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A cruz não foi a derrota de Jesus de Nazaré, como queriam os que conspiravam contra ele (cf. Jo11,47-54 e paralelos). Foi a vitória da gratuidade do amor libertador e salvífico de Deus que assumiu a humanidade até o fim. Foi a vitória do Filho de Deus, que é um com o Pai (cf. Jo 14,5-11; 17,21-22). Em Jesus crucificado, Deus revela-nos a gratuidade do seu amor. Gratuitamente assume e liberta a humanidade das prisões que a impedem de ter acesso a ele221.

A entrega dolorosa do Filho de Deus é o supremo inclinar-se da Trindade para a humanidade222:

é o sinal „finito‟ do despojamento „infinito‟ de seu amor por nós. Deus morre para dar-se; o Filho se oferece à morte em solidariedade com os mortos, para que a última inimiga, a morte, assumida por ele, Senhor da vida, morra para sempre223.

A dor da cruz é, portanto, “a quênose do amor trinitário de Deus, o aniquilamento de si que é dom de si, para que a glória da graça e da liberdade triunfe sobre a morte do pecado e do medo”224.

220 Ibidem, p. 131.

221 Cf. FORTE, Bruno. Jesus de Nazaré, p. 293-294. 222 Cf. Ibidem, p. 294.

223 Ibidem, p. 294. 224

A cruz, instrumento de opressão, Jesus Cristo a transforma em instrumento de salvação libertadora. Através da sua cruz redentora deu-nos a possibilidade de transformar os instrumentos de dominação e de fechamento, em instrumentos de comunhão libertadora. Ofereceu-nos a possibilidade de transformar o ódio, a dominação, a ganância e o enclausuramento em instrumentos de aproximação amorosa, gratuita, solidária, fraterna e justa.

A partir da cruz, o cristianismo não só dispensa outros sacrifícios redentores, mas ativamente rejeita todo poder que sacrifica vítimas humanas. A cruz é o último sacrifício com o „aval‟ de Deus225

.

A ressurreição de Jesus transformou seu sacrifício em “memória”, “ação de graças” (Eucaristia), “anúncio do último sacrifício” e “solidariedade com os sacrificados” até os confins do mundo226. Tudo o que legitima o sacrifício dos pobres, é idolatria, violência e alienação que transforma o mundo em vale da morte, dos exílios, dos despejos e dos excluídos227.

Esta boa notícia vai corrigindo as concepções messiânicas mágicas, egoístas, triunfalistas, intimistas, institucionalistas que tenhamos cultivado. Questiona a crucifixão de um messias que anunciou a esperança aos pobres e que denunciou a opressão. É a boa nova que nos

225 SUESS, Paulo. Migração, peregrinação e caminhada como desafios da

missão no mundo globalizado. REB 60/238 (junho 2000): 306.

226 Cf. Ibidem, p. 306. 227

posiciona frente ao mistério da iniquidade. Que suscita perguntas cujas respostas nos impelem constantemente à conversão. Em nossos dias, esta conversão à boa notícia fez com que o bispo católico Dom Oscar Arnaldo Romero e o pastor batista Martin Luther King fossem perseguidos e “em três anos”, “crucificados”.

O mártir é sinal da presença do amor maior entre nós, do amor que sabe amar até o fim. É expressão de uma existência plenamente humana, plenamente livre diante da morte. É também sinal de que no mundo há a recusa de Deus228. E denunciar as consequências desta recusa pode levar ao martírio. Sobre este caminho temos muito que aprender do testemunho de nossos mártires, de nossos santos ainda não canonizados, recorda-nos o artigo 98 do Documento de Aparecida229.

A morte e ressurreição de Jesus de Nazaré celebra o memorial-sacramento de “um Deus crucificado pelo conchavo dos poderes políticos, econômicos, religiosos e militares”230. E no mundo, somos a “memória passionis et ressurectionis de um passado tornado presente na prática,

228 FISICHELLA, Rino. Martírio. Em: LATOURELLE, René e FISICHELLA,

Rino. Dicionário de teologia fundamental, p. 576.

229 O empenho eclesial “a favor dos mais pobres e sua luta pela

dignidade de cada ser humano tem ocasionado, em muitos casos, a perseguição e inclusive a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas da fé. Queremos recordar o testemunho valente de nossos santos e santas, e aqueles que, inclusive sem terem sido canonizados, viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram sua vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo”. Conselho Episcopal Latino-Americano. Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (13-31 de maio de 2007). BSB: Edições CNBB; São Paulo: Paulus; Paulinas: 2007.

230

na fé, na celebração e na via do seguimento de Cristo pela comunidade dos seus seguidores”231. Professamos,

a parusia de Jesus no final dos tempos, ou seja, a futura e definitiva irrupção de Deus, a absoluta novidade, radical alteridade para o humano e infinita realização dos seus anseios. Mas até lá a história permanece em aberto, num esforço cotidiano de conversão pessoal e coletiva, de forma a „aproximar o Reino de Deus‟. A fé se nutre da esperança de que Deus, apesar de toda contradição e sofrimento, fará vencer finalmente a justiça, o amor e a verdade, em primeiro lugar para os esquecidos e trucidados da história232.

Ao sofrimento provocado pela cegueira humana, Deus responde doando seu próprio Filho na morte e morte de cruz. Não há respostas teóricas diante deste sofrimento. Há presença de um Deus encarnado em Jesus Cristo que para vencer a dor e a morte, sacrifica sua própria vida. É este o sacrifício que desautoriza a imposição de todos os sacrifícios humanos.

Na presença solidária e gratuita de inúmeras pessoas, este amor maior continua sendo vivido eficazmente na humanidade. É o amor capaz de vencer o sofrimento alheio através do sofrimento de quem, de mil maneiras, sofre com quem está sofrendo233. É a cruz redentora presente no agir humano de cada dia, que inverte a lógica da exclusