5.1 Bs selvportrett
5.1.1 Deltakelse i offentligheten
Ao ser questionado por Raymond de Nanjac sobre o tipo de lugar que estão frequentando, Olivier responde: “Ah, meu caro, é preciso ter vivido como eu há muito tempo na intimidade de todos os mundos parisienses para compreender as nuances deste aqui, e ainda assim não é fácil explicar” (ato II, cena 9). 44
Esta frase que antecede a descrição que será feita por Olivier do demi-monde produz um « efeito de saber », ou seja, dá à personagem o posto de descripteur-savant, “descritor- sábio”, aquele que conhece o lugar que está descrevendo. Trata-se tanto de uma justificativa da descrição (Cf. ADAM; PETIT JEAN, 1989, p. 55) quanto de uma prova da veracidade do
44 “Ah, mon cher, il faut avoir vécu comme moi depuis longtemps dans l’intimité de tous les mondes parisiens
discurso (Cf. CHARAUDEAU, 1992, p. 694). Enfim, o recurso a este tipo de descrição não é um procedimento inocente, mas uma estratégia de legitimação de sua enunciação: se a personagem é um descripteur-savant, como poderia o público não acreditar nele?
Munido desta prerrogativa de descritor-sábio, Olivier ganha autoridade para descrever, com conhecimento de causa, o espaço social ao qual se refere. Para tentar explicar a Raymond de Nanjac o que é o demi-monde, Olivier utiliza a seguinte metáfora:
Entre um dia em um mercador de comestíveis (...) e peça a ele seus melhores pêssegos. Ele mostrará uma cesta contendo frutas magníficas dispostas a alguma distância umas das outras e separadas por folhas, a fim de que não se toquem nem se corrompam pelo contato ; pergunte o preço e ele responderá : « trinta tostões a peça », suponho. Olhe em volta e certamente verá próxima a esta caixa uma outra caixa repleta de pêssegos muito semelhantes aos primeiros em aparência, apenas mais pressionados uns contra os outros (...) os quais o mercador não lhe ofereceu... Pergunte a ele : « E quanto custam estes ». Ele responderá : « Quinze tostões ». Naturalmente você perguntará a ele por que esses pêssegos, tão volumosos, tão bonitos, tão maduros e tão apetitosos quanto os outros custam menos. Então, ele pegará um ao acaso (...) e mostrar-lhe-á, embaixo, um pequeno ponto preto que será a causa de seu preço inferior. Bem, meu caro, aqui você está na caixa de pêssegos de quinze tostões. As mulheres que à sua volta têm, todas, uma falta em seu passado, uma marca em seu nome ; elas pressionam-se umas contra as outras para que as vejamos o menos possível ; e, com a mesma origem, o mesmo exterior e os mesmos preconceitos que as mulheres da sociedade (...) elas compõem o demi-monde, que vaga como uma ilha flutuante sobre o oceano parisiense, e que chama, que recolhe, que admite todas aquelas que caem, que emigram, que se salvam da terra firme, sem contar as náufragas de ocasião, e que vêm não se sabe de onde (ato II, cena 9). 45
Quando, nesta descrição do demi-monde, Dumas Filho compara as demi-mondaines a pêssegos podres, ele utiliza um tipo de metáfora conhecida como metáfora descendente ou
45 “Eh bien, entrez un jour chez un marchand de comestibles, chez Chevet ou chez Potel, et demandez-lui ses
meilleures pêches. Il vous montrera une corbeille contenant des fruits magnifiques posés à quelque distance les uns des autres et séparés par des feuilles, afin qu’ils ne puissent se toucher ni se corrompre par le contact ; demandez-lui le prix, il vous répondra : « Trente sous la pièce », je suppose. Regardez autour de vous, vous verrez bien certainement dans le voisinage de ce panier un autre panier rempli de pêches toutes pareilles en apparence aux premières, seulement plus serrées les unes contre les autres, ne se laissant pas voir sur tous leurs côtés et que le marchand ne vous aura pas offertes... Dites-lui : « Et combien celles-ci ? » Il vous répondra : « Quinze sous ». Vous lui demanderez tout naturellement pourquoi ces pêches, aussi grosses, aussi belles, aussi mûres, aussi appétissantes que les autres, coûtent moins cher ? Alors, il en prendra une au hasard, le plus délicatement possible, entre ses deux doigts, il la retournera, et vous montrera, dessous, un tout petit point noir qui sera la cause de ce prix inférieur. Eh bien, mon cher, vous êtes ici dans le panier des pêches à quinze sous. Les femmes qui vous entourent ont toutes une faute dans leur passé, une tache sur leur nom ; elles se pressent les unes contre les autres pour qu’on le voie le moins possible ; et, avec la même origine, le même extérieur et les mêmes préjugés que les femmes de la société, elles se trouvent ne plus en être, et composent ce que nous appelons le « Demi-monde », qui vogue comme une île flottante sur l’ócean parisien, et qui appelle, qui recueille, qui admet tout ce qui tombe, tout ce qui émigre, tout ce qui se sauve de la terre ferme, sans compter les naufragés de rencontre, et qui viennent on ne sait d’où".
burlesca. Segundo Henri Morier, “[…] a metáfora pode abaixar o comparado ao nível de um comparante que põe em evidência um denominador comum inferior e que, desta forma, o ridiculariza: é a metáfora descendente ou burlesca” 46 (MORIER, 1989, p. 716). Trata-se de uma forma de julgamento moral utilizado para legitimar seu discurso e fazer a demonstração de sua tese.
De acordo com Adam e Petit Jean, a utilização de enunciados metafóricos em um discurso realista pode ser analisada como a expressão de uma « pré-construção ideológica » 47 (ADAM; PETIT JEAN, 1989, p. 55), na qual reconhecemos um procedimento discursivo de construção subjetiva do mundo. De fato, observa-se a uma concretização de uma pré- construção ideológica do autor, que observou este nicho social ao qual chamou de demi- monde e o transpôs para a peça – a definição dada por ele, no prefácio (conforme supradescrita no capítulo 3), é a mesma apresentada por Olivier no diálogo da peça.
Outra estratégia que Dumas Filho utiliza para legitimar sua enunciação e que é indissociável do saber é a taxonomia. A taxonomia « rege e é regida por um saber», e « o saber, para ser comunicável, exige ser regido por uma ordem suplementar, por classificações» (HAMON, 1993, p. 52). 48 Embora implícita na peça, esta taxonomia serve para classificar o
espaço denominado demi-monde e suas personagens e para situá-las socialmente: acima do mundo da prostituição, abaixo do « verdadeiro mundo », ou seja, da sociedade parisiense respeitável: “Atualmente, este mundo irregular funciona regularmente, e esta sociedade bastarda é charmosa para os jovens. Lá o amor é mais fácil que em cima e mais barato que embaixo” (ato II, cena 9). 49 Detecta-se, assim, a combinação do « efeito de lista », próprio de
46 « [...] la métaphore peut abaisser le comparé au moyen d’un comparant qui met en évidence un commun
dénominateur inférieur et qui, par là, le ridiculise: c’est la métaphore descendante ou burlesque » (grifos do autor)
47 « préconstruit idéologique ». Os autores referem-se à descrição de paisagens, mas segundo eles o
funcionamento para o retrato é o mesmo.
48
“[...] un savoir, pour être communicable, demande à être régi par un ordre supplémentaire, par des classifications [...]. Toute taxinomie régit et est régie par um savoir.”
49 “A l’heure qu’il est, ce monde irrégulier fonctionne régulièrement, et cette société bâtarde est charmante pour
toda descrição, com um « efeito de esquema», um « efeito de modelo » ao qual se refere Hamon, « dando ao leitor a impressão de que o texto se esforça para saturar um quadro, um modelo preexistente mais ou menos constrangedor (de-scribere, lembremos, significa : escrever de acordo com um modelo [...]) » 50
(HAMON, 1993, p. 53).
