Uma das questões éticas da atualidade que conduz ao debate é a questão do tempo, ou a dimensão temporal da existência. Conforme Lévinas (1997), a estrutura do tempo não é definida no presente e nem na retomada de si, e o si é uma condição do sujeito, resultado do movimento rememorativo elaborado intencionalmente pela consciência. Não como retomada de si, mas sim como reflexão e crítica sobre si à dimensão do tempo, a partir da exposição a outrem.
Desejar ser outro, mas Outro invisível ou absolutamente outro, o Outro que não está na consciência do Si Mesmo, mas na sua total exterioridade, aliás, o eu metafísico também está absolutamente em separado do Si Mesmo, pois está além do que se pode atingir constituindo-se de um ideal que baliza a busca, a utopia, o Rosto que representa o desejo daquilo que significa o devir, o vir a ser. A liberdade apresenta-se, pois, como condição da invenção de si, liberdade de experiências para tomar a si mesmo pelo poder sobre si e inventar seus destinos, de agir a favor de si e de seus projetos. Uma prática de liberdade com características positivas de promoção do sujeito, no sentido de que pelo poder de si e sobre si, poderá fazer aflorar suas ações, vontades, desejos e desejos de saber, por exemplo. Trata-se de um poder que possibilita a liberdade do sujeito sobre si. Segundo Deleuze (1992) trata-se de um poder que possibilita a invenção de modos de existência a partir de uma relação consigo, havendo necessidade da conquista de liberdade, a liberdade já está presente no desejo, no pensamento e nos modos de vida.
A arte de cuidar de si consiste em exercício filosófico ético e moral de si mesmo orientado para a estilização da existência, que significa mais do que determinar regras de conduta, significa transformação e singularidade, fazendo de sua vida uma obra de arte.
Segundo Josso (2004) importa tomar consciência de que reconhecer-se como um sujeito capaz de agir segundo as circunstâncias da vida, permite que o indivíduo conceba os acontecimentos de sua trajetória de vida como possibilidade social e cultural, para que seja
possível transformar a vida, construindo-a com lucidez, enquanto experiência ético-moral intransferível. Os caminhos constroem-se no existir, pois não existe uma essência única e absoluta, existem seres se fazendo no caminho pelas experiências e pelas escolhas singulares e intransferíveis, na singularidade da existência e na pluralidade das relações pessoais e contextuais.
Uma dessas escolhas poderá ser a de fazer da própria vida profissional uma arte de viver ou de viver com arte, transformando-se e permitindo-se alguns descaminhos para inventar-se e inventar novas formas de profissionalização. Escolher ser professor profissional implica fazer escolhas corajosas e inventar novas formas de profissionalizar-se, a partir das relações que ocorrem no contexto social de trabalho. O professor poderá fazer de sua vida profissional uma obra de arte originalmente singular, conferindo um estilo ao processo de desenvolvimento da profissionalização. Neste pensamento, as reflexões proporcionadas pela narrativa, como uma técnica de trabalho sobre si, uma atitude de voltar-se para si mesmo representam possibilidade individual e singular de invenção de si e estilização da vida pessoal e profissional. “Caminhar para si apresenta-se assim como um projeto a ser construído no decorrer de uma vida” (JOSSO, 2004, p. 59). O processo requer conhecimento do que somos e do que fazemos e do que gostaríamos de ser, enquanto sujeito que se relaciona consigo e como o mundo.
Desta forma, faço uma relação dos saberes que os professores adquirem no exercício da profissão e dos mecanismos que constroem para desenvolver sua profissionalização, como exercícios de liberdade e possibilidades de exercícios de reflexão sobre si mesmo, ao questionar seus pensamentos e concepções, extraviando-se de seus conceitos estabelecidos e relativizando os saberes, como sugere Morin (2007) e como propunha Freire (1983) na concepção de um ser humano sempre inacabado. O indivíduo constitui-se em sujeito.
Ademais, na possibilidade do olhar do Eu para o Outro (LÉVINAS, 2008) e a partir de saberes não acabados, mas questionados, para viver uma existência com estética e beleza singular, como escreve Josso ( 2010), num exercício de reflexividade, ressignifica vivências e informações e as confere sentido, incorporando-as como saberes. As experiências, quando ressignificadas, constituem o sujeito, que se elabora a partir de novas construções , realizando a sua mais importante obra: a sua vida sem igual gerada em liberdade.
60 Portanto, proceder à escuta dos saberes, das verdades e das experiências singulares dos professores pode constituir-se em postura ética apropriada no mundo da atualidade em que vivemos, no propósito de preservar a liberdade que provém das relações de poder, em que o poder é exercido sobre o outro, mas também o é limitado por ele. Há uma relação de reciprocidade na subjetivação e de conquista da liberdade sobre si. Liberdade, inclusive, proporcionada pela narrativa. Por meio da narrativa, o indivíduo inscreve suas vivências no tempo e expressa seus pensamentos, conferindo sentido às suas experiências que estão na memória, transcendendo o tempo. Os acontecimentos estão inscritos no tempo, mas transcendem a ele, quando ficam registrados e transformam-se em experiências constitutivas do sujeito.
Neste sentido, Paul Ricoeur em sua obra “A memória, a história, o esquecimento” (2007), discute a memória e o esquecimento como intermediários entre o tempo e a narrativa. A memória, externada pela narrativa, poderá conduzir o indivíduo ao seu eu escondido e permitir a revisão do que foi vivido, então visto sob outra perspectiva, de outra forma e com outro significado. Este novo olhar sobre a trajetória representa, não apenas uma nova forma de olhar a memória pessoal e coletiva, mas também uma possibilidade de desenvolvimento da profissionalização a partir da retrospectiva do vivido, que sendo externado e refletido pela narrativa de si, é inscrito no tempo passado, mas ressignificadas no agora e validadas como experiências constitutivas da construção da história de vida.
2.6- SUBJETIVAÇÃO, PROFISSIONALIZAÇÃO E IDENTIDADE: