A escola, para ser parte importante das estratégias de desenvolvimento rural, precisa construir um projeto educativo contextualizado, que difunda outra lógica de desenvolvimento apoiado nas alternativas ambientalmente sustentáveis, socialmente democráticas e economicamente justas, mas com qualidade de vida satisfatória ao homem/mulher do campo, haja vista o povo campesino possuir uma organização social adaptada às condições técnicas da produção agrícola, a um estilo de vida específico e a sociabilidade inerente a esse povo.
Para isto, a escola pode e deve se constituir no espaço dessa promoção, na medida em que assume também como proposta educativa as relações sociais de solidariedade e reciprocidade, ajude no desenvolvimento do espírito de liderança, reforce as relações afetivas e fortaleça as relações humanas, se caracterizando como um instrumento de sociabilização para esse grupo.
A importância de pensar a educação a partir das necessidades do homem/mulher, de definir diretrizes a partir de suas demandas existenciais e colocando à margem os meios para
82 sua sobrevivência, é fruto de um “ato-fato”, de vivências experimentadas na Escola Nossa Senhora do Carmo. Uma escola no campo, que busca ser do campo, ao delinear uma proposta pedagógica construída na tríade diagnóstico-reflexão-ação e que concebe o homem/mulher como possuidor de múltiplas dimensões. Um projeto social, que objetiva a conscientização da desumanização do homem/mulher do campo, na medida em que traz as relações sociais para o centro do fazer educativo sem desconsiderar, contudo, a influência do modelo de desenvolvimento econômico, onde o capital prevalece diante das relações humanas.
Nessa perspectiva, busca-se a cada ano, tomar um tema gerador e um valor ético para atravessar, servir de fio condutor de todas as ações pedagógicas.
O tema gerador e os valores são oriundos do diagnóstico vivenciado durante o ano e trazido para discussão na primeira semana de aula com alunos, professores, pais e funcionários. Ao se discutir sobre os problemas vivenciados na Escola, escolhe-se coletivamente sobre em que centraremos nossos esforços naquele ano letivo.
O tema gerador é dividido em três etapas: a primeira, dentro da Escola; a segunda, com a família e a terceira, nas comunidades. Cada etapa é trabalhada com sensibilizações, palestras, oficinas, dentro da Escola e nas comunidades.
O valor é trabalhado com um foco a cada bimestre. Assim, no primeiro bimestre, o foco do valor se dar na efetivação de ações dentro da Escola; no segundo bimestre, esse foco se estende com ações na família; no terceiro bimestre, esse valor se alarga para a comunidade e no quarto bimestre, finaliza-se com ações relacionadas ao meio ambiente.
O ano de 2012 tomou-se como temática escolhida para servir de tema gerador que atravessaria todas as ações pedagógicas os resíduos sólidos.
Na avaliação do processo pedagógico realizada no final do ano, evidenciou-se a necessidade de focar em uma ação educativa a questão do lixo ou a reabertura da Associação dos Agricultores da comunidade Chã de Lindolfo.
O trabalho com o lixo, pela preocupação e necessidade de desenvolver uma consciência ambiental, partindo do entorno da Escola, pelo fato de se perceber a falta de cuidados para com o meio ambiente, a partir dos lixos que as crianças soltam pelo meio do caminho entre a Escola e a comunidade, que muitos moradores do entorno da Escola queimam o lixo, pela exposição do lixo a céu aberto, da falta de coleta desse lixo, pela prefeitura, denotando uma falta de consciência dos problemas ocasionados pelo lixo nas condições em que se encontra na comunidade; outro trabalho que apareceu como desafio, foi a reabertura da Associação de Agricultores da Chã de Lindolfo, por descobrir que os
83 moradores agricultores dessa comunidade estão associados em comunidades vizinhas, pelo fechamento da associação na Chã.
Dentre essas duas perspectivas de trabalho, iniciamos o ano letivo, indagando aos alunos e pais quais dessas duas ações deveríamos centrar nossa proposta pedagógica. Ao final, tivemos como proposta escolhida a necessidade de se trabalhar as questões que envolvem o lixo.
