3. Resultater
3.3 Delprosjekt 3 – arkeologisk hovedgrøft 1
Esta temática possui uma relação muito próxima do primeiro item, porém este tópico não envolve uma ação de caráter estratégico como a relação com o Estado e a criação de uma agência. Ele é mais tático, envolvendo a análise e a discussão da problemática do setor de distribuição no mercado brasileiro e quais ações poderiam melhorar o cenário para o desenvolvimento do ciclo produção-distribuição-exibição no Brasil.
A distribuição e exibição foram tão importantes no Congresso que grande parte do diagnóstico elaborado no relatório final se relaciona a eles, como descrito abaixo:
Atualmente, mais de 90% do mercado brasileiro de salas de cinema é ocupado pelo filme estrangeiro. O setor cinematográfico e o próprio governo federal estipularam atingir a meta de 20% de ocupação do mercado para filmes brasileiros, mas não foram tomadas medidas efetivas para viabilizar esta meta. Os distribuidores independentes não estão capitalizados para fazer frente à comercialização dos filmes brasileiros. No período da Lei do Audiovisual, foram investidos R$ 340 milhões em produção. Para colocação destes filmes no mercado, produtores e distribuidores investiram somente R$ 25 milhões. E cabe ao Estado garantir a isonomia competitiva na disputa de mercados. 70
Novamente, a demanda possui uma relação muito intrínseca com o Estado, tanto na capitalização do setor de distribuição independente, quanto na necessidade de garantir a isonomia competitiva na disputa de mercados.
O III CBC71 considerou suicida a política governamental que só criou mecanismos de incentivo à captação, porém não resolveu os problemas da distribuição e exibição num mercado ocupado, considerando como uma
70 III CONGRESSO BRASILEIRO DE CINEMA. Relatório Final. Porto Alegre, 01 jul. 2000. Disponível em:
<http://www.cinemabrasil.org.br/congresso/relatorio.htm>. Acesso em: 15 jun. 2009.
71 MERTEN, L. C. Déficit de exibição trava mercado, conclui encontro. O Estado de S. Paulo, São Paulo,
possível solução a proposta de criar mecanismos e estímulos para que distribuidores independentes se tornem sócios do cinema brasileiro.
Além disso, o artigo 3o da Lei do Audiovisual ao conceder 70% de
benefício no imposto de renda, caso as empresas internacionais, que exploram comercialmente produtos audiovisuais no mercado brasileiro, investissem em co-produções com empresas produtoras independentes se tornou inerte, pois o governo americano como estímulo à transnacionalização de suas empresas reembolsava os impostos pagos fora da América, num mecanismo chamado “tax shelter”72.
Assim, este mecanismo de não tributar o produto americano que já foi tributado no exterior acabou comprometendo a intenção deste ponto da Lei do Audiovisual, pois muitas das majors americanas no Brasil preferiram pagar o imposto a ter de financiar co-produções no país.
Obviamente, esta discussão se tornou polêmica no texto da Medida Provisória 2.228-1/01, pois com a criação da Condecine, o sistema de “tax shelter” não era previsto, pois não encontrava imposto análogo nos Estados Unidos e assim o estímulo à co-produção iria se tornar mais enfático para que as “majors” pudessem contribuir. Isto explica a falta de interesse das empresas americanas em investir no produto brasileiro.
Com base na tabela abaixo, percebemos, numericamente, a problemática do mercado ocupado, em que se expõe a participação de público dos filmes brasileiros em salas de exibição no país, considerando que entre 1995, praticamente o primeiro ano da retomada do cinema nacional após o fim da Embrafilme, e 2000, o cinema brasileiro teve um aumento de participação, porém estabilizando numa faixa de 8 a 9% nos últimos 2 anos (1999 e 2000), bem abaixo dos 20% estipulados pela corporação cinematográfica e pelo governo como meta a ser alcançada.
72 Entrevista concedida por Gustavo Dahl a Marcus Vinícius Tavares de Alvarenga. Rio de Janeiro, 28
Tabela 3 – Participação de Público dos Filmes Brasileiros no Mercado Nacional (1995-2000)73
Ano 1995 1996 1997 1998 1999 2000
Participação 3,86% 1,73% 7,21% 6,19% 8,70% 8,81% Fonte: Site filmeb, www.filmeb.com.br e Ancine, www.ancine.gov.br.
Esta problemática foi bem pontuada pelo cineasta Hector Babenco:
O cinema brasileiro atual está neste tripé: um roteiro para aprovar na Lei, um captador e o Adhemar de Oliveira para exibir no Espaço Unibanco de Cinema. Só que o Adhemar não tem condição de dar vazão a todos os filmes. E você faz um produto industrial para passar em quatro cinemas? É uma distorção, um nonsense que tem que ser corrigido de alguma forma. 74
O que Babenco reiterou foi a falta de espaço de tela para o produto brasileiro, ou seja, a necessidade de se pensar além do financiamento da produção e corrigir as distorções deste mercado ocupado, porém esta possível ação necessitava de um maior estreitamento de diálogo entre cinema e governo.
O setor de distribuição merece um atento estudo por parte do meio cinematográfico e do Estado, pois concentra as maiores possibilidades de lucratividade dentro da cadeia econômica do cinema (produção-distribuição- exibição), facilitando a autossustentabilidade e a possível industrialização. Porém, o que deve ser colocado também, é que não é somente dialogando com o Estado que esta isonomia se torna possível, este pode até vir a aumentar o poder de barganha do meio cinematográfico, porém o enfrentamento e o diálogo com as esferas da distribuição e da exibição têm de acontecer, ou seja, a ação da corporação cinematográfica com os elos econômicos que estão em outras atividades dentro deste setor econômico precisa ser desenvolvida, visando à resolução de problemas estruturais de nosso mercado interno para que os ciclos de altos e baixos da cinematografia
73
O método de cálculo da participação se baseou nos números de público de cinema nacional de 1995 a 2000 no site da ancine (www.ancine.gov.br/oca) dividido pelo público geral do mercado de salas de exibição no Brasil no site da filme B (www.filmeb.com.br). Pelo fato de serem fontes diferentes, talvez possa haver pequenos desvios de outros dados coletados por outras fontes, mas o mais importante destes números é mostrar a discrepância entre o mercado e as metas propostas.
74 Depoimento de Hector Babenco In: NAGIB, L. O Cinema da Retomada: Depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: 1a edição. Editora 34, 2002. p. 183.
brasileira possam chegar a um fim, dando origem a uma possível indústria nacional do setor.
Investimentos para a capitalização dos distribuidores independentes são de grande importância para facilitar a formação de distribuidoras nacionais, porém concorrer com grupos estrangeiros com conhecimento específico do mercado distribuidor brasileiro é muito difícil, pois o poder de barganha destas empresas é enorme, tanto para diminuir o custo do filme que distribui, quanto no domínio das negociações com o setor exibidor. Além da capitalização das distribuidoras, um estudo que viabilize a operacionalidade destas como forma de mitigar os riscos da atividade será necessário para uma penetração no mercado de distribuição de forma sistêmica e contínua75.
Apesar das contestações serem de profunda valia para o encaminhamento de propostas, percebe-se nesta temática a mesma problemática do primeiro, em que não houve uma ação setorial que buscasse delinear a independência financeira das distribuidoras, o Estado continuaria sendo o provedor e o mediador do mercado brasileiro.