A primeira implicação do dialogismo para a ciência (particularmente para a psicologia) é a subscrição de uma epistemologia relacional – que nos remete para uma convergência com as reflexões pós-modernas (e.g. Gergen, 1997) relativamente à natureza socialmente construída do real e dos fenómenos humanos.
A pós-modernidade refere-se a um conjunto de conceitos e orientações que desafiam a posição positivista tradicional da ciência, na sua preocupação em atribuir a veracidade das explicações científicas pela avaliação da capacidade destas em retratarem a realidade tal qual como ela é (procura de essências). A tradição positivista parte, assim, do pressuposto de que existem verdades objectivas universais, que é relevante e possível conhecê-las cientificamente e que a linguagem representa (espelha) a realidade – argumentos estes que as teorias pós-modernas rejeitam categoricamente (Anderson, 2003; M. Gonçalves & Ó. Gonçalves, 2001). Segundo a nossa perspectiva, a psicologia tradicional (inscrita numa orientação positivista) tem tratado o objecto psicológico (i.e. o ser humano e os fenómenos humanos) de uma forma monológica (numa relação I-it segundo Buber), produzindo conhecimento de uma forma distanciada (tomada como objectiva e neutra) e tentando “descobrir” leis universais para populações que, acima de tudo, nos afastam da compreensão da riqueza subjectiva dos indivíduos. Desta forma, a psicologia tradicional tem produzido/acumulado conhecimento que, infelizmente, tem sido cego/surdo para o ponto de vista do sujeito. Neste sentido, tem sido uma psicologia de 3ª pessoa, pretendendo principalmente categorizar e ordenar o real (psicológico), trata os sujeitos como entidades monológicas, numa redução destes ao estatuto de objectos (passivos e não-respondentes – em vez de pessoas) que rapidamente se podem descrever em quatro ou cinco variáveis pertinentes introduzidas numa matriz do SPSS.
24
Por seu turno, a pós-modernidade tem procurado suscitar reflexões epistemológicas, teóricas e metodológicas dentro das ciências sociais, posicionando-se numa hostilidade para com os objectivos da ciência moderna (de herança positivista). O ênfase pós-moderno na natureza socialmente construída do real, no papel instituidor da linguagem nesta construção e no poder de diferentes facções/grupos na defesa dos discursos que contam como “verdadeiros” e dominantes, tem reunido e convergido diferentes movimentos e correntes teóricas (de aplicação aos mais variados campos de estudo psicológico) que, de uma forma ou de outra, subscrevem estes aspectos. Mencionamos, por exemplo, o interaccionismo simbólico, o construcionismo social, a psicologia feminista, a psicologia narrativa, entre outros. Este zeitgeist teórico pós- moderno originou, também em Portugal, importantes trabalhos dentro da psicologia (e psicoterapia) narrativa, nacional e internacionalmente reconhecidos (cf. M. Gonçalves & Henriques, 2000; M. Gonçalves & Ó. Gonçalves, 2001; Ó. Gonçalves, 2000; Ó. Gonçalves, Machado, Korman & Angus, 2002).
Apesar da significativa disseminação das ideias pós-modernas nas ciências sociais e na psicologia em particular, existe ainda algum cepticismo e desconfiança por parte de (alguns) psicólogos na adesão a estas concepções acerca da ciência psicológica e seus objectos de estudo (Martin & Sugarman, 2000). Salientamos, na reflexão sobre esta condição, algumas posições particulares assumidas, principalmente, pelo construccionismo social tal como proposto de forma mais radical por K. Gergen (1985, 1994, 1997).
