da terra, do desmatamento, do uso de combustíveis fósseis, etc. Por que isto importa para as características que buscamos extrair da natureza neste trabalho? Simplesmente porque as consequências do aumento do dióxido de carbono não são locais, são efetivamente globais – como exploraremos um pouco melhor à frente.
Há, por certo, outros tantos ciclos relevantes, como o nitrogênio, o enxofre, o fósforo – todos de caráter global e de grande importância para o desenho deste olhar holístico, interligado. Não vemos razão para avançar no detalhamento de cada um deles, pois o espaço não é próprio para descermos a minúcias como esta. Basta mencionarmos a sua existência e sabermos que a “rede funcional de base em um ecossistema é a que diz respeito aos fluxos de energia (as relações tróficas) e à reciclagem da matéria (os processos de remineralização)”385.