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Democratic consolidation: An elusive goal?

In document Working Paper 1 (sider 16-20)

2. Understanding democracy: A review of key debates

2.2 The ‘Third Wave’ of democratisation

2.2.3 Democratic consolidation: An elusive goal?

As fábulas eram narrativas, produtos de uma mente sumamente alimentada pelo sentido, com uma combustão fantasiosa e a inexistência de um raciocínio abstrato. É notório o tom sublime de uma poesia, carregada de fantasia, ausente de raciocínio, mas com a presença de uma lógica fantástica. Vico propõe o contexto em que o primeiro pensamento ocorreu nessa mente:

“(...) e devendo nós começar a refletir sobre isso desde que aqueles começaram a pensar humanamente; - e no seu imane orgulho e desregrada liberdade bestial, não existindo outro meio para domesticar aquele e refrear esta senão um pavoroso pensamento de uma qualquer divindade, cujo temor, com se disse nas Dignidades, é o único meio poderoso para sujeitar ao dever uma liberdade furiosa.”308

A um custo pessoal altíssimo:

“(...) para descobrir o mundo da gentilidade encontramos as ásperas dificuldades que nos custaram bem vinte anos de pesquisa, e [devemos] descer destas nossas naturezas humanas civilizadas àquelas completamente ferozes e imanes, as quais nos é completamente negado imaginar e apenas com grande custo nos é permitido compreender.”309

A sabedoria poética que Vico menciona é a função primordial da mente que se caracteriza, em essência, por dar significado às percepções e, portanto, ser indissociável das funções da fantasia, engenho e memoria.310 Esse modelo primordial da mente será responsável por gerar a primeira linguagem. A imaginação é um tipo de ordenamento, combinação e criação, que segue sua própria lógica num terreno débil de razão. Sua natureza reside nas bases da experiência sensorial e não na análise ou dedução.

307§339.

308 §338

309 Ibidem, n. 308. 310 Pp. 73-75.

Danesi (Danesi,1993, p.50) propõe um modelo da mente primitiva viquiana com duas camadas: a profunda e superficial. Na profunda está a origem da consciência. Nessa camada, as impressões dos sentidos são transformadas em imagens, para depois, pelo trabalho da imaginação, tornarem-se unidades icônicas. O engenho irá reorganizar essas unidades em modelos afetivos e perceptuais. As unidades icônicas registram a resposta fisiológica e afetiva para os sinais e estímulos do ambiente; os modelos dão forma e novo significado a essas respostas. Todas as espécies possuem as unidades icônicas (ou seus equivalentes), mas o que torna a espécie humana única é a capacidade de criar os modelos perceptuais. É nessa camada profunda que é possível conceber os “universais fantásticos”. Quando as diferentes unidades icônicas começam a conectar-se entre si, por meio da metáfora, uma forma de cognição se cristaliza na camada da superfície do cérebro. As peculiaridades desse universo mental metaforicamente fabricado serão a origem das diferenças entre as pessoas e as culturas. Ainda que evoluído da camada profunda311, esse universo será a forma dominante da mentalidade.312

Como a fantasia e engenho realizam em conjunto suas funções, eles geram a metáfora. Sua função primária é conectar unidades icônicas (A) e modelos (B), impondo-lhes uma equivalência (A é B). No momento em que a metáfora313 relaciona A e B, cria uma nova unidade de pensamento na qual não há conexão imediata com processos fisiológicos. A equivalência metafórica não ocorre entre sentido e mente como é o caso da imaginação ao transformar imagens derivadas dos sentidos em unidades construto-significantes, mas entre unidades já presentes na mente. No desenvolvimento da mentalidade, a metáfora criou o nível superficial de cognição produzindo os primeiros conceitos. Estes podem ser definidos como unidades de pensamento, que livres de contexto, são oriundos da conexão metafórica entre unidades icônicas. (A é B, C é D). A metáfora na mente primitiva foi a operação que deu unidade ao conhecimento sensorial pela busca e procura de conexões entre unidades icônicas e modelos. O processo de conceitualização não separa por completo mente do corpo. Os conceitos primordiais são originários das operações da camada mais profunda da mente, na qual os processos sensoriais corpóreos foram transformados em sinais icônicos (unidades icônicas e modelos perceptuais) como resultado das ações da imaginação e do engenho. Esses

311 Os “arquétipos”, na moderna teoria psicanalítica Jungiana, são unidades icônicas que foram armazenadas na

camada profunda da memoria como material genético. São modelos mentais que se formaram a configuração genética da memoria e uma forma de “inconsciente coletivo”. A busca por padrões universais de transformações de percepções nos níveis profundo da mente e como se revelam, por exemplo, na estrutura narrativa dos sonhos é altamente convergente com o modelo Viquiano da mente primitiva. DANESI, p. 53.