Podemos identificar no texto da peça, além da descrição do demi-monde como espaço social, uma localização geográfica deste nicho. Vejamos o trecho a seguir, retirado da cena 2, ato I, no qual a demi-mondaine Valentine de Santis dá a Olivier informações sobre seu novo apartamento: “Eu encontrei, na rua da Paz, um lindo apartamento no segundo andar, sete mil e quinhentos francos [...]”. 51
Como são poucas as referências na peça a ruas e logradouros, nada mais justificável do que considerar que tal menção não seja inocente. De fato, a citação da rua da Paz (rue de la paix) traz implícita uma alusão a um local onde, supostamente, as demi-mondaines se concentrariam. Segundo Édouard Fournier (1894, p. 123), que escreveu em 1894, a rua, que foi sede do Convento dos Capuchinhos, é a mais luxuosa de Paris. As casas apresentam a mais bela arquitetura e são as mais bem habitadas. Os ricos estrangeiros lá vivem, em seus hotéis mobiliados. Numerosos fornecedores posicionam-se estrategicamente para servir a esta rica clientela que vem de todos os países.
Relacionamos esta menção da rua da paz à citação que Maugny (1892) faz da mesma região. Tendo como objeto de estudo o mesmo espaço social do demi-monde, no mesmo período do qual tratamos aqui, Maugny dirá:
Na esquina do boulevard dos Capuchinhos – onde todas as grandes lojas, inteiramente iluminadas, estão abertas até meia noite – e da rua Caumartin, no
50
“donnant l’impression au lecteur que le texte s’efforce de saturer um cadre, un modèle préexistant plus ou moins contraignant (de-scribere, rappelons-le, signifie: écrire d’après un modele [...].”
51 “Moi, j’ai trouvé, rue de la Paix, un amour d’appartement au second, sur la rue, sept mille cinq cents francs
primeiro andar de uma bela casa em rotunda, brilham, todas as noites, as vastas janelas de um apartamento do qual adivinhamos, de fora, o magnífico requinte e o arranjo de bom gosto [...]
É lá que se fazem encontros e onde se reúnem, cercadas por seus acompanhantes de sempre, vale dizer, toda a jeunesse dorée, as dez ou doze grandes cortesãs de marca que viram Paris de cabeça para baixo [...] (MAUGNY, 1892, p. 4). 52
Esta citação não só localiza geograficamente as cortesãs na mesma região que aquela habitada pela demi-mondaine da peça como apresenta algumas das características dadas por Dumas Filho para o demi-monde, tais como a busca pelo luxo e a reunião das cortesãs. Mas, se Dumas Filho distingue em seu prefácio o demi-monde e a multidão das cortesãs, Maugny não só irá associá-las diretamente ao demi-monde como incluirá as denominadas cocottes e demi-castors.
Cocottes, de acordo com o dicionário on line Trésor de la Langue Française, refere-se pejorativamente às mulheres de costumes levianos que são ricamente sustentadas. 53 Demi- castors, por sua vez, são definidas por Maugny como “anfíbios, metade mulher do mundo, metade cocottes; tendo das primeiras a etiqueta e as pretensões; das outras, os costumes fáceis, a natureza, os procedimentos e... a ausência de preconceitos” (MAUGNY, 1892, p. 71). 54 Neste grupo ele inclui as mulheres que “trocavam de amantes como de roupa”, tendo conservado, no entanto, “algumas ligações com a sociedade à qual pertenciam pelo nascimento e pela situação”, mantendo as aparências e vivendo em um interior respeitável na maior parte do tempo (MAUGNY, 1892, p. 72). 55 Mas inclui também aquelas que
52 Au coin du boulevard des Capucines – où tous les grands magasins, étincelants de lumières, sont ouverts
jusqu’à minuit – et de la rue Caumartin, au premier étage d’une belle maison bâtie en rotonde, brillent, tous les soirs, les vastes fenêtres d’un appartement dont on devine, du dehors, la somptueuse recherche et l’arrangement de bon goût.
C’est là que se donnent rendez-vous et que se réunissent, entourées de leurs cavaliers ordinaires, autant dire de toute la jeunesse dorée, les dix ou douze courtisanes de marque qui mettent Paris sens dessus dessous [...]
53 Vieilli, péj. Femme de mœurs légères richement entretenue (cf. poule).
54 “On sait ce que c’est que les demi-castors: des amphibies, moitié femmes du monde, moitié cocottes; ayant
des premières l’etiquette et les prétentions; des autres, les moeurs légères, la nature, les procédés et... l’absence de préjugés.”