Assim, no planejamento inicial do ano, sentou-se e se discutiu como construir a proposta pedagógica, levando em consideração a temática do lixo. Delineou-se como objetivo geral: Trabalhar a conscientização nos diversos níveis (escolar, familiar e comunitário) sobre o respeito e a preservação do meio ambiente, partindo do princípio de que somos agentes e pacientes das ações, para a continuidade da vida.
Para atingir esse fim, propõe-se como objetivos específicos: Orientar sobre o manejo adequado dos resíduos sólidos; realizar palestras sobre os impactos ambientais causados pelo lixo; desenvolver oficinas sobre os três “R” (reduzir, reutilizar e reciclar); incentivar a coleta seletiva.
O projeto foi realizado em três etapas, vivenciadas em todos os níveis de ensino. A primeira, o campo de atuação foi na Escola, onde se trabalhou na perspectiva de conscientizar os alunos quanto aos impactos ambientais causados pelo lixo, bem como da importância da coleta seletiva, na conscientização da redução do lixo para a preservação e continuidade da vida e do planeta. Para isso, realizou-se palestras dentro dos temas abordados, visitas à comunidade e a realização de oficinas, tendo como produto final a construção de cestos de lixo, vassouras e pás recicladas, para a Escola. A segunda, o campo de atuação foi na Família, onde se trabalhou com as mesmas perspectivas trabalhadas na Escola. Realizaram-se palestras dentro dos temas abordados, visitas às famílias e oficinas com garrafas pet na construção de vassouras e pás, para as famílias. A terceira etapa, o campo de atuação foi nas Comunidades (Conjunto Major Augusto Bezerra, Chã do Lindolfo, Monte Carmelo, Chã de Imbiriba e Caraubinhas), onde se trabalhou na perspectiva de conscientizar as comunidades citadas quanto aos impactos ambientais causados pelo lixo, bem como da importância da coleta seletiva, conscientização da redução do lixo para a preservação e continuidade da vida e do planeta. Para isso, realizaram-se palestras dentro dos temas abordados, visitas às comunidades citadas e oficinas.
Partindo-se de um dos princípios da Escola que busca uma educação que ofereça uma ampliação de conhecimentos não apenas intelectual, mas humanístico, abrindo novos
84 horizontes para que os alunos tenham a consciência de seus valores e os levem à responsabilidade na construção de um mundo novo, mais fraterno, mais justo e solidário, trabalhou-se com o valor Solidariedade, escolhido pelos alunos, pais e professores, visando o fortalecimento e reconhecimento desse valor para a construção de um mundo de paz e fraternidade.
No primeiro bimestre, abordou-se o valor solidariedade, com o objetivo de entender o que é ser solidário, na visão humana e espiritual, despertando nos educandos uma consciência solidária. Foram constituídas ações solidárias, em que se precisa melhorar dentro da Escola, tais como: emprestar o material ao colega quando necessitar, ajudar o colega em suas dificuldades, ajudar a manter a Escola limpa, etc.
No segundo bimestre, abordou-se o valor solidariedade na família, tendo o objetivo de despertar nas famílias a consciência desse valor em nossas ações como ser humano, sabendo que é dentro de casa que os filhos devem aprender a ser solidários, através dos exemplos dos pais, pois a família é a base fundamental. Elencou-se como ações a serem vividas na família, após uma reunião na Escola, que os pais ajudassem mais os filhos em suas atividades escolares, que as crianças ajudassem os pais nos afazeres domésticos, que as famílias dialogassem mais entre si.
No terceiro bimestre, abordou-se o valor solidariedade na comunidade, a fim de saber o quanto é importante se ter uma comunidade que vive a solidariedade. Para tanto, se buscou como ação a ajuda ao vizinho necessitado, socorrer um morador em uma emergência, alargar mais as relações na comunidade, convocar uma reunião com os candidatos a prefeito para se ouvir seus planos de governo e saber do que pensavam concretamente para a questão dos resíduos sólidos no município.
No quarto bimestre, foi abordado o valor solidariedade no meio ambiente, com o intuito de levar os/as educandos/as a reconhecer o meio ambiente como um lar compartido, um bem coletivo onde não somos os donos, mas seus dependentes. Que há uma intrínseca relação de causa e consequência entre nós e o meio ambiente. Quanto mais cuidarmos bem dele, mas teremos qualidade de vida. Como ação concreta realizou-se a coleta de lixo jogado no meio ambiente, nas comunidades.
