Os depoimentos citados acima mostram que a vontade de ser cantador é comum entre garotos que admiram a cantoria. Mas seguir nessa atividade, sobretudo a profissionalização como cantador, não costuma ser um projeto de vida bem estruturado. Grande parte dos poetas é levada a assumir o papel de cantador quase que casualmente e depois prossegue na profissão. No caso de Raulino, alguns eventos o levaram à profissionalização. Ele já havia realizado algumas pequenas cantorias no sítio onde morava e houve nas redondezas um pé- de-parede com Geraldo Amâncio e Valdir Teles, cantadores de enorme fama, que reuniu um público considerável. Raulino era amigo do promovente e o desafiou: “eu tinha coragem de cantar um baião mais Geraldo ou Valdir”. A pedido do promovente, os dois aceitaram cantar alguns gêneros com o novato mais ao fim da cantoria. Com isso, Raulino ganhou a aprovação dos ouvintes do lugar. Meses depois haveria outra grande cantoria no mesmo local, desta vez com a dupla Raimundo Nonato e Nonato Costa. Mas Raimundo estava afônico e foram chamar Raulino para substituí-lo em função da boa repercussão dos baiões que cantara com Geraldo e Valdir. Após a cantoria, Nonato Costa incentivou Raulino a tomar o repente como profissão e Erocides Bezerra, um apologista de Mossoró (RN) que estava presente, o auxiliou no início dessa empreitada. Depois de residir em Mossoró (RN) e Natal (RN), mudou-se para Caruaru (PE), onde consolidou sua carreira como repentista profissional, e ali reside até hoje. Rogério Meneses (nascido em Imaculada Conceição, PB, em 1962) conta que sua família freqüentava cantorias e, no regresso a pé para casa, ele, seus tios e primos brincavam de improvisar versos. Nessas brincadeiras, começou a fazer versos que sobressaíam frente aos dos parentes. Assim, aos dezenove anos, um cantador faltou a um pé-de-parede em sua localidade e Rogério foi chamado para substituí-lo. Devido à timidez, recusou, porém amigos o desafiaram e prometeram comprar-lhe uma viola caso fizesse a cantoria. Ele cantou, mas nunca recebeu a viola. Passou a cantar com os repentistas de sua região até os vinte e dois de idade, quando foi convidado por Valdir Teles para apresentar-se em programas de rádio, o que lhe possibilitou seguir carreira como cantador profissional.
Lisboa mudou-se com a família de sua terra natal para Assu, e depois para a área rural de Mossoró (localizadas na região setentrional do Rio Grande do Norte). Por alguns anos, o contato com os cantadores diminuiu e, no novo local de moradia, não podia sintonizar as mesmas rádios de outrora. Com dezoito anos, não fazia mais versos nem tinha pretensão ou vontade de tornar-se cantador. Porém um amigo de infância quis ser cantador e saiu de Marcelino Vieira para procurá-lo em Mossoró com intuito de formarem uma dupla. Lisboa frustrou o amigo por algum tempo até que um outro jovem arrumou uma cantoria para os
dois em Baraúna (RN), cidade próxima a Mossoró, sem avisá-los e foi buscá-los portando duas violas para que se apresentassem. Cantaram a noite toda e, no dia seguinte, a dupla foi para a feira de Baraúna cantar em um bar. Daí, fizeram viagens para cantar pelo interior do estado e Lisboa estabeleceu-se posteriormente na cidade de Mossoró, onde se enturmou com os cantadores e passou a “viver da viola”.
Raimundo Adriano já tinha cantado alguns baiões em uma cantoria, mas foi substituindo um poeta faltoso que fez pela primeira vez uma cantoria por inteiro. Viveu exclusivamente da cantoria por algum tempo, até formar-se em letras e adotar o magistério como principal fonte de renda.
Zé Viola cantou poucas vezes em São Paulo até perder o emprego na indústria automobilística. Passou a fazer das cantorias um “bico”, que se tornou cada vez mais freqüente e promissor, até que deixou de buscar outros empregos e seguiu carreira como repentista, regressando depois ao Nordeste.
João Furiba, ainda moço, viajava para realizar cantorias e teve grande impulso profissional ao substituir um colega numa cantoria com o afamado Pinto do Monteiro (considerado por muitos o maior repentista da história) e com ele firmou uma parceria de décadas.
Em sua entrevista, Hipólito não menciona se sonhava em ser cantador quando pediu ao pai para botar cordas de viola no violão, mas certamente gostaria de fazer algo além de meramente brincar de desafios com irmãos e vizinhos. Passou a cantar sozinho de noite em seu quarto ou durante o dia na sombra de alguma árvore. Tinha quinze anos quando seu pai realizou uma cantoria em casa e disse aos cantadores que o menino estava cantando com viola. Nessa mesma noite, os poetas o chamaram para cantar alguns baiões, após os quais disseram que ele deveria ir logo para a cidade para “ser profissional”. Na semana seguinte, um deles veio buscar o garoto e o levou para morar em Picos (PI) para manter um programa na Rádio Difusora. Aí, a iniciativa partiu de um cantador mais experiente, como ocorreu com outros que também já faziam cantorias, como Sebastião da Silva. Foi um cantador amigo da família que pediu permissão a seu pai para viajar com ele e cantarem juntos.
Nos depoimentos citados, há exceções. Não por acaso os dois mais jovens estão entre elas. A profissionalização dos cantadores é fenômeno recente e a atividade começa a ser mais segura da década de 1970 em diante. Assim, Jonas foi sustentado e educado com os ganhos que a cantoria proporcionava ao pai. Para ele a cantoria não apenas se enquadrava num leque de profissões possíveis e desejáveis, mas também constituía a possibilidade de um devir glorioso, representado pelos troféus que via o pai carregar ao chegar em casa regressando de
festivais. Aos quinze anos, depois de cantar alguns baiões em cantorias de outros poetas, fez a primeira participação em um festival e então começou a realizar cantorias e seguir carreira como repentista.
Luciano, ao ganhar a viola do patrão de seu pai, almejava ser cantador profissional e passou a procurar oportunidades junto a repentistas no agreste pernambucano, especialmente os profissionais de Caruaru que freqüentavam a fazenda em que morou por muitos anos. Já Raimundo Caetano dedicou-se desde a infância a ganhar dinheiro com o repente. Começou quando tinha em torno dos dez anos e ainda jovem passou a viajar com outros cantadores. Para ele, a profissão da cantoria parece ter sido uma opção mais óbvia, pois já a vinha exercendo precocemente. Contribuiu para isso seu pertencimento a uma “família de cantadores”, que o apoiou para que se estabelecesse no campo profissional e o influenciou a adotar o “comportamento” adequado para o sucesso nesse meio.
Um cantador não é resultado de simples escolha e esforço individuais e nem costuma interpretar sua trajetória nesses termos. Alguns fatores contribuem para isso. A própria estrutura do ato de cantar, ao exigir um parceiro, requer o reconhecimento do noviço tanto pelos colegas quanto pelos ouvintes. A inexistência de uma formalização da formação dos repentistas – como há para médicos, antropólogos, músicos eruditos ou jogadores de futebol – implica que a iniciativa desse reconhecimento costuma vir dos outros (colegas mais experientes na maioria das vezes) e não do próprio cantador. Além disso, no que tange à reprodução material de uma família ou comunidade, o cantador não é nem necessário como é um pescador numa aldeia de pescadores nem um problema como tende a ser nesse contexto um homem adulto que não se engaje na atividade pesqueira. Assim, se não há restrições da família ao jovem que se torna cantador, também não costuma haver pressões ou imposições para que ele siga tal carreira. O discurso sobre o dom frequentemente acomoda os fatos. Para um cantador, não há qualquer demérito em não ter poetas entre seus filhos, pois, se eles não nasceram com o dom, não há o que fazer. Da mesma maneira, a figura do repentista geralmente é admirada pelas famílias que gostam da cantoria – das quais se originam a maioria dos repentistas – e a confirmação do dom por um repentista experiente (implícita, por exemplo, na proposta para levar um adolescente aprendiz em viagem) é bem aceita. Há padrões de inserção no universo da cantoria e de formação do cantador. A construção de uma carreira na cantoria, seja ou não como profissional, depende da conjunção de muitos fatores circunstâncias, dentre estes a capacidade para esta arte e seu reconhecimento coletivo.
Capítulo 3