55 “[...] changeaient d’amant comme de toilette [...]”; “[...] ayant conservé, malgré cela, quelques liens avec la
[...] tendo compartilhado os triunfos escandalosos, a existência nitidamente marcada das grandes cocottes, com as quais são comumente confundidas e que, seja por um casamento confessado ou anunciado, presente ou passado, seja pela superioridade de sua origem, de sua educação e de seu nível, formam uma casta à parte e devem ser classificadas na categoria das demi-castors (MAUGNY, 1892, p. 73). 56
Estas são, para ele, as demi-mondaines propriamente ditas... Observa-se aqui o mesmo recurso de Suzanne d’Ange da peça Le demi-monde: o anúncio de um suposto casamento passado, para que a morte deste marido inventado justifique a ausência de um marido atual e a fonte de renda e imponha respeitabilidade.
Todas estas definições indicam a complexidade do espaço social denominado demi- monde, e justificam uma vez mais nossa opção pela não tradução do termo, que se refere a uma realidade muito peculiar da cidade de Paris no século XIX. Assim como Alexandre Dumas Filho, Maugny, que assina o livro como Zed, descreve com detalhes este mundo que ele viu, as mulheres que admirou e as lembranças que guardou, conforme escreve em seu prefácio57, o que torna seu texto uma importante referência sobre o assunto para os propósitos desta dissertação.
Na descrição das personagens, Dumas Filho é menos generoso nos detalhes e recursos, mas há uma razão clara: os atos das personagens complementam as descrições para dar ao leitor/espectador uma idéia do que eles são realmente. Pela mesma razão, a peça carece de didascálias, visto que as personagens falam por si sós.
A primeira descrição feita é a de Raymond de Nanjac. Conforme já transcrito no capítulo 4, item 4.3, a Viscondessa de Vernières dirá a Olivier, para explicar por que ele seria um bom pretendente para sua sobrinha Marcelle: “ele é jovem, tem uma figura distinta, trinta
56 “[...] ayant partagé les triomphes bruyantes, l’existence nettement trauchée des grandes cocottes, avec lesquels
on les a souvent confondues et qui, soit par un mariage avoué et affiché, présent ou passé, soit par la supériorité de leur origine, de leur éducation et de leur niveau, forment une caste à part et doivent être rangées dans la catégorie des demi-castors.”
57 “Ce monde, je l’ai vu; j’ai vécu de sa vie étourdissante. Ces femmes, je les ai admirées dans toute leur
splendeur et toute leur gloire. J’en ai gardé le souvenir et j’ai essayé d’en fixer les traits avec autant de simplicité et de fidélité que possible; rien de plus.” (MAUGNY, 1892, p. V).
e dois anos no máximo, militar, condecorado, sem família, exceto uma irmã já viúva e que vive isolada nos fundos de seu faubourg Saint-Germain, vinte mil libras de renda, livre como o ar, podendo casar-se amanhã se quiser” (ato I, cena 1). 58
Na cena 3 do primeiro ato, a Viscondessa de Vernières é descrita por Olivier como
(...) um resto de mulher distinta que a necessidade de luxo e de prazer arrastou para uma sociedade fácil. Ela arruinou seu marido, que morreu há dez ou doze anos. Alguns antigos amigos, as ações que lhe são doadas e que ela revende, os destroços de sua fortuna naufragada que o vento recusa de tempos em tempos aos rios do presente, estes são seus recursos. Ela tem uma sobrinha muito graciosa, com cujo casamento conta para dourar novamente seu brasão (Ato I, cena III). 59
Na cena 3, é a vez de Olivier descrever Suzanne d’Ange para seu amigo Hippolyte Richond:
[...] ela é livre, ela se diz viúva, ela não tem mais vinte anos, ela se veste muito bem, é espirituosa, sabe manter as aparências; sem perigo no presente, sem sofrimentos no futuro, pois ela é destas que preveem todas as eventualidades de uma relação e que levam sorrindo, com frases feitas, seus amores de convenção até a parada onde trocarão de cavalo. Entrei nesta relação como um passageiro que não tem pressa e toma uma carruagem em vez de tomar o trem; é mais divertido e pode-se sair quando quiser (ato I, cena 3). 60
Observa-se, nestas passagens, um recurso, mesmo que discreto, ao procedimento linguístico da qualificação, que se exerce quando da descrição física, gestual, de posturas e comportamentos. Todas retiradas do primeiro ato, estas descrições apresentam ao leitor/espectador as personagens Raymond de Nanjac, Viscondessa de Vernières e Suzanne
58 “Il est jeune, il a une figure distinguée, trente-deux ans au plus, militaire, décoré, pas de famille, excepté une
jeune soeur déjà veuve et qui vit fort retirée dans le fond de son faubourg Saint-Germain, une vingtaine de mille livres de rente, libre comme l’air, pouvant se marier demain si bon lui semble’’.