312 DANESI, 1993, pp. 51-52. 313 Ver pp. 85-87 acima.

processos são interconectados de uma maneira poética pela metáfora: a capacidade de conexão surge da interação entre imaginação e engenho. Mas, esses mesmos processos podem ser reativados a qualquer momento pelo fato de que ainda é uma experiência comum testemunhar que as palavras podem afetar fisiologicamente o ser humano. Podem gerar emoções (raiva, alegria, excitação), o que demonstra haver nexo entre mente-corpo incorporado nesses conceitos. 314

Na perspectiva de Vico, a lógica poética ou as constantes interações entre imaginação e engenho ocorrem no nível profundo da mente. Os poetas para Vico são os criadores315 e a metáfora é a essência da fábula.316

“Desta lógica poética são os corolários todos os primeiros tropos, dos quais a mais luminosa e, porque mais luminosa, mais necessária e mais frequente, é a metáfora, que é então tanto mais louvada quanto às coisas insensatas ela dá sentido e paixão: pois os primeiros poetas deram aos corpos o ser de substancias animadas, apenas capazes de tanto quanto eles podiam, isto é, de sentido e de paixão, e assim o fizeram as fábulas; de modo que cada metáfora assim feita vem a ser uma pequena fabulazinha.”317

Filogeneticamente, a capacidade da metáfora surgiu para converter as unidades perceptivas da camada profunda do cérebro em conceitos do nível superficial. Ela continuou a operar dentro da camada superficial, produzindo conceitos de segunda ordem, resultantes das conexões que a metáfora fez entre os conceitos primordiais, ou de primeira ordem. Se um conceito de primeira ordem possuí uma estrutura A é B e outro D é F, um conceito de segunda ordem seria [A é B] e [D é F]. Na evolução da mente, os conceitos de segunda ordem formaram as bases para uma arquitetura da abstração cognitiva, base para os inteligíveis universais. Uma nova forma de armazenamento teve que ser desenvolvida para os conceitos: o sistema de memória conceitual.318

314 DANESI, p.53. 315 Ver nota 244. 316 Ver p. 90 e §404-§405. 317 §404. 318 DANESI, 1993, pp. 54-55.

Os conceitos do nível superficial foram aos poucos se isolando de suas origens na camada profunda e, montando seu próprio sistema de memória, começaram a gerar estruturas abstratas próprias. Livres do estímulo sensorial, eles gradualmente tornaram-se o modo dominante da mente pensar. Independente dos processos sensoriais, esse sistema é capaz de organizar o mundo da realidade totalmente dentro de seu espaço mental e também pode organizar o mundo externo, classificando-o, dividindo-o e explicando-o. Essas projeções da mente produziram o sistema simbólico – instituições, teorias científicas, leis, etc.319

O funcionamento da mente neste modelo em que a própria realidade é concebida, interpretada e compreendida como produto da mente e, portanto, do homem, é uma demonstração do princípio verum-factum. Vico apresenta como característica da natureza humana conhecer as coisas pelos sentidos (§374): “... e a natureza humana, enquanto é comum com a dos animais traz consigo esta propriedade; que sejam os sentidos as únicas vias pelas quais ela conheça as coisas.” E no §363 “... neste livro se mostrará que, tudo quanto o primeiro tinham escutado os poetas acerca da sabedoria vulgar, outro tanto compreenderam depois os filósofos acerca da sabedoria secreta; de modo que se pode dizer terem sidos aqueles o senso e estes o intelecto do gênero humano.”

Os homens primitivos não tinham poder de raciocínio, mas uma forte imaginação e sentidos robustos: “às coisas admiradas, atribuíam o ser de substâncias da sua própria ideia” (§375) e “faziam-no em virtude de uma corpulentíssima fantasia” (§376). Para Vico o pensamento por imagens corresponde à forma de conhecimento dos primeiros homens e ele mesmo o utiliza ao apresentar o Frontispício. 320 Essa ordenação e coerência do caos poético é

319 Ibidem, n. 318.

320 Ver Primeiro Capítulo.

função da lógica poética, uma das funções da sabedoria poética ativada pela faculdade da imaginação.

Antes de iniciar a explicação da lógica poética é oportuno recapitular o que é sabedoria e a sabedoria poética na perspectiva viquiana. Vico define seu conceito de sabedoria no parágrafo 364 como “faculdade que comanda todas as disciplinas, pelas quais se aprendem todas as ciências e artes que cumprem a humanidade.” Para em seguida mencionar uma passagem321 de Platão: “Platão define a sabedoria como sendo ‘aperfeiçoadora do homem’ ”. A sabedoria deve servir ao homem nos dois aspectos que definem a sua humanidade: mente e ânimo ou intelecto e vontade. Primeiro a mente deve ser ‘iluminada com o conhecimento das coisas elevadíssimas (...) aquelas que se compreendem e se refletem de Deus’. Em seguida, o ânimo é ‘levado à eleição das coisas ótimas’, ou seja, à escolha das coisas “que dizem respeito ao bem de todo o gênero humano”.

A sabedoria poética ou dos antigos “foi aquela dos poetas teólogos, que, sem dúvida, foram os primeiros sábios do gentilismo” e como “as origens de todas as coisas devem por natureza ser grosseiras, devemos, por tudo isto, dar início à sabedoria poética a partir de uma sua metafísica grosseira” (§367). A sabedoria poética (que ocupa todo o Livro Segundo, e a maior parte da Ciência Nova) ramifica-se em metafisica poética (que se buscou explicar nos capítulos 2.2 e 2.3), lógica poética (a ser explicada), moral poética, economia poética, política poética, história poética, física poética, cosmografia poética, astronomia poética, cronologia poética e geografia poética.

Sobre o lógica poética Vico explica que “a poesia foi por nós considerada através de uma metafísica poética, pela qual os poetas teólogos imaginaram serem os corpos, na maioria dos casos, substâncias divinas (..) a mesma poesia é agora considerada como lógica poética, através da qual as significa [os corpos ou substâncias divinas]” (§400).

Os universais fantásticos são os agentes constitutivos tanto da metafisica como da lógica e como consequência a matéria usada na concepção das fábulas. Como anteriormente esclarecido, a unidade da lógica poética é o universal fantástico que ocupa a mesma posição central que os conceitos abstratos ocupam no pensamento racional. Segundo Vico322, lógica provém da palavra λόγος que primeiro significou fábula ou μΰθος do qual deriva, no latim, o

321

Alcibiade primo, 124b-130e. 322§401.

termo mutus – nos tempos mudos a fábula nasceu mental. Λόγος também significa palavra e a fala323, aquilo de que se comunica324, a conexão entre linguagem e pensamento.

Essa primeira língua do tempo mudo das nações deve ter começado com gestos, atos ou objetos que tivessem relações naturais com as ideias. Dessa maneira, entende-se que o primeiro falar, que foi o dos poetas teólogos, não foi uma falar segundo a natureza dessas coisas325, mas um falar fantástico por substâncias animadas, a maior parte imaginadas divinas. Primeiramente com indicações mudas, os homens explicaram, através de deuses, as substâncias divinas do céu, da terra e do mar bem como todas as coisas pertencentes a elas, personificadas em Júpiter, Cibele ou Berecíntia e Netuno “que eles imaginaram divindades animadas e, por isso com verdade dos sentidos acreditavam serem elas deuses: três divindades com as quais, por aquilo que acima dissemos sobre os caracteres poéticos (...).” (§402).

Assim, o mundo foi concebido à imagem do corpo humano, atribuindo a ele sensações e paixões humanas. Esse é um tipo de pensamento que é ao mesmo tempo um perceber (conceber): uma imagem de pensamento, uma consciência figurativa ou imaginativa que só se pode apreender hoje pela verdadeira analogia com o imaginário dos nossos poetas, e, de certa forma, com o nosso próprio sonho.326 Vico ilustra algumas vezes esse conceito, como no exemplo do pintor: “sempre que quisermos extrair do entendimento coisas espirituais, devemos ser socorridos pela fantasia para as podermos explicar e, tal como pintores, fingi-las imagens humanas” (§402). Esse pensar segue uma lógica poética que usa os primeiros tropos de linguagem ou os primeiros modos de expressão: metáfora, metonímia, sinédoque e ironia.327 Nas palavras de Ernst Cassirer:

“Vico colocou o problema da linguagem no contexto de uma metafisica universal do espírito. Partindo da ‘metafisica poética’, cuja tarefa consiste em revelar as origens da poesia, bem como a origem do pensamento mítico, e passando pelo elo intermediário da ‘lógica poética’ que deve ter como escopo a averiguação da gênese das metáforas e dos tropos poético, ele se adentra na questão da origem da linguagem (...)”328

323

Ibidem, n. 322. 324

Dicionário Grego-Português, pp.128 e185.

325§401 - Vico menciona que a Onomathesia, ou imposição dos nomes às coisas segundo sua propia natureza, foi concedida a Adão por Deus. Ver também Genesis, II, 19-20.

326 GOETSCH, James, p.31.

327 A ironia não é um tropo poético, mas um tropo da idade dos homens ou da era da razão. 328 CASSIRER, Ernst, pp. 129.

Vico descreve a metáfora como “a mais luminosa e, porque mais luminosa, mais necessária e mais frequente é a metáfora, que é então tanto mais louvada quanto as coisas insensatas, ela dá sentido e paixão, pela metafisica aqui refletida”.329 A metáfora ocupa a

posição central na elaboração dos universais fantásticos, sendo a unidade de conhecimento presente na lógica poética e o tecido das fábulas. Uma possível explicação é o fato de que na tradição retórica do Renascimento, sob a qual Vico escreve, nas noções metafóricas de gênio de transferência, de observação das semelhanças nas dissemelhanças, e da “transferência ” de significado, encontra-se a faculdade do ingenium. É graças a ela que se operou o primeiro processo gnosiológico humano, que por sua vez foi também exemplo de demonstração do princípio verum factum. As metáforas “faladas” pelos primeiros homens baseavam-se no princípio de identidade e não na semelhança. Júpiter não era como um céu trovejante, ele era o céu trovejante. É um processo lógico semelhante à lógica da mente de uma criança que ao ver um homem o entende como “papa”, mas ela não está usando a palavra “papa” para expressar a ideia genérica de homem, por que a criança não possui uma ideia genérica, mas apenas um significado: “papa”.330

Cada Metáfora vem a ser uma pequena fábula:

329 §404.

Pela lógica poética, derivada da metafísica poética, também se deve ter dado os nomes às coisas a partir das ideias mais particulares através da metonímia (§406) e da sinédoque (§407).331

De posse desses tropos criativos, “os primeiros autores da humanidade se ativeram a uma tópica sensível332 com a qual uniam as propriedades ou qualidades, ou relações, por assim dizer, concretas dos indivíduos ou das espécies, e com elas formavam seus gêneros poéticos.”333 Essa afirmação equivale à descrição de um processo gnosiológico que tem a

metáfora como seu elemento básico, ao mesmo tempo que ela é o principio organizador da lógica poética.334 Essa gnosiologia poética, baseada nos universais fantásticos — a metáfora e a imaginação — é chave mestra da Ciência Nova, porque não é um princípio necessário para uma forma de conhecimento mítico ou fantástico, mas sim um princípio necessário ao conhecimento. A metáfora é base do primeiro pensamento e a imaginação viabilizou tal feito.

A metáfora pode ser entendida com uma expressão vaga e confusa de uma primordial percepção de identidade, na qual, de forma subsequente, processos discriminatórios irão constituir-se numa consciência expressa pela analogia entre duas coisas diferentes. Reflexões posteriores irão transformar essa analogia em claras asserções de uma identidade ou elemento comum (ou relação) as duas coisas.335Excluindo a menção de “vaga e confusa”, tal definição se aproxima de uma das descrições de um dos universais de Vico ( §209): “... como os Egípcios que referiam ao gênero do ‘sábio civil’, por eles fantasiado em Mercúrio Trismegisto, todas as suas descobertas úteis ou necessárias ao gênero humano, que são particulares efeitos da sabedoria civil, porque não sabiam abstrair o gênero inteligível de ‘sábio civil’, e muito menos a forma de sabedoria civil em que foram sábios esses tais Egípcios.” Os egípcios identificaram de forma imagética suas invenções na figura de Hermes com base na sua incapacidade de formar o gênero “sábio civil” e de conceber uma “sabedoria civil”.

