5 Metode og design
5.6 Etiske hensyn
5.6.7 Deltakende observatør i eget og fremmed felt
“Chamo de sujeito o desejo de ser um indivíduo, de criar uma história pessoal, de atribuir significado a todo o conjunto de experiências da vida individual.”80
Durante muito tempo, a história foi a dos homens, vistos estes como representantes da humanidade. No entanto o século XX traz uma mulher que tomou a palavra, cada vez mais mulher, desafiando as regras sociais e políticas, quebrando estereótipos e se propondo a uma realização pessoal com controle de sua identidade. A questão erótica, como vimos, é o núcleo dessa constituição do ser feminino, porém a questão da identidade é ainda mais vasta.
Na leitura de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir81, pode-se analisar o caminho da evolução e transformação da mulher. A formação da identidade feminina, que desde a Revolução Industrial se vinha tentando construir, só adquiriu forças depois da Segunda Guerra Mundial. O movimento feminista apresenta uma mulher que saiu da obscuridade a que o homem a condenou e conseguiu se autoconscientizar do seu papel social, abrindo espaço não só para a liberdade feminina, mas também para a formação do eu-feminino, que passa a ter vontades próprias, desejos, ideologias e um espaço para lutar por aquilo de que necessitava, sem depender dos desmandos masculinos. A mulher precisava de mais: havia nela um sentimento vazio, era algo que estava faltando, que só veio a ser preenchido quando começou a existir uma maior igualdade entre os sexos, ou
80Castells,2002:26 81Beauvoir,2000:133-144
seja, quando ela passou a ter oportunidade de escolher qual o caminho a seguir, o que seria melhor para sua vida. Os movimentos feministas auxiliaram na formação de uma identidade feminina, fortalecendo aquele que, por séculos, foi considerado o sexo frágil, podendo a qualquer momento encarar uma batalha, contra os homens, pelos seus direitos.
Sob o reflexo dessas transformações, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escreveram Novas Cartas Portuguesas e deixaram transparecer a inquietação, a sensibilidade e a emotividade de mulheres que, cheias de fibra, independentes e decididas, buscaram uma identidade feminina que esteve guardada durante séculos. O diálogo que as autoras mantêm com as cartas atribuídas à freira Mariana Alcoforado também vislumbra uma mulher ousada para o século XVII e que, mesmo circunscrita a um convento, transgrediu normas e regras da instituição em favor de uma liberdade tão desejada por ela.
Na leitura da Segunda Carta IV82, pode-se observar que as autoras tiveram a preocupação de direcionar seus textos para essas modificações na vida das mulheres:
“E ingrata será a mulher que se nega a querer a quem queira, determinada que está desde nascença, a ter sua vida à espera sem pelo menos conquistar direitos de vontade e raivas bem seguras, argumentadas logo com armas; de ingratas, pois, seremos acusadas; estranhas, percebendo, logo desencadeando bravas guerras por literárias tidas (...) Se tome Mariana que em clausura se escrevia, adquirindo assim a sua medida liberdade e realização através da escrita; mulher que escreve ostentando-se de fêmea enquanto freira, desautorizando a
lei, a ordem, os usos, o hábito que vestia.”
Reportando-se à leitura de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir83, percebe- se que a autora procura sempre caracterizar as diferenças entre o sexo feminino e o masculino. Seus estudos mostram que a submissão da mulher data da Pré-História e a superioridade do homem era incontestável: ele ia para a guerra e à mulher cabia cuidar do lar e dos filhos. Com a descoberta da agricultura, a mulher passa a ter maior importância porque traz à luz do mundo filhos e, por causa deles, a elas são confiados os trabalhos agrícolas, exatamente por se acreditar que havia uma inter-relação entre o nascimento dos filhos e a fertilidade do solo. Porém continuava nas mãos dos homens o poder de decisão sobre todas as coisas, inclusive sobre a vida da mulher.
