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Del 2 - Mulighetsstudie rundt bruk av batteri

No primeiro capítulo de A viúva Simões, o narrador fornece descrições díspares da protagonista, por meio das quais deixa transparecer o real inconformismo desta para com o papel desempenhado como dona de casa. Ernestina é apresentada como uma menagère exemplar, envolta nas obrigações domésticas, e encarna o discurso higienista, segundo o qual a mulher tem um papel diferente do homem na sociedade. Ela dedica-se com afinco a tais atividades, que lhe ocupam as horas e limitam seus devaneios. Sendo assim, “[a]pesar de moça e de rica, a viúva Simões raras vezes saía; dedicava-se absolutamente à sua casa, um bonito chalé em Santa Tereza. Vivia sempre ali, inquirindo, analisando tudo num exame fixo, demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados” (ALMEIDA, 1999, p. 35).

A reclusão ao ambiente privado e a “obsessão quase neurótica”, (ALMEIDA, 1999, p. 36), que devota a ele, visa manter uma boa reputação. Bachelard (2008, p. 20) nos diz que,

141 “[a]nalisada nos horizontes teóricos mais diversos, parece que a imagem da casa se torna a topografia de nosso ser íntimo”. Nesse sentido, a rigidez com que Ernestina trata este espaço, mantendo-o sempre sob supervisão, é a mesma a que se impõe por meio da manutenção do luto, querendo dar a impressão de mulher correta, que exerce as funções que lhe cabem dentro da família. É importante lembrar que este comportamento é valorizado e recomendado pelo discurso oficial (filosófico, teológico e científico) na sociedade oitocentista como forma de ocupar a mulher e mantê-la afastada das tentações.

No interior era um chuveiro de recriminações. A cozinha tomava-lhe horas. Passava os dedos nas panelas e nos ferros do fogão, a ver se estavam limpos; cheirava as caçarolas; obrigava a Benedita a arear de novo os tachos e grelhas, a lavar a tábua dos bifes e o mármore das pias e da mesa. Se havia alguma torneira pouco reluzente ou alguma nódoa no chão, detinha-se, exigindo que se corrigisse a falta logo ali, à sua vista (ALMEIDA, 1999, p. 36).

Na citação anterior, percebemos que o espaço é descrito em função do trabalho nele realizado, não podendo ser caracterizado, portanto, como um lugar prazeroso. Além disto, conforme afirma Santos (2011, p. 50), o narrador descreve as atividades da viúva por meio de verbos no pretérito imperfeito, ressaltando a repetição exaustiva das tarefas e, com isso, confere um tom enfadonho às atividades cotidianas. Verificamos que esse enfado e a insatisfação com a rotina vêm à tona nas horas de calmaria, nas quais a viúva se entrega a lembranças e idílios irrealizáveis.

Tinha de vez em quando as suas horas tristes, em que a inteligência se lhe revoltava contra a monotonia daqueles meses que se desfolhavam iguais em tudo, sempre iguais… O corpo cansado não reagia, e o pensamento nadava preguiçosamente em idéias vagas, coloridas pelo romantismo da idade em que as alegrias e entusiasmos da mocidade já não existem, e em que as frieza da velhice ainda não chegaram… (ALMEIDA, 1999, p. 37).

Tal descrição permite-nos inferir que Ernestina tem por volta de seus 35 anos, ou seja, para época, já era considerada uma senhora, o que o título de viúva referendava. Em contraposição à mulher enérgica descrita inicialmente, temos uma caracterização romantizada da protagonista, dotada agora de gestos lânguidos, de um olhar perdido na paisagem, como a habitar um mundo imaginário, constituído por devaneios.

Voltando-se para o sonho, ela continuou imóvel, com os membros lassos estendidos sob as roupagens longas e negras de seu ainda rigoroso luto de

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viuvez, e pôs-se a seguir com o olhar, que o pensamento erradio tornava ora abstrato, ora pensativo, uma barquinha de velas pandas que deslizava lá embaixo, isolada e pequenina, na solidão das águas (ALMEIDA, 1999, p. 39); [...]

A viúva deixava-se, preguiçosamente, no mesmo lugar, a idéia longe, a carne afagada pela doçura inigualável do inverno fluminense e os olhos errando pelo que a natureza pode ter de mais idealmente formoso! O pensamento ia, ia... (ALMEIDA, 1999, p. 42).

Em outro momento, a voz narrativa faz uso de elementos de forte apelo sensual na descrição da personagem quando se refere ao seu corpo e a aproxima da natureza pela comparação com um pomo verde, enfatizando a delicadeza de sua pele, o tom de sua voz e de seu gesto. Esta sensualidade característica, dado o seu tipo moreno, de brasileira, contrasta, na visão cientificista da época, com o temperamento frio, a calma e o ar de autoridade por meio do qual se impõe aos criados.

A viúva já não tinha a frescura da primeira mocidade, mas era ainda uma mulher bonita. Era alta e esbelta e tinha um par de olhos pretos belíssimos e uma pele morena delicadamente penujenta e macia.

