Fotografia 16: Valdo Siqueira como professor da Oficina de Introdução à Linguagem de Vídeo, no Sexto Festival de Jovens Realizadores do MERCOSUL, em 2011. Fotografia de Letícia Amaral.
Valdo Siqueira
Ficha técnica – produção, entrevista e texto de abertura : Letícia Reis Amaral
Fotógrafo e realizador audiovisual antes de tudo, Valdo Siqueira também procurou se aproximar da educação audiovisual de crianças e jovens na periferia de Fortaleza. Nascido em Belém do Pará, veio para Fortaleza ainda criança. Graduado em Filosofia e Mestre em Comunicação, ele ingressou na ONG Aldeia em 2006. É dele a condução da maioria dos cursos de introdução à linguagem de vídeo na ONG Aldeia. Ele também participou da direção de Todos São Francisco. E foi grande incentivador desta pesquisa.
Atua como professor do Curso de Audiovisual e Novas Mídias da Universidade de Fortaleza, coordenador da Célula Audiovisual de Divulgação Científica da FUNCAP (Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico), membro eleito do Núcleo de Produção Digital da Vila das Artes (MinC/Secultfor), diretor e educador do Pontão de Cultura Digital Aldeia Digital.
Pesquisadora - Que tipo de formação era dada aos jovens atendidos na ONG Aldeia, além dos cursos práticos propriamente ditos (fotografia, câmera etc)?
Valdo Siqueira - Antes de definir-se quais cursos seriam ofertados, precisamos definir um método. Já que a proposta sempre foi a de trabalhar com imagem, adolescentes e
comunidades periféricas do Grande Mucuripe, o que aproxima bastante do filme etnográfico. Consideramos ajustado pensar no método como uma antropologia e uma etnografia dessas pessoas e desses lugares. Daí termos chegado à Antropologia Visual como metodologia.
A partir dessa definição, traçamos a grade de cursos. A saber: Roteiro (que inclui Pesquisa), Fotografia Básica (fotografando o bairro, os lugares de encontros, as pessoas etc), Linguagem Audiovisual (familiarização com o discurso cinematográfico), Antropologia Visual (campo e etnografia, descoberta do seu próprio lugar e os porquês da vida cotidiana), Câmera de Vídeo (Técnico), Som Direto (Técnico) e Edição (Técnico).
Esta formação é de educação continuada, ou seja, todos os alunos que entram em um curso, prosseguem nos outros. Em geral, a formação dura entre seis e dez meses.
Pesquisadora - O que os jovens mais registravam em seus vídeos?
Valdo Siqueira - Havia um "norte etnográfico" traçado pela instituição. A direção dada mirava o horizonte individual e coletivo, ou seja, o aluno partia de seus interesses para os interesses da comunidade. O ângulo norteador era o da observação participativa, ou seja, em que a subjetividade de cada indivíduo não era nunca negada, mas também se ajustava às necessidades do coletivo.
Por isso, de forma natural os próprios temas iam aparecendo, se mostrando como necessários para se estudar. Daí, surgiram as temáticas gerais: a pesca, o pescador, o peixe, o morro, as ruas do bairro e as relações de sociabilidade..
No primeiro ano, os alunos realizaram cinco vídeos, sendo três sobre as ruas do bairro e dois sobre o próprio bairro.
No segundo ano, foi gerada a primeira série de vídeos versando sobre temas correlatos: a pesca e o bairro. Daí, seus títulos: Os que trazem o peixe, Marisqueiras, Mucuripe, Barracão, entre outros.
No terceiro ano, o assunto "lixo" surgiu. Assim, foram feitos vários vídeos sobre o tema. No quarto ano, em conjunto com o Titãzinho e o Serviluz, se abordaram os temas ligados ao esporte nestes bairros, sobretudo, o surf (Surf de tábuas). Também, os curandeiros do bairro, a feira livre e etc.
No ano seguinte, a abordagem se deu em cima das galeras das comunidades, reunidas em torno das poéticas e expressões artísticas, tais como música - hip hop -, audiovisual (filmes do morro) e dança (quadrilha junina).
Pesquisadora - Eles se revelavam mais críticos depois das formações?
Valdo Siqueira - A criticidade de cada um era desenvolvida ao longo da formação, sem dúvida. Alguns dos textos lidos na formação estimulavam a crítica, porém, o veículo que mais
despertava esta criticidade era a televisão, mesmo porque os conteúdos abordados nos vídeos desafiam o modelo hegemônico de comunicação.
Pesquisadora - O que você apontaria que ficou mais claro na mudança deles?
Valdo Siqueira - Na maioria dos casos individuais há uma condução diferente dos objetivos de vida. Cada um deles aprende, à sua maneira, a representar um papel frente á comunidade à sociedade. Naturalmente, isso não ocorre com todos, ao contrário, apenas com alguns.
Pesquisadora - O trabalho na ONG Aldeia não é fácil É preciso lidar com o humor dos governos pare se manter como ONG atuante. Que gargalos você encontra nesse trabalho da ONG e o que a sociedade perde quando um trabalho como esse deixa de existir?
Valdo Siqueira - Deixe-me elaborar mais acerca disso pois este é o principal problema de hoje. A questão da descontinuidade da política e das gestões é, talvez, o aspecto mais perene destes nossos tempos. Desde que comecei a trabalhar com ONG, década de 80, isso ocorre. Em princípio, conta-se com este fato como certeza.
Com o tempo, se vê que existem "brechas" desse tempo, em que a ação das organizações sociais fica mais ou menos privilegiada.
Tem sido, portanto, um trabalho de resistir ao próprio tempo, uma das tarefas delas. Quem sabe, a principal. Fundei ou ajudei a montar cinco das doze ONGs que trabalharam com audiovisual na cidade. Destas, apenas duas ainda encontram-se ativas, apesar dos tempos difíceis. A maioria fechou ou mudou sua atuação para outra área de apoio ao social (que não o audiovisual). Quando você me propõe a ideia de gargalo, penso em sufocamento mesmo. Por vezes, sufocamento político.
Para além de qualquer compreensão, entenda-se essa questão por vários âmbitos. Há ONGs ligadas a políticos que estão funcionando ainda.
Há outras, que fecharam exata e justamente porque estavam ligadas a estes.
Naturalmente, estamos falando de tempos em que grupos políticos sucedem a outros, o que gera descontinuidade de algumas organizações, consequentemente fazendo diminuir a participação de parte da sociedade civil em ações sociais e políticas.
Este fato traz também a discussão do Estado na instrumentalização de grupos de pessoas, que normalmente são minoritários.
Como muitas vezes o Estado se exime deste fim, encontra-se em tais organizações um dos poucos amparos a estes grupos.
Neste sentido, posso considerar esta situação como o principal sufocamento.
Pesquisadora – Como foi o seu ingresso e como tem sido sua participação na ONG Aldeia? Valdo Siqueira – Entrei na Aldeia em 2004, como educador. Mas existe um período inicial
criação), quando fizemos muitas formações nas escolas do Vicente Pinzón (esqueci os nomes). Em 2005, entrei como conselheiro. No mesmo ano, passei a diretor. Nunca fui presidente e hoje ainda sou diretor financeiro. A Aldeia ainda existe, mas há quatro anos está em situação mais que precária.
Pesquisadora – Pra você o que podem as imagens?
Valdo Siqueira – Há muito o que se pensar sobre isto. Se uma imagem é uma representação,
posso admitir que nada daquilo o que se vê com os olhos se parece com a imagem que é feita disto. Acho que é o Bernard Shaw que fala algo sobre isso, mas não lembro exatamente como. É uma questão que remete a essência e aparência, ao Platonismo e seus mitos de imagens. Aquilo o que trata a manifestação imagética das coisas, como estas aparecem na realidade, a desnaturalização das mesmas, como dizia Marx. Nesta diferenciação, muitas vezes, se percebem valores, como a alienação, que esconde o real e o valor dele. O quanto mais nos tornarmos conscientes do que as imagens podem fazer de nós e do mundo, outros, tanto mais passaremos a autônomos delas. Mas isso parece complexo, não deveria ser, já que se discute a tanto tempo.
O fato é que um jovem da periferia, ao conhecer o mundo das imagens a partir de dentro, produzindo-a, toma contato com seus meandros e particularidades, mudando seu ponto de vista, mudando de lado, tornando-se sujeito ativo. Deixa de ser mero receptor.
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ANEXO I