Segundo Beauvoir84, na Grécia e na República Romana, a situação da mulher não foi diferente. A mulher grega ocupava a mesma posição dos escravos. A mulher romana vivia sob o poder dos "paterfamilias" e, quando se casava, esse poder era transferido ao marido, o que fazia dela um ser submisso e alienado, pois sua função era apenas a de perpetuar a família. Se o contrato de casamento não acontecesse, ela seria eternamente uma escrava do pai ou até mesmo do irmão mais velho.
Simone de Beauvoir, ainda na leitura dessa obra, menciona que o cristianismo pouco ajudou na questão da mulher. Durante a Idade Média, com o intuito de mantê-la sob tutela, a mulher era qualificada como um animal que não era firme nem estável e, por essa razão, deveria ser subordinada ao marido ou ao pai. Esse período foi, também, de grande perseguição às mulheres: o Santo Ofício ordenou uma caça às bruxas e assim a Igreja causou um verdadeiro genocídio.
83Beauvoir,2000:73-74 84Beauvoir,2000:108-113
Michelle Perrot85, discute que a mulher era protegida por lei, mas apenas como
propriedade do homem e mãe de seus filhos. Ela não tinha direitos como pessoa. Durante o feudalismo, a mulher não podia requisitar um feudo, porque não tinha condições de defendê-lo e, se o recebesse como herança, era obrigada a ter um homem como tutor para protegê-la. Somente a partir do século XX é que a mulher se emancipou e passou a construir o que se chama de "sujeito-mulher".
Simone de Beauvoir86, estende seus estudos esclarecendo que, já no século XVII, as mulheres distinguiam-se no terreno intelectual, participando das grandes festas e dos saraus europeus. Desse convívio ela deduz a expansão da cultura entre as mulheres:
“A vida desenvolve-se e a cultura expande-se; o papel desempenhado pelas mulheres nos salões é considerável; em não estando empenhadas na construção do mundo têm lazeres para se dedicar à conversação, às artes, às letras; sua instrução não é organizada, mas através de reuniões, de leituras, do ensino de professores particulares, chegam a adquirir conhecimentos superiores aos de seus maridos: Mme de Fayette, Mme de Sevigné gozam de grande reputação: e fora da França, igual renome liga-se aos nomes de Princesa Elisabeth, da Rainha Cristina, de Mlle de Schurman, que trocava correspondência com todo o mundo culto. Graças a essa cultura e ao prestígio que lhes confere, as mulheres conseguem imiscuir-se no universo masculino; da literatura, da casuística amorosa, muitas, ambiciosas, passam às intrigas políticas.”
85Perrot,1991:119-128 86Beauvoir,2000:134
No século XVIII, ainda segundo Simone de Beauvoir87:
“A liberdade e a independência da mulher aumentam ainda. Os costumes em princípio permanecem severos: a jovem recebe apenas uma educação sumária; é casada ou encerrada num convento sem que a consultem. A burguesia, classe em ascensão e cuja existência se consolida, impõe à esposa uma moral rigorosa. Em compensação, a decomposição da nobreza outorga às mulheres as maiores licenças e a alta burguesia, ela própria, é contaminada por tais exemplos; nem os conventos nem o lar conjugal conseguem conter a mulher. Digamos, mais uma vez, que para a maioria delas essa liberdade permanece negativa e abstrata: elas se restringem a procurar o prazer.”
Mas, mesmo no século XIX, as mulheres não gozavam de uma independência material que lhes daria as condições necessárias para a sua liberdade interior. Durante o Renascimento, as mulheres nobres e as de certa cultura deflagram um movimento em favor de seu sexo e buscam nas doutrinas platônicas importadas da Itália a espiritualização do amor e da mulher, o que muitos homens letrados passam a defender. Cornélio Agripa, em sua célebre obra Declamação da Nobreza e Excelência do Sexo
Feminino, citada no livro de Beauvoir88, esforça-se por mostrar a superioridade
feminina.