A sua carne já não tinha a rijeza do pomo verde, que resiste à dentada, e caía sobre ela toda um ar de moleza, de doce cansaço, que lhe quebrantava a voz e o gesto. Vinha dela um encanto esquisito e delicado, que ninguém afirmaria ser da pureza das suas linhas ou da maneira que tinha de andar, de sorrir ou de dizer as coisas (ALMEIDA, 1999, p. 37).

Na caracterização ambígua da protagonista, constatamos a presença de uma oposição entre o parecer e o ser. Ernestina cria para si uma persona43, assume uma máscara, por meio da qual se adapta ao coletivo e responde às demandas da sociedade patriarcal. Nesse sentido, Ernestina é representada por meio de um corpo disciplinado, “cuja característica básica é a carência garantida pela disciplina” (XAVIER, 2007, p. 58). A existência deste corpo depende de sua submissão a regras, que podem ser impostas pelas mais diferentes instituições de poder, como Família, a Igreja, O Estado. Contudo, é necessária uma aceitação de tais regras por parte do indivíduo, que visa a uma recompensa, no caso da protagonista, a manutenção de sua condição social.

O primeiro capítulo constitui-se, portanto, da apresentação e caracterização da viúva. As demais personagens são mencionadas apenas em sua relação para com ela, sem que sejam exploradas em profundidade. Os pensamentos da protagonista surgem intercalados a

43 A persona é, segundo Jung (1984), um aspecto da personalidade, é a imagem que o indivíduo externaliza em seu contato com o mundo. Sua formação leva em conta as normas sociais e a adaptação do indivíduo a um grupo social. É, enfim, o modo como o indivíduo deseja ser visto pelos outros.

143 descrições da paisagem natural, que ela mesma observa, e a uma série de lembranças “antigas de pessoas, de palavras, de idéias ou de sonhos, fugidios, apagados ou mortos” (ALMEIDA, 1999, p. 39), que vêm à tona após a leitura, no jornal A Gazeta, sobre o retorno de Luciano Dias ao Rio de Janeiro. Luciano foi, segundo o narrador, “o primeiro e mais duradouro amor da viúva” (ALMEIDA, 1999, p. 42), que a abandonou sem explicação, indo morar em Paris.

A paisagem que circunda a casa é descrita pela voz narrativa à medida que o olhar da protagonista se dirige a ela, o que nos permite constatar o uso de uma espacialização franca atenuada pelo enquadramento dado pela visão de Ernestina. Desse modo, apesar de termos blocos de descrição de espaço, eles não se configuram como pausas na ação, no sentido de prejudicarem a sequência dos fatos, mas fazem-nos perceber o alheamento da viúva em face de uma natureza tão rica. Na narrativa, Ernestina não é tocada pela mesma alegria com a qual a voz narrativa dota o ambiente, olhando-o “do alto, como se estivesse suspensa no espaço” (ALMEIDA, 1999, p. 39). Seus olhos “afeitos àquele esplendor não o observavam, tinha um fluido dourado, vago, de quem olha para coisas que outros não vêem...” (ALMEIDA, 1999, p. 39).

O leitor é informado, inicialmente, apenas sobre a leitura da notícia no jornal, sem que seja revelado o conteúdo da mesma: “Os seus olhos percorriam superficialmente todo o jornal, quando de súbito estacaram num ponto. Por muito tempo não se despregaram de quatro linhas banais, lendo-as e relendo-as […]” (ALMEIDA, 1999, p. 38). Novamente, a voz narrativa intercala ação e descrição, retardando a revelação da notícia.

Posteriormente, o nome de Luciano é pronunciado por Ernestina, em discurso direto, como se fosse apenas mais uma lembrança de sua juventude, de quando estavam apaixonados. A ligação entre passado e presente é realizada, na sequência do texto literário, por meio da voz narrativa:

Supunha mesmo que nunca mais o tornasse a ver, e que, se por ventura isso se viesse a dar, que ela não experimentaria a mais leve comoção; e ei-la agora alarmada, só porque lera na Gazeta a notícia de sua chegada da Europa! Havia dois dias já que ele estava no Rio, debaixo do mesmo céu, respirando o mesmo ar (ALMEIDA, 1999, p. 42, grifo da autora).

A vida calma e enfadonha de Ernestina tem fim no momento em que é anunciada a visita de Luciano Dias à sua casa, ainda no primeiro capítulo. Ele é o elemento novo, causador de instabilidade, posto que sua presença e a sedução que exerce sobre a protagonista fazem ressurgir sentimentos esquecidos que modificam o seu comportamento. A partir deste

144 momento, percebemos que a viúva entrega-se paulatinamente à paixão e, consequentemente, ocorre um relaxamento moral. Todavia, tais mudanças não tomam curso sem que provoquem um conflito interno na protagonista, perceptível nas atitudes que passa a tomar e na quebra da disciplina.