Depois que Pedro Orósio corre pelo meio da igreja, onde Nomindome vocifera suas profecias sobre o fim do mundo, para interceptá-lo e assim proteger os frades — frei Sinfrão e frei Florduardo, que há pouco chegaram enérgicos —, esbarra-se com o Coletor, o sexto recadeiro:
E nisso Pedro Orósio, correndo pelo meio da igreja, a fito de ajudar a defender os frades, caso o Nominedômine reagisse contra eles, deu uma esbarrada no Coletor. O qual Coletor era outro que não regulava bem. Estava com sua pilha de papéis e jornais, e com as algibeiras cheias de tocos de lápis, com eles constantemente fazia contas de números nas beiradas brancas dos jornais. E o
Coletor era um que gostava de frequentar sempre perto ou dentro de igreja, e se ajoelhara rente na primeira fileira, junto com as mulheres mais beatas, ao pé do gradil da banca de comunhão. E com o esbarrão do Pedro Orósio ele se despertou e alevantou a prumo a cabeça. (GUIMARÃES ROSA, 2006, p. 442).
É assim que o personagem é introduzido na narrativa, a qual logo volta seu foco para a figura do beato apocalíptico, que grita sua versão do recado dentro da igreja e, logo em seguida, sai de cena com a benção do frei Florduardo. O narrador dedica-se, por conseguinte, a descrever o sábado que se iniciou com o prenúncio de fim dos tempos e os preparativos para a festa do Congado, do dia seguinte.
O Coletor também não regulava bem; fazia contas o tempo todo, de modo que andava sempre em posse de papéis, jornais e tocos de lápis nas algibeiras. Passava o tempo calculando uma riqueza inexistente, com números tão extensos que pessoa nenhuma era capaz de entendê-los, pelo que o narrador afirma constantemente sua loucura. Esse ato constante de rabiscar leva Araujo (1992, p. 95) a sugerir a comparação entre o Coletor e seu Alquist, que, em sua leitura, são alter ego de Guimarães Rosa e congregam aspectos relevantes da biografia do escritor: “Ao mesmo tempo, Olquiste/Coletor é ainda Guimarães Rosa, observando e anotando suas viagens pelo interior de Minas Gerais e Goiás, o mesmo acontecendo com os outros pares racional/irracional.”. Wisnik (1998) também compartilha dessa ideia, pois registra que, em suas viagens pelo sertão, o autor mineiro levava consigo cadernetas para fazer anotações que depois se transformariam em material para a elaboração de sua ficção.
Para além, contudo, dos aspectos biográficos que poderia enumerar aqui para conferência em sua obra, e tomando a palavra poética como material de fundação, no liame que pode haver entre seu Alquist e o Coletor e, por conseguinte, na relação entre o racional e o irracional que os dois personagens sugerem, mais de que a biografia de um indivíduo, emerge, de todos os elementos de significação — os óculos de seu Alquist, as cadernetas, as pilhas de papéis e jornais, o ato de anotação constante etc. —, a figura de um escritor. Lopes (2012, p. 48), sobre a narrativa de um poema do livro A poeira levada pelo vento (1993), de Joaquim Manuel Magalhães, escreve:
O que se “narra” do acontecimento não é nada que tenha acontecido em definitivo num passado, algo encerrado no passado, mas a potência de acontecer própria do acontecimento — aquilo que nele se actualiza e nele permanece inactual depende da faculdade de dar sentido às sensações, isto é, de construir o recordável delas.
Quero dizer que a memória ficcionalizada de uma vida dedicada à escrita conjuga a narrativa em um tempo presente que, a um só momento, congrega passado e presente, do que
surge a figura de um indivíduo que é mesmo anterior a Guimarães Rosa: o escritor em processo de elaboração e reelaboração constante a partir da observação e formação de uma memória, que é a própria escritura. A maneira como Lopes (2012) aborda a memória em análise do texto literário, e da qual aqui me valho para minha leitura da obra, não estabelece limites entre a memória e a imaginação. Creio que isso acontece porque a palavra é tomada aqui em todo seu potencial de criação, sem as intenções relacionais que Barthes (2004) atribuiu à linguagem classicista. Todavia, se, para o crítico, a palavra poética só conserva das relações o movimento e a música, mas não a verdade, para Lopes (2012), a escritura é a própria verdade, incontestável e não demonstrável.
A palavra na escritura de Guimarães Rosa funciona como elemento de criação, inaugura significados, cria uma verdade extremamente relativa, de leitor a leitor. Na novela, o Coletor é bastante representativo desse aspecto, uma vez que não é possível verificar na biografia do personagem a razão do nome pelo qual atende:
Se disse que esse Coletor era gira. Bem dizer, nem nunca tinha sido coletor, nem aquele era nome válido. Transtornos e desordens da vida, a peso disso ensandecera. Agora, achacado e velho, inda bom que a doideira dele era uma só: imaginava de ser rico, milionário de riquíssimo, e o tempo todo passava revendo a contagem de suas posses. Escrevia em papel, riscava no chão, entalhava em casca de árvore, em qualquer parte. Mas onde tinha mais gosto de cifrar aquelas quantias era nas paredes, porque assim todo o mundo podia invejar a imensa fortuna. De qualidade que, por azo, preferia a Matriz, por ter as maiores paredes brancas no arraial. Ia alinhando números tão desacabados de compridos, que pessôa nenhuma não era capaz de tabuar: seus ouros, suas casas, suas terras, suas boiadas no invernar, sua cavalaria de ótimas eguadas, seus contos-de-réis em numerário, cada lançamento daqueles era feito uma correição de formiguinhas pretas enfileiradas. Aquele homem tinha uma felicidade enorme. (GUIMARÃES ROSA, 2006, p. 446).
O narrador dá seu juízo: o personagem não é coletor e por isso aquele nome é sem validade. Mas outra identidade ele não tem, atende unicamente pelo epíteto de sua verdade inventada, à semelhança de Joãozezim, que também não tem outro nome. Ambos não contam com a mesma pluralidade onomástica dos outros recadeiros. No caso do Coletor, muito provavelmente porque, consoante afirma o narrador, sua loucura era uma só — imaginar ser rico, de modo que dedicava todo o seu tempo a contar e recontar suas posses. Realidade inventada, mas tão verdadeira que sua felicidade era enorme.
Essa não correspondência entre linguagem e referente no mundo empírico faz do Coletor um elemento de desordem dentro da narrativa. Ele é ao mesmo tempo símbolo desse descompasso linguístico e causador do transtorno em que culmina a novela — o penúltimo até que o recado seja vertido em canção, o último a prenunciar o caos em sua forma heteróclita.