“Retorna aos velhos argumentos cabalísticos. Eva quer dizer Vida; Adão, Terra. Criada depois do homem, a mulher é bem mais acabada. 87Beauvoir,2000:134
Eva nasceu no paraíso, ele fora. Quando ela cai na água flutua, o homem afunda. É feita de uma costela de Adão e não de terra. Seus mênstruos curam todas as doenças. Eva, ignorante, apenas errou. Adão foi quem pecou; por isso, Deus fez-se homem; e, depois da ressurreição, foi a mulheres que apareceu. Agripa declara, em seguida, que as mulheres são mais virtuosas do que os homens. Enumera as "límpidas mulheres" de que o sexo pode orgulhar-se, o que constitui também um lugar comum dessas apologias. Finalmente, faz um requisitório contra a tirania masculina: agindo contra quaisquer direitos, violentando impunemente a igualdade natural, a tirania do homem privou a mulher da liberdade que recebeu ao nascer.”
Na seqüência dos estudos da obra de Simone de Beauvoir89, a autora menciona
que, apesar de o estatuto da mulher ter permanecido o mesmo do século XV até o século XX, pequenas mudanças aconteceram, principalmente nas classes mais privilegiadas. Ao longo do tempo, houve inúmeras correntes filosóficas e religiosas que defenderam a dignidade e os direitos das mulheres, mas foi a Revolução Francesa, em 1789, que, além de ter posto em xeque o sistema político e social vigente até então na França e no resto do mundo ocidental, também encorajou as mulheres a denunciarem a opressão em que eram mantidas e que se manifestava em todas as esferas de sua existência (política, social, jurídica e econômica).
Gisela Bock90, discute que as mulheres francesas, desde o início da revolução, participaram da vida política, criando clubes ativistas femininos. Chegaram, em 1792, a exigir perante a Assembléia que elas tivessem acesso ao serviço público e as forças
89Beauvoir,2000:21
armadas no que foram reprimidas pelo terror, que proibia que a mulher se associasse a clubes e a idéia de igualdade entre os dois sexos, mais uma vez arquivada. Apesar dessa repressão toda, a mulher do povo, trabalhadora, saiu de casa, freqüentou tabernas, dispôs do seu corpo como um homem, deixou a obscuridade a que foi relegada e passou a enfrentar do mesmo patamar aquele que a reprimia no plano econômico e sexual.
Na leitura de O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir91 esclarece que, na França,
em 1848, uma proliferação de clubes femininos surge para reivindicar não só o direito ao voto mas também a equiparação salarial. Com a industrialização, as mulheres passam a abandonar seus lares e iniciam o trabalho como assalariadas nas indústrias e oficinas. Entram em contato com a dura realidade do mercado de trabalho: os operários da época eram mal remunerados e elas recebiam menos que eles. Os proprietários viram nessa situação a vantagem de empregar a mulher em vez do homem, que se revolta e faz movimentos contra o trabalho feminino.
Com a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a mulher foi obrigada a deixar de lado a condição de esposa e mãe para integrar o mercado de trabalho. Além disso, a consolidação do capitalismo trouxe também o surgimento de lutas e organizações pelos direitos das mulheres. Michelle Perrot e Simone de Beauvoir esclarecem que, no século XX, a partir da década de 20, as mulheres começaram a conquistar o direito ao voto em diversos países. Nesse século, inclusive, conseguiram suas maiores conquistas: maternidade quando desejada e isenta de riscos, contracepção, melhores oportunidades profissionais, significando nítida melhora e esperança de vida. Nesse painel histórico, o feminismo ressurgiu buscando não apenas o direito civil da mulher como também a exposição para todos de sua condição de oprimida diante do homem e da cultura masculina, revelando os mecanismos psicológicos e psicossociais dessa marginalização
e projetando estratégias capazes de proporcionar a ela uma total liberação, incluindo a do corpo e a do desejo. Além disso, surgiram novas reivindicações, próprias do feminismo moderno, como o aborto, o controle da natalidade, a radical igualdade salarial e a ascensão a cargos de responsabilidade. Esse movimento feminista foi fortalecido por diversas escritoras, dentre elas, a já citada Simone de Beauvoir, além de Betty Friedan e Germarm Geer.
Não restam dúvidas de que o feminismo é um movimento social que veio transformar e desafiar o patriarcalismo, o poder do homem sobre a mulher durante tantas décadas. Ao mesmo tempo, mostrou-se a diversidade feminina num movimento que teve o compromisso de pôr fim à dominação masculina e redefinir o papel da mulher, seja exibindo a igualdade com o sexo masculino ou a diferença dos dois mundos: o machista e o feminista.