No ano de 2013, o tema gerador escolhido foi a água e o valor escolhido foi o do respeito.
Com o objetivo de integrar a realidade vivida do educando e o currículo, de ligar teoria e prática educativa, diagnosticou-se vários problemas enfrentados nas comunidades, dentre
85 eles, o problema que as comunidades estão enfrentando pela falta d’água. Essa percepção desencadeou uma série de outros levantamentos, como a falta de solidariedade na partilha da água nas cisternas comunitárias, a falta de uma conscientização sobre a higiene, o consumo e sua preservação, bem como a ausência de uma conscientização crítica sobre o problema social e político da água.
Escolhida a temática, partiu-se para a construção de um projeto. Sentou-se e se planejou como seria desenvolvido, quais os objetivos, onde, quando, quem e como seriam as ações.
Delineou-se como objetivo geral trabalhar a conscientização sobre a água enquanto um bem universal nos níveis: escolar, familiar e comunitário. Para atingir esse fim, foram definidos alguns objetivos específicos: orientar sobre a higiene, o consumo e a preservação da água; realizar palestras sobre higiene, o consumo e a preservação da água; desenvolver oficinas sobre higiene, o consumo e a preservação da água; despertar uma consciência política sobre o uso da água enquanto bem mercadológico.
O ser humano com sua inteligência tem criado instrumentos e modificado as coisas do mundo, para lhe proporcionar bem estar e prazer.
Ao longo dos anos tem feito isso em busca da felicidade. Imbuído desse objetivo, tem deslizado incessantemente seu desejo, passando a sobrepor o ter diante do ser.
Nessa corrida, volta-se para si, onde importa sua felicidade e sua vontade, se tornando egocêntrico e competitivo. Com isso, tem se distanciado de valores que promovem o bem comum, como o respeito, valor essencial para uma vida em sociedade, uma vez que não vivemos isoladamente e que precisamos uns dos outros para sobreviver.
O respeito influencia diretamente os relacionamentos que a pessoa tem consigo própria e com o mundo à sua volta, promove a harmonia nas relações interpessoais e o bem estar social, evita muitos conflitos e desenvolve a responsabilidade em sua integralidade.
Hoje em dia, temos visto uma banalização muito grande desse valor entre pais e filhos, alunos e professores, marido e mulher, amigos, colegas de trabalho, até entre desconhecidos.
Nessa perspectiva, por uma escolha coletiva entre Escola, pais e comunidade, de qual valor centraríamos nossos esforços para fortalecê-lo, o valor respeito foi o escolhido.
Para tanto, o trabalho pedagógico em torno desse valor foi desenvolvido em quatro focos, de acordo com os bimestres letivos.
No primeiro bimestre, o valor do respeito foi fortalecido dentro da Escola, com o objetivo de desenvolver esse valor primeiramente consigo (focando a higiene pessoal, a
86 alimentação, a autoestima); depois, com os colegas, com o espaço escolar, com os professores e funcionários. Para tanto, constituiu-se como ações fortalecedoras do respeito não xingar o colega, não chamar palavrão, não brigar, não riscar as paredes e carteiras, ouvir os professores e funcionários; bem como desenvolver atos de gentileza como bom dia, boa tarde, com licença, obrigado/a.
No segundo bimestre, esse valor se estendeu à família, com o objetivo de melhorar as relações familiares, construindo como ações de respeito a harmonia no lar, o diálogo na família e a responsabilidade dos pais em acompanhar mais de perto a vida dos filhos.
No terceiro bimestre, com o foco desse valor voltado para a comunidade, desenvolveu- se como ação respeitar o vizinho em seus limites, contribuir na união da comunidade, ajudar no que for preciso e participar das reuniões da comunidade.
No quarto bimestre, com o valor do respeito relacionado ao meio ambiente, com o objetivo de preservá-lo, entendendo que o meio se estende a tudo o que nos rodeia, daí a importância de viver o respeito com os animais, com as plantas, com os órgãos públicos (bancos, correios, lotéricas, hospitais, ônibus, escolas).