59 “C’est un reste de femme de qualité que le besoin du luxe et du plaisir a entraînée peu à peu dans une société
facile. Elle a ruiné son mari, qui a pris le parti de mourir, il y a dix ou douze ans. Quelques anciens amis, des actions qu’on lui donne au pair et qu’elle revend à prime, les épaves de sa fortune naufragée que le vent rejette de temps à autre aux rives du présent, voilà ses ressources. Elle a une nièce très jolie, sur le mariage de laquelle elle compte pour redorer son blason ».
60 “[...] elle est libre, elle se prétend veuve, elle n’a plus vingt ans, elle se met à merveille, elle a de l’esprit, elle
sait conserver les apparences ; pas de danger dans le présent, pas de chagrins dans l’avenir, car elle est de celles qui prévoient toutes les éventualités d’une liaison et qui mènent en souriant, avec des phrases toutes faites, leur amour de convention jusqu’au relais où il changera de chevaux. J’ai pris cette liaison-là comme un voyageur qui n’est pas pressé prend la poste, au lieu de prendre le chemin de fer, c’est plus gai et l’on s’arrête quand on veut’’.
d’Ange a partir da visão das outras personagens.
No segundo ato, por outro lado, é apresentada ao leitor/espectador uma auto-descrição de Suzanne d’Ange, em que ela corrobora, de certa forma, aquilo que foi dito por Olivier, acrescentando, porém, suas justificativas pessoais, suas motivações e ambições. Na cena 2, ela desabafa com o marquês de Thonnerins:
[...] Eu não era nada, você fez de mim alguém ; é graças a você que tenho meu lugar em um mundo que é uma decadência para as mulheres que vieram de cima, que é o máximo para mim, que parti de baixo. Mas, você compreenderá facilmente, a posição que tenho graças a você, embora eu não ousasse jamais atingi-la, no momento em que ela passou a existir deve ter feito nascer em mim certas ambições que são uma consequência inevitável. No ponto em que estou, é preciso que eu caia mais do que onde estava ou que suba até o cume. Somente o casamento pode me dar o que me falta (ato II, cena 2). 61
Curiosamente, Maugny menciona em seu livro a baronesa d’Ange, que ele diz ter conhecido. Ele afirma que a bela e elegante cortesã era ricamente sustentada por um sério amante que acreditava piamente em sua fidelidade e com quem ela vivia de sete horas da noite até o meio-dia do dia seguinte. Naquele momento, ela se deslocava para um apartamento que havia alugado para receber seus amantes, dos quais aceitava as mais modestas ofertas, retomando no horário regulamentar a vida de família (Cf. MAUGNY, 1892, p. 124). Não temos informações sobre a real existência da baronesa d’Ange, mas sua presença nas duas obras, alternando características das demi-mondaines, cortesãs e até mesmo de prostituição, pode ser tanto um sinal do realismo nas duas obras como apenas uma marca de intertextualidade. Em ambos os casos, a complexidade que denotam as suas múltiplas facetas e classificações aponta para grandes possibilidades de estudos sócio-históricos sobre o demi-
61 “[...]Je n’étais rien, vous m’avez faite quelque chose ; c’est par vous que j’ai ma place dans un monde qui est
une déchéance pour les femmes parties d’en haut, qui est un sommet pour moi qui suis partie d’en bas. Mais,