Durante séculos, as mulheres vinham se conscientizando de que precisavam se preparar para uma nova vida e para um novo mundo. Depois da industrialização, os costumes e a sociedade mudaram e elas tiveram a certeza de que deveria existir igualdade entre os sexos. Desde a formação dessa sociedade machista houve um sentimento de insatisfação na mulher, um desejo de que tudo fosse diferente daquela educação restritiva, baseada em falsos conceitos morais, que deixara no sexo feminino um grande peso de inibição e receio.
O feminismo pregava muito mais do que um simples movimento das mulheres e seus simpatizantes, apregoava a atitude feminina, o fim de falsos ideais e a ilusão da felicidade. Para as feministas, as mulheres deveriam seguir seus desejos mais autênticos, sem preconceitos, deixando de lado tudo aquilo que era determinado pela sociedade machista.
Outra autora que discute o percurso da mulher é Betty Friedan92, que denuncia o
"mal sem nome" do qual as mulheres vêm sofrendo por séculos. É uma insatisfação generalizada, uma imensa crise de identidade, porque nunca tiveram a oportunidade de escolher. Nasciam com uma existência traçada, o casamento, o lar, a maternidade e a domesticidade. Se não seguissem esse caminho, eram consideradas anormais, estranhas e neuróticas. Com essa obra, Friedan revolucionou o mundo das mulheres e conscientizou-as da revolta que estava reprimida há muito tempo, incrementando assim o movimento feminista.
A crise da identidade feminina vem da privação do exercício das potencialidades humanas das mulheres, por terem renunciado aos seus erros, aberto mão dos objetivos pessoais, negado a expansão de suas energias intelectuais e psicológicas fingindo ser o que não eram, acarretando-lhes tais atitudes a falta de uma identidade própria. O patriarcalismo sempre impediu as mulheres de desenvolverem plenamente as suas potencialidades. Além disso, ele sempre foi uma forma de violência, mascarando a forte desigualdade entre os gêneros masculino e feminino, dificultando o acesso das mulheres ao campo profissional, desvalorizando a sua mão de obra e criando uma imensa discriminação quanto à sua educação, capacidade política e civil e impondo restrições à sua sexualidade.
Michelle Perrot comenta que, segundo alguns pensadores iluministas, a beleza natural do sexo feminino era incompatível com as faculdades nobres, ou seja, para eles, era impossível fazer uma bela mulher pensar. Ela apenas podia imaginar. Para os estudos científicos do século XIX, todas as características presentes em uma mulher como fragilidade, recato, predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais, subordinação da sexualidade e vocação maternal foram consideradas
predominantemente biológicas.
A libertação feminina só seria atingida se acontecesse em todas as esferas nas quais as mulheres estavam sendo inseridas, ou seja, de nada adiantaria obter liberdade política se não houvesse liberdade econômica. Quando o divórcio tornou-se livre e automático para a mulher e para o homem, essa liberalização foi catastrófica, pois a sociedade da época ainda era considerada semi-analfabeta.
O século XX é considerado o século da psicologia e da imagem, entretanto a cultura ocidental não desenvolveu muitos caminhos para as mulheres. Mesmo com a definição freudiana dos sexos e da identidade sexual, as mulheres ainda continuaram a serviço dos homens e da família. Apesar da conquista da liberdade, elas não conseguiam soltar definitivamente os laços. A sexualidade foi o lado que mais se libertou, pois se conseguiu fazer com que a sociedade aceitasse o desejo sexual feminino. No entanto toda essa liberdade vem acompanhada de uma pressão estética, ou seja, a busca da beleza perfeita, facilitada pelos avanços tecnológicos.
A mulher procurou aliar a libertação do espaço doméstico, no qual era obrigada a viver em função do marido, ao espaço ligado à industrialização. Dessa forma, houve a necessidade do aumento do número de creches e a escolarização precoce das crianças, liberando a mulher da maternidade prolongada. Esse foi um dos principais acontecimentos desencadeadores da emancipação feminina.