De acordo com Gergen, a missão do construcionismo social é fazer a análise crítica entre os diferentes jogos de linguagem e os compromissos destes, pelo seu impacto em cada rede de inteligibilidade específica que os institui enquanto “realidade”: “o conhecimento não é algo que as pessoas possuem dentro das suas cabeças, mas antes, algo que as pessoas fazem em conjunto.” (Gergen, 1985, p. 270). A psicologia (de herança positivista), na sua tentativa de estudar a subjectividade e os estados internos fica, deste modo, confrontada com alguns problemas se pretender fundamentar-se numa epistemologia representacionalista cartesiana (cf. Salgado, 2003), nomeadamente: a) a introspecção colide com um dualismo sujeito-objecto impossível de superar; b) os mecanismos de auto-detecção não nos permitem captar nenhuma essência interna; c) os estados internos, como conceitos e fenómenos socialmente construídos, têm uma natureza ambígua e desreificada. Desta forma, Gergen conclui que, não sendo possível resolver as questões anteriores, mais vale não fazer do objecto de estudo da psicologia a
25
observação da “realidade interna”, ou da subjectividade, mas o estudo dos utensílios de performance conversacional que são usados como referentes a essa “realidade interna” (Salgado, 2003). Gergen (1997) interessa-se, consequentemente, pelas formas de performance e de co-construção no cenário relacional – narrativas vivas – que indexam na interacção as performances psicológicas, “vendo as expressões linguísticas como possíveis mas não componentes essenciais de acções que podem requerer padrões de gestos, direcção do olhar, orientação corporal (e possíveis artefactos físicos ou locais) para atingir a sua inteligibilidade.” (p. 741). Assim, “o lugar da psique” numa orientação construcionista social orienta os psicólogos para uma reconfiguração do mundo psicológico como um domínio do social e de performance relacional (Gergen, 1997).
Deste modo, seguindo a recomendação de Gergen, a psicologia perderia um “mundo interno” para estudar e passaria a ficar centrada, novamente, num mundo externo (de performance nas interacções observadas) e numa fragmentação social da mente a ser (re)construída em cada uma das inúmeras interacções do indivíduo. Recuperando as palavras de Fisher, “O sistema é tão radical como o de Skinner” (1995, p. 331). Parece-nos que o construcionismo social, na tentativa de resolver alguns dos “velhos” problemas da ciência, desestabiliza de tal forma os objectos de estudo da psicologia que a leva para um terreno de ambígua definição e distinção com outros campos de saber, não apresentando respostas satisfatórias para os novos desafios que levanta.
Segundo Marková (2003b), na sua tentativa de evitar a todo o custo o solipsismo individual (que enclausura o sujeito), Gergen cai no solipsismo do social (que leva à erosão do sujeito). Por um lado, a rejeição de um fundamento objectivo para os estados internos leva os construcionistas sociais a rejeitar a interioridade como objecto de estudo psicológico – e, assim, a proposta é, novamente, deixar a subjectividade de fora; por outro lado, a redução da psique à esfera social faz com que se oscile para um solipismo social igualmente problemático ao cartesiano (Salgado & Hermans, 2005).
Haverá, então, a alternativa de uma subscrição do real como socialmente construído que mantenha a possibilidade de estudar a subjectividade na psicologia? Segundo Marková (2000a), as perspectivas de Mead, Bakhtin e de Vygotsky, enquadram-se numa ontologia que trata a antinomia individual e social como uma unidade inseparável – sendo impossível falar de um sem falar do outro. Neste sentido, o
26
dialogismo parece conseguir ultrapassar esta dualidade problemática, através de uma estratégia de “separação inclusiva” dos pólos das antinomias individual/social, Eu- Outro, em vez de uma estratégia de “separação exclusiva” em que um dos pólos é privilegiado sobre o outro (Ferreira, Salgado & Cunha, 2006). A proposta do dialogismo é, então, o assumir-se uma ontologia relacional que permite superar a problemática dissociação entre o Eu e o Outro e passar a estudar-se a existência e os fenómenos humanos como processos e produtos relacionais. Assim, a construção de conhecimento sob uma perspectiva dialógica vive das relações entre o mundo interno e o mundo externo – “um inter-mundo”, naquilo que Linell (2007) chama de relacionismo (para o distinguir do relativismo associado aos construcionistas sociais).
