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1952 - Náusea (conto). Revista Mensagem, Luanda.

1957 - Quatro Poemas de Agostinho Neto. Luanda: Póvoa do Varzim. 1961 - Poemas, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império.

1963 - Con occhi asciutti (Com os olhos secos), Milão [coletânea de poemas traduzidos para o idioma italiano por Joyce Lussu].

1974 - Sagrada Esperança, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros).

1976 - Poemas de Angola (prefácio de Jorge Amado). Rio de Janeiro: Editora Codecri.

1982 - A Renúncia Impossível, Luanda, INALD (edição póstuma). Política

1974 - Quem é o inimigo… qual é o nosso objectivo? [Conferência feita na Universidade de Dar Es Salam, Tanzânia, 07/02/74, 26 p.].

1974 - Alguns aspectos da luta de libertação nacional na fase atual. Lisboa: União dos escritores angolanos, 1974.

1976 - Destruir o velho para construir o novo. Luanda: Departamento de Informação e Propaganda.

1977 - Sobre o fraccionismo: o discurso do presidente da RPA. e do MPLA Cda.

Agostinho Neto, proferido em 12/06/1977 na Cidadela. Luanda: Publicações

Gama; Ministério da Defesa.

1978 - Relatório do Comitê Central ao 1o Congresso do MPLA. Lisboa: Edições

“Avante!”.

1978 - Sobre a literatura. Luanda: União dos escritores angolanos, “Cadernos Lavra & Oficina”.

1979 - Sobre a cultura nacional. Luanda: União dos escritores angolanos, “Cadernos Lavra & Oficina”, n. 15.

1980 - Ainda o meu sonho.

1980 - La lucha continúa. Tradução J. A. Goytisolo e X. L. García. Barcelona: Editorial Laia, 1980.

1985 - Sobre a libertação nacional. Luanda: União dos escritores angolanos. 9) Fontes e bibliografia

SÃO VICENTE, Carlos. ‘Agostinho Neto e a liderança da luta pela independência de Angola, 1945-1975’. In: Agostinho Neto e a libertação de Angola (1949-

1974) – Arquivos da PIDE-DGS. Volume I, 1949-1960. Luanda: Fundação

Agostinho Neto, pp. 07-474, 2012. 10) Website

Agostinho da Silva: entre alguns aspectos biográficos e outras questões contextuais.

O exílio torna-se o seu destino pessoal, sofrendo duplamente a amargura de uma pátria a seus olhos torta e incorrigível e a amargura da ausência desta, duplo húmus onde frutificará a sua obra posterior, cruzando e unindo o lirismo melancólico motivado pela ausência da pátria ao revolucionarismo cultural das suas ideias de correcção da história de Portugal. Ao exílio acresce, não raro, um exílio interior, psicológico, elevando as múltiplas carências econômicas sofridas e a consciência da insatisfação pessoal à figura de um calvário resignado como resgate do estado decadentista de Portugal.

Miguel Real130

“Quando chegou a minha hora de nascer no céu das ideias, estava atento ao globo terrestre que ia passando pela frente à espera de encontrar uma terra que me agradasse. E, como eu, estavam outros: quer dizer, toda a gente escolhe o lugar onde nasce. Que nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do Céu para a Terra, como dizia Platão... Não senhor, eu o que escolhi foi Barca de Alva, que é a última terra portuguesa antes da fronteira com Espanha, isto é, logo a seguir à Espanha. Mas é muito difícil fazer o cálculo matemático necessário para de um corpo em movimento, como é o Céu, ir acertar noutro corpo também em movimento que é a Terra. Então os calculistas lá se enganaram e eu fui parar ao Porto. Mas, logo que foi possível, repararam o erro e apenas com alguns meses de idade fui realmente crescer para Barca de Alva. Fiz o curso no Porto, andei por toda a parte quanto é mundo, mas a minha terra continua a ser Barca de Alva” (SILVA, 1994, p. 16). Esse é o modo pelo qual o próprio George Baptista Agostinho da Silva descreveu a sua relação com sua terra natal e com o lugar onde cresceu e foi criado. Nasceu na atual travessa de Nova Sintra, no bairro de Campanhã, situado na freguesia do Bonfim, na cidade portuguesa do Porto a 13 de fevereiro de 1906, mas mudou-se cerca de seis meses depois para Barca d´Alva, na freguesia de Escalhão, concelho de Figueira do Castelo Rodrigo, na Beira Interior, Alto Douro.

Barca d´Alva é uma cidade que desde muito tempo vive da prática agropecuária, seja para o consumo interno ou para a exportação, tendo por destaque os seus olivais que produzem alguns dos melhores azeites do mundo, além dos vinhedos donde provém

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o famigerado vinho do Porto. Desse modo, essa localidade mantém uma íntima relação tanto com a cidade do Porto como com a Espanha, já que ela abriga o cais fluvial limítrofe da navegabilidade do rio Douro que começa na sua foz, na região portuense, mas é também o último reduto português antes da fronteira com seus vizinhos ibéricos. Contudo, desde o final do século XIX, a sua principal disposição passou a ser o transporte ferroviário. Do mesmo modo que ocorreria às colônias africanas na primeira metade do século seguinte, o incremento dos caminhos de ferro alterou a paisagem e a vocação de Barca d´Alva: em 1887, ou seja, cerca de apenas vinte anos antes do nascimento de Agostinho da Silva, a linha do Douro (estrada de ferro que liga Ermesinde, no Porto, à Barca d´Alva) havia sido concluída, tornando-se uma ligação internacional que unia Portugal à Europa através de vários entroncamentos na Espanha131. Desse modo, a sua ida precoce para essa cidade foi motivada pela transferência do seu pai, Francisco José Agostinho da Silva, da cidade do Porto para a delegação da fronteira, onde passou a atuar como inspetor alfandegário.

Os fluxos de Agostinho da Silva entre essas duas localidades (nasceu no Porto, passou a infância em Barca d´Alva e regressou à cidade natal para fins educacionais) teriam o instigado a muitas das suas idiossincrasias, seja em termos pragmáticos, simbólicos ou histórico-ancestrais, todas elas responsáveis por proporcionar vivências e instigar leituras da realidade que amadureceriam bem mais tarde.

Apesar de nascido no Porto, Barca d´Alva foi o seu berço na prática, pois “ali cresceu o essencial de Agostinho (...) bilíngue de português e castelhano, vendo fronteira como traço de distinção e união, não de separação” (AGOSTINHO, 2007a, p. 221) e tendo por isso nutrido desde cedo os alicerces daquilo que posteriormente se desenvolveria como um pensamento francamente hispânico ou iberista – ou seja, que compreende o substrato cultural dos países ibéricos (ou da antiga Hispânia romana) como um elemento que os distinguiam dos países além-pirinaicos da Europa do norte.

Em termos simbólicos, trata-se do lugar onde ele passara a infância e donde constantemente se voltava para resgatar a sua criança interior132. Mas Barca d´Alva

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“Em 23 de Julho de 1883 foi decretada a construção até Barca d´Alva e sucessivamente abertos à exploração (...). Em 09 de Dezembro de 1887 inaugurava-se o último laço da linha do Douro, do Pocinho a Barca d´Alva, e a ponte internacional sobre o Águeda, facilitando-se deste modo as relações com a Espanha, ao mesmo tempo [em] que se ligavam o Porto e o Minho com o Alto Douro e Trás-os-Montes” (TORRES, 1958, p. 93).

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O tema da infância, tão caro ao pensamento pós-exilar de Agostinho da Silva [“crianças que são, como Jesus perfeitamente o viu, os únicos sinais que do céu nos restam para a vida quotidiana” (SILVA, 1999b [In: Cristianismo e escola, 1955], p. 113)], também é compartilhado e preconizado pelos intelectuais mensageiros, pois “numa primeira fase, estes poetas pretendiam acordar o povo angolano e recuperar as

também foi o local onde Agostinho desde cedo vivenciou os festejos do Espírito Santo, os quais, como veremos, serão reencontrados no exílio e inspirarão a originalidade do seu pensamento em sua fase mais madura133.

A calmaria característica deste ambiente rústico, místico e limítrofe como era Barca d´Alva teria influenciado o modo pelo qual Agostinho da Silva interpretaria muitos dos significados dos entre-lugares em que esteve na maior parte da sua vida, pois

O que encantou Agostinho foi sem dúvida o primitivismo rural em que teve a felicidade de crescer, associado ao encanto bucólico das paisagens campestres, e o lugar privilegiado da sua localização fronteiriça, que o pôs desde muito cedo na confluência de duas pátrias e de duas línguas distintas, ajudando-o a evoluir para o iberismo que teorizou e defendeu (MANSO, 2000, p. 21).

Entretanto, se o papel do seu pai foi fundamental para criar a ambiência da sua infância em Barca d´Alva, ocasionada pela transferência do seu posto de trabalho para esta localidade, a metáfora atribuída à sua mãe, Georgina do Carmo Baptista Rodrigues da Silva, seria destacada nas leituras feitas por Agostinho da Silva sobre o seu próprio processo formativo em suas influências histórico-ancestrais. Tal leitura retrospectiva se alicerça em dois aspectos de grande importância para a configuração e originalidade do seu pensamento, nomeadamente, a sua ancestralidade sulista, e a sua relação pregressa com o Brasil. Segundo o próprio Agostinho afirma nA última conversa,

A minha mãe, embora alentejana de nascimento, tinha estado no Brasil durante uma longa temporada e conviveu com gente italiana bastante culta para a época, com quem aprendeu bastantes coisas, sobretudo de carácter prático. Portanto, depois, quando chegou a Barca d´Alva, como não havia escola e a casa da alfândega tinha uma sala disponível, resolveu utilizá-la para dar aulas aos meninos da terra que quisessem, contanto que trouxessem um banquinho, pois nem banquinhos havia! (SILVA, 2000a, p. 28).

raízes (repensar a identidade), sendo que os temas principais eram a infância (lugar mítico, ausência de raças e preconceitos, e igualdade como nos poemas ‘Serão de Menino’ de Viriato da Cruz ou ‘Naufrágio’ de António Jacinto), a filiação africana (Mãe-África, como no poema ‘Mamã Negra’ de Viriato da Cruz) e a proclamação da africanidade do sujeito de enunciação” (AIRES, 2015, p. 405, grifo nosso).

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“O lugar de Barca d´Alva (...) impôs-se ao jovem Agostinho como um espaço para o pensamento encontrar o seu território, para ancorar, sem fixar, a passagem de Deus na sua viagem criativa pelo mundo. (...) Foi desse olhar, sobre Barca d´Alva, janela para a visão de Deus, que Agostinho abriu a janela para a criança, nas festas do Espírito Santo, aprender a ser Deus, fundar os Tempos de Ser Deus. E não tendo paraíso, Barca d´Alva impôs-se como a paisagem-inocência em que o pensamento colheu o que é Alto e puro para com eles se inspirar” (SANTIAGO, 2009, p. 59).

O excerto acima ilustra, ao mesmo tempo, a exaltação da sua origem sulista algarvia e alentejana na qual valoriza o amálgama maometano134 dos seus antepassados, bem como mostra as suas relações ancestrais com o Brasil135. Mas ele também suscita o papel que a sua mãe teve na sua educação fundamental. Desde os seus primeiros anos de vida até o momento em que migrou para o Porto, em 1912, ela foi a responsável pela sua escolarização e a das demais crianças de Barca d´Alva, pois àquela altura inexistiam escolas nessa cidade. Numa sala improvisada na alfândega, Georgina do Carmo reunia as crianças do lugar para lhes ensinar as primeiras letras. Foi então graças à sua mãe que Agostinho da Silva, aos quatro anos de idade, alfabetizou-se e “já lia com fluência (...) a

Bíblia do padre Pereira de Figueiredo e uma selecta literária com trechos de Vieira,

Bernardes, Frei Luís de Souza e Filinto (...) e que terão sido, (...) ao que parece, as [suas] primeiras leituras autônomas” (FRANCO, 2015, p. 31). Por essa mesma época, de filho único-primogênito passou a dividir o lar com a sua irmã, Maria Cecília, nascida em janeiro de 1909. Agostinho da Silva também teve outra irmã, Estefânia Estrela, mas que morreu precocemente, apenas dezoito meses após o nascimento.

Após os aprendizados escolares obtidos com a mãe em Barca d´Alva, Agostinho da Silva regressou à cidade natal em 1912 a fim de obter educação institucionalizada. Lá ele teve experiências acadêmicas várias, tendo cursado desde o ensino primário, passando pela escola técnica, pelo liceu e pela Faculdade de Letras, migrando posteriormente para Lisboa onde frequentou a Escola Normal Superior.

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Sobre a presença muçulmana em Portugal é importante lembrar que “pelo menos até ao fim do Estado Novo, [os estudos árabes estiveram] condicionados política e diretamente por uma produção identitária que se esforçava, antes de mais, por ligar atavicamente Portugal à Europa e que, por isso, negligenciava ostensivamente a ‘herança árabe’ ou, quando não, a incluía na retórica patriótica da Reconquista. (...) [Porém,] Depois do 25 de Abril em Portugal, como em Espanha depois da queda de Franco, multiplicam-se as investidas nos estudos e no interesse pela herança árabe. A ruptura, a mudança e a incerteza levavam então à procura de modelos de regeneração – nacionais e regionais – nos quais podemos detectar semelhanças com a cultura liberal fundada pelo romantismo oitocentista” (SILVA, 2005, p. 792-793). Ou seja, a ênfase recente na reconstrução das identidades locais/regionais e a noção de heterogeneidade cultural podem ser interpretadas como uma tentativa de aproximação da Comunidade Europeia por parte dos países ibéricos, desde a década de 1980, a partir de um discurso multiculturalista. Contudo, Agostinho da Silva foge a este padrão, pois a aproximação das suas ideias “com o pensamento de Gilberto Freyre se manifesta pela sua interpretação da história portuguesa, na qual defende a anterioridade do contato lusitano com outros povos e sua consequente participação na formação de sua gente” (OLIVEIRA JUNIOR, 2010, p. 88), nomeadamente, a dos norte-africanos-islamizados.

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“A minha gente é toda do Sul. (...) Se eu fosse ao Algarve (...) encontrava-me também chamado por aquele mar, por aquela costa admirável, porque minha gente também foi de lá. Se vou para o Alentejo, donde é outra minha gente, que foi pastora por lá, eu naturalmente também me sinto do Alentejo. (...) Pois [o avô] era militar e estava colocado no Alentejo, mas devia descender dalgum riquíssimo maometano (...) a verdade é que teve que sair daqui e foi experimentar o Brasil, onde também não se deu bem, e acabou por voltar” (Agostinho da Silva apud FRANCO, 2015, p. 18).

A educação primária de Agostinho se deu na Escola de São Nicolau, em 1913, onde apresentou um ótimo rendimento. No ano seguinte, intencionado a ingressar na marinha, matriculou-se na Escola Técnica Industrial Mouzinho da Silveira. Porém, o seu precoce desinteresse levou-o a gazetear com frequência pelas ruas do Porto, resultando em insucesso e baixo aproveitamento escolar. Em 1917 o seu pai resolveu matriculá-lo no Liceu Rodrigues de Freitas, local onde voltou a apresentar ótimo desempenho acadêmico e que frequentou até ingressar na faculdade, em 1924, tendo-o concluído com nota máxima.

O período que vai do letramento de Agostinho da Silva até os seus primeiros anos na faculdade é perpassado por diversas reviravoltas políticas no seu país e no mundo, começando pela instauração da muito instável primeira república em Portugal:

A atribulada história da Primeira República Portuguesa passou por três grandes fases. Na primeira, de 1910 a 1917 – a ‘República Forte’ –, o novo regime justificou-se e argumentou-se à mercê de uma atitude agressiva e pouco contemporizadora, tanto no interior como no exterior. Na segunda, de 1917 a 1919, dominado pelas forças de direita e subjugado pelas consequências desastrosas da guerra, tentou enveredar por caminho diferente, que se revelou então impossível. Finalmente, na terceira, de 1919-1926 – a ‘República Fraca’ –, aceitou compromisso atrás de compromisso, abandonando, na prática, os princípios revolucionários de 1910 e renovando toda uma política de hesitações e incoerências que caracterizara os finais da Monarquia (OLIVEIRA MARQUES, 2000, p. 293).

O ânimo republicano foi acompanhado por um espírito fortemente racionalista e anticlerical, o que acabou suscitando, além das manifestações políticas, expressões de cunho artístico-cultural. Este é o caso da Renascença Portuguesa, mobilização transcorrida no mesmo ano da eclosão do novo regime, em 1910. Trata-se de um movimento que, segundo um dos seus principais idealizadores, Jaime Cortesão, nasceu com o propósito de “dar conteúdo renovador e profundo à revolução republicana”. A partir de reuniões realizadas em 1911, o movimento passou a ter como desígnio “promover a maior cultura do povo português por meio da conferência, do manifesto, da revista, do livro, da biblioteca, da escola, etc. ou, no sentir de [Teixeira de] Pascoaes136, um dos seus princípios mentores, ‘revelar a alma lusitana, integrá-la nas suas qualidades

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“Teixeira de Pascoais, diretor literário da revista A Águia e figura proeminente do grupo Renascença Portuguesa, era um poeta e prosador parnasiano que adotou a filosofia de Bergson, rejeitando a concepção mecanicista da realidade e aceitando a ideia da fusão do mundo da natureza e da alma dentro de uma visão panteísta. Pascoais criou biografias romanceadas de santos, de Napoleão e de Camilo. Previa uma futura civilização gloriosa para Portugal” (LOBO, 2001, p. 63).

essenciais e originárias’” (BRIOSA e MOTA, 2007, pp. 139-140). Nutriam grande apreço pelo Brasil, como se pode ler nas páginas do periódico A vida portuguesa137.

Tendo havido desentendimentos a partir de 1912, o movimento distendeu-se em duas tendências: uma “progressista” e outra “saudosista”, o que acabou por influenciar profundamente os debates políticos e ideológicos da primeira metade do século XX138.

A queda da monarquia em 1910 também contribuiu para a transformação cultural em Portugal noutro aspecto, pois muitos dos intelectuais emigrados retornaram ao país, sobretudo a partir da eclosão da primeira grande guerra, em 1914, trazendo consigo ideias (literalmente) modernas.

Logo, surge, em Portugal, um grupo de jovens escritores, pintores e entusiastas da arte interessados em fundar uma revista para ilustrar e defender os valores estéticos da modernidade e proceder a uma intervenção na história da cultura de Portugal. A ideia de criar uma revista parece ter surgido e tomado forma no outono de 1914 (...), e logo a revista ganhou um nome, sugerido, provavelmente, por Fernando Pessoa: Orpheu (MATOS, 2015, p. 04).

Apesar de sua existência efêmera, a revista Orpheu influenciou toda a literatura de expressão portuguesa ao introduzir-lhe os paradigmas do modernismo, além de suscitar e ter tentado promover a continuidade da articulação cultural luso-brasileira, já que ela era veiculada em ambos os países, num diálogo legado desde pelo menos as gerações de 1870139. Além disso, essa menção é importante para lembrarmos que a geração d´Orpheu foi deveras importante em todo o mundo atlântico ao longo de boa parte do século XX, já que influenciou tanto os poetas mensageiros de Angola como Agostinho da Silva, cujo pensamento inspirou-se na mensagem de Fernando Pessoa.

A despeito de ter favorecido o regresso de muitos dos intelectuais que revolucionaram a cultura portuguesa, a primeira grande guerra acabou por aumentar o

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“Passa hoje para a nação Brasileira mais um aniversário da proclamação da sua República. É êste, pois, para o Brasil um dia de íntimas recordações e profundos ensinamentos. E por isso mesmo é que nós, sem motivos que não sejam os da estreita comunhão que dá a identidade de raça, saudamos o grande povo com entusiasmo e esperança. Ele tem sido um ramo agradecido e generoso que nem ao volver-se mais potente que a árvore-mãe a há repudiado. Demos-lhes sempre, nos seus momentos de alto regosijo (sic), a consagração do nosso respeito e a certeza da nossa solidariedade” (CORTESÃO, 1912b, p. 01).

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Sobre esse movimento ver: SANTOS, Alfredo Ribeiro. A Renascença Portuguesa: um movimento

cultural portuense. Porto, 1990. 139

“Encontram-se esboços de sociabilidades entre intelectuais portugueses e brasileiros e conteúdos que permitem indicar temas significativos da intervenção pública da Geração de 70 e suas relações com a Geração de 70 brasileira, indagando da continuidade da sua ação nos anos 90 e no início do século XX. Sociabilidades marcadas pela definição de um espaço público e de uma produção periodística e que apontam profícuas ‘relações atlânticas’” (NEMI, 2006, p. 59). Ver também: MINÉ, 2006.

poderio do exército em Portugal, que, somado aos avanços nas campanhas coloniais, acabaria por transformar essa instituição numa força política fundamental para sustentar o golpe e dar respaldo ao Estado Novo alguns anos mais tarde140.

Contudo, desde os primeiros momentos sob a autoridade republicana, os monarquistas nunca deixaram de tentar recuperar o poder por diversos meios. Nesse sentido destaca-se a figura de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro, quem “em nome da fidelidade às instituições realistas, combateu a instauração do novo regime. Começando a aceitá-lo, cedo se rebelou contra o governo provisório e partiu para Galiza, onde organizou duas invasões no território nortenho, em 1911 e 1912, que acabaram saldadas por um rotundo fracasso” (COIMBRA, 2000, p. 226). Outro ator social que tentou impor uma ‘monarquia orgânica, antiparlamentar, descentralizada e tradicionalista’ foi o Integralismo Lusitano que, “organizados, a partir de 1914, em movimento, os integralistas vão iniciar a sua campanha no campo de luta ideológica, e é nesse terreno que vão se situar nos três primeiros anos da sua existência” (PINTO, 1982, p. 1416). “A actuação política organizada do integralismo lusitano só porém se viria a exprimir com relevância a partir de finais de 1917, com a vitória da revolução sidonista141. (...) Com efeito, o sidonismo virá permitir (...) a concretização das suas manobras de influência e intriga palaciana” (CRUZ, 1981, p. 141-142). O assassinato de Sidónio Pais, apenas um ano após o golpe que o pôs no poder, fez ascender uma guerra civil entre republicanos democráticos e monarquistas pela sua sucessão, resultando na instauração de uma monarquia no norte do país, embora “demasiado curta e conturbada para qualquer

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