331 Metonímia: a) Autores pelas obras – autores eram mais nomeados que as obras (ex. comprou um Renoir.); b)

Assuntos pelas suas formas – não sabiam abstrair as formas e as qualidades dos assuntos c) Causas pelos efeitos – Ex. Respeite meus cabelos brancos e Sinédoque: tipo de metonímia, a parte pelo todo: bebeu uma garrafa d’agua.

332 Uma arte de inventar que se explica exclusivamente mediante a imaginação, memória e engenho, sem

qualquer interferência do intelecto racional.

333 §495.

334 BATTISTINI, n. 3, p.585, destaca o artigo “A lógica poética de Vico” de I. BETTARELLO, no Anais do I

Congresso Brasileiro de Filosofia, Revista dos Tribunais, 1950, pp. 271-286.

A descoberta de Vico, os imaginários universais, é um principio de identidade ligado ao conceito de metáfora e fundamental ao elemento gnosiológico.336 A concepção de conhecimento de Vico surge de uma questão diferente das teorias do conhecimento modernas, que começam com algo já presente na mente.

Descartes em sua sexta meditação queria provar a existência de coisas materiais, a fim de provar que a mente realmente poderia assimilar objetos corpóreos ao seu redor. Tal prova, se fosse bem sucedida, poderia fornecer um sinal de que existem coisas ao redor da mente, mas não explicaria como conhecemos as coisas de um modo particular. A questão para Vico não é como atuam as funções da mente em relação a um objeto para produzir conhecimento, ou ainda, se há algum objeto ou um mundo externo. A questão de Vico é como a mente assimila algo antes dessas funções, antes do dado ou do objeto. Ao questionar quais princípios atuariam na mente antes da função cognitiva de assimilação de um dado, Vico consegue dimensionar um tipo de conhecimento que se principia diretamente com a imagem. A imagem, em abordagem não-viquiana do conhecimento, possui uma função de preparar o dado sensorial para a formação do conceito. Nesse contexto, os mitos e as artes dos primeiros homens foram concebidos como uma realidade própria derivada da percepção e não pertencentes à categoria de conceitos. 337

O poder da mente para reconhecer algo está associado a sua capacidade de emergir do imediatismo ou urgência. Imediatismo é um estado mental de pura particularidade: todo momento é novo, e não há lugar, não há topos para o pensamento. Dai provém a afirmação de Vico (§700) “(...) mal se pode entender e, de facto, não se pode imaginar como pensariam os primeiros homens que fundaram a humanidade gentílica, pois eram mentes tão singulares e precisas, que cada nova aparência da cara consideravam como uma outra nova.” Era uma mente “pouco menos que de animais, às quais cada nova sensação apaga (...)”(§703). A mente no estado de imediatismo constante é algo difícil de ser compreendido pela mente que possui o pensamento conceitual.

A imaginação com sua capacidade de formar imagens da experiência é comumente compreendida, nos tempos modernos, como um critério constante para os conceitos abstratos. Mas a mente dos primeiros homens alcançou a estabilidade do significado dentro do imediato

336 Ibidem, n. 335.

fluxo de sensações que se cancelavam, de forma sequencial, pelo poder da fantasia.338 Pela imaginação o particular é formado como universal.339

O tempo é o movimento do fluxo que ocorre a cada sensação nova, que sempre cancela a anterior. O significado ocorre quando uma sensação se torna particular e não é cancelada pela presença da próxima sensação. A mente pode assimilar algo pelo poder de produzir uma identidade, assim uma sensação é apreendida como sendo a de outras sensações no movimento do fluxo. A sensação apreendida passa a ser um ponto de referência para o fluxo de sensações, que agora possuem sua existência nele. Por esse ponto fixo de sensação particular, o significado do fluxo pode ser repetitivamente compreendido.340 Verene (Verene, 1984, p.83) sugere o termo de Cassirer “Wiederfinden”, achar novamente, como semelhante a esse processo de significado pelo fluxo repetitivo, ainda Cassirer usa o termo para modelos cognitivos do pensamento.341 Esse “achar de novo” uma sensação fixa no significado de todo o fluxo é feito através da fantasia, que irá exigir uma imagem ou metáfora. Pode-se inferir que para Vico, essa interrupção ocorre pelo gesto, um sinal mudo. A identidade do fluxo, para

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