O movimento feminista leva a questionar também a identidade feminina. No dicionário, encontra-se a seguinte definição para a palavra identidade:
"Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais etc.
O aspecto coletivo de um conjunto de características pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido"93
Identidade vai mais além do que essa definição. Identidade é um ponto de significados e experiências de um povo.
Segundo Castells94, identidade é:
“o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda, um conjunto de atributos culturais inter- relacionados, os quais devem prevalecer sobre uma outra forma de significado.”
Mas para um indivíduo poder existir, é necessário ter mais de uma identidade e essa pluralidade é:
“uma fonte de tensão e ambigüidade, tanto na auto-representação, como na ação social. Isso tudo porque é preciso diferenciar a identidade dos papéis e conjunto de papéis, que são funções que um indivíduo exerce na sociedade.”
Esses papéis são importantes para a sociedade porque têm o poder de influenciar o comportamento das pessoas, uma vez que dependem de um acordo entre os indivíduos e as instituições e organizações existentes. Já a identidade é constituída por meio de um
93Larousse Cultural,1999:505 94Castells,1999:22
processo de individualização, apesar de poder ser formada a partir da instituição dominante.
Ainda sobre a formação da identidade, Castells95diz que
“a construção da identidade vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso. Porém todos esses materiais são processados pelo indivíduo, grupos sociais e sociedades, que reorganizam seus significados em função de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão de tempo/espaço.”
Nesse estudo, Castells96 ainda propõe três diferentes formas de construção da identidade:
“a) Identidade Legitimadora, aquela usada pelas instituições dominantes com o intuito de expandir a sua dominação em relação aos indivíduos;
b) Identidade de Resistência, que é aplicada pelos indivíduos que se encontram em situação de desvalorização pela lógica de dominação, construindo elementos de resistência e sobrevivência, baseadas em princípios diferentes dos que permeiam a sociedade;
95Castells,1999:23 96Castells,1999:24-25
c) Identidade de Projeto, a que mais nos interessa no momento, porque é por meio dela que teremos a formação do feminismo. É a criação de uma nova identidade para conseguir redefinir seu papel e sua posição na sociedade, buscando uma transformação na sua estruturação.”
A partir dessa colocação de Castells sobre identidade, pode-se deduzir que cada um desses tipos de construção de identidade leva a um resultado diferente, que auxilia na constituição da sociedade. O primeiro, por exemplo, dá origem a uma sociedade civil, ou seja, um conjunto de organizações e instituições, as quais ajudam a racionalizar a dominação. O segundo auxilia na formação da comunidade e dá origem à resistência coletiva diante de alguns tipos de opressão. A identidade de projeto produz sujeitos que desejam ser indivíduos, que criam uma história pessoal, que atribuem significado a todo conjunto de experiências da vida individual. E a construção dessa identidade é um novo projeto de vida, o que provavelmente deve-se à vontade de libertar a sociedade de qualquer opressão existente até o momento.
A formação de identidade de projeto, criada por Castells97, ocorre quando os atores sociais, fazendo uso de qualquer material cultural que têm ao seu alcance, constroem uma nova identidade, capaz de redefinir a sua posição na sociedade, buscando transformá-la. A partir desse ponto de vista, pode-se dizer que o feminismo busca superar todos os estereótipos criados vinculados ao sexo. Levando em consideração que as mulheres são sempre desprestigiadas simplesmente por serem mulheres, esse é o tipo de problema que está extremamente ligado à própria identidade da mulher.
Esse questionamento da identidade feminina foi intensamente discutido na obra
Novas Cartas Portuguesas por suas autoras, sempre avaliando o papel da mulher na sociedade portuguesa, o seu crescimento, assumindo novas posições diante e adiante dos homens, sem nunca deixar de ser feminina:
“Que tempo? O nosso tempo. E que arma, que arma utilizamos ou desprezamos nós? Em que refúgio nos abrigamos ou que luta é a nossa enquanto apenas no domínio das palavras? O que podemos...”98
Ao longo dos séculos, tem-se definido que a identidade feminina é estruturada e