Assumindo-se que a subjectividade e o mundo interno são fenómenos socialmente construídos, como todos os outros, a questão é que, uma vez instituída uma determinada praxis linguística, ela passa a constranger a vivência pessoal dos indivíduos que dela participam e, por isso, instaura estes fenómenos como objectos de estudo psicológico (potencialmente) interessantes. Hoje, no século XXI, as noções de self, identidade, interioridade são comuns nos nossos discursos, fazem parte das nossas grelhas de inteligibilidade. Assim, apesar de devermos, enquanto ciência, partir da aceitação de que estas noções se referem a entidades socialmente construídas (quanto todas as outras), devemos também assumir que, actuando e sentindo (colectivamente e individualmente) de acordo com estas noções, todos nós acabamos por “saber” (de alguma forma) o que elas são e agir de acordo com a sua existência (Shotter, 1997b). Aí, estas ilusões socialmente partilhadas adquirem algum tipo de existência, mesmo que seja apenas uma existência (teoricamente) consensual e pragmática relativamente ao seu significado (Shotter, 1997b).
No entanto, o dialogismo vai para além deste consenso na co-construção ontológica. Tal como Rommetveit (1992) salienta, os consensos em termos de significado são mais abstracções necessárias em termos pragmáticos – para vivermos uma inteligibilidade e um mundo com que todos estamos familiarizados – do que propriamente efectivas e absolutas (na medida em que a apropriação desse “mundo” é sempre subjectiva). O dialogismo vai para além da partilha, da reciprocidade, colocando ênfase no pressuposto de que a existência e a subjectividade emergem de uma posição de outridade (através do outro), pois “comunicar significa ser para um outro, e através do outro, para nós mesmos.” (Marková, 2003a, p.257).
27
Neste sentido, vale a pena a psicologia procurar entender como, nesta época histórica, se organizam subjectivamente (e no contraste com esta alteridade socialmente guiada) as pessoas que se dizem/sentem com mente, identidade, self, e como as suas experiências pessoais e privadas se vão relacionalmente organizando, sem necessitarmos de cair em ontologias realistas/idealistas ou na presunção da criação de conhecimento universal e incontestável.
De uma forma geral, nas últimas décadas, a psicologia tem respondido a este apelo e manifestado o interesse no acesso à riqueza subjectiva do Outro e atribuído maior importância à dimensão relacional da vida humana (em diferentes vertentes teóricas), algo que se aproxima daquilo que Kenneth Gergen (2006) recentemente intitulou de “uma arena de sensibilidade relacional em expansão” (p. 120).Também nas tentativas de compreensão dos processos de individuação e de desenvolvimento do self têm surgido algumas perspectivas relacionais interessantes, que dão indicações claras a favor de uma concepção da ontogénese individual como um processo essencialmente de carácter intersubjectivo e relacional (cf. Beebe, Knoblauch, Rustin & Sorter, 2005). Autores como Trevarthen e Aitken (2001), sugerem a existência de uma intersubjectividade inata nos bebés, relacionada com uma consciência social (social awareness) e uma orientação para o outro que permite o estabelecimento de relações desde a nascença, sendo estas vistas como poderosas ferramentas desenvolvimentais. Relativamente a este assunto, Alan Fogel (1993) considera que a interacção adulto- criança permite a criação de uma “zona de desenvolvimento proximal” (Vygotsky, 2001) num contexto relacional (frame), no qual os bebés claramente conseguem atingir um nível de actividade mais elevado do que quando isolados. Este autor chega a assumir que o facto irredutível e comum relativamente a todos organismos vivos é a sua relação com o mundo: “a primeira forma de vida na Terra foi uma vida-no-mundo, e a sua identidade foi a sua relação particular com o mundo.” (Fogel, 1993, p. 60).
Em síntese, o argumento que temos construído até aqui é o de que toda a existência humana, nas suas dimensões ontológica e identitária, emerge do processo dialógico e relacional, enraizado sócio-histórico-culturalmente, no qual somos envolvidos desde o princípio até ao fim da nossa vida (Sampson, 1993).
Pretende-se, assim, com o Dialogismo, partir destes pressupostos e tentar uma psicologia de 1ª pessoa (por oposição a uma tradição psicológica de 3ª pessoa). Isto implica a tentativa sempre incompleta e inacabada de acesso ao Outro enquanto parceiro
28
dialógico e contrastante, mantendo um respeito por este enquanto pessoa muito mais rica e complexa do que as nossas descrições sobre o mesmo (numa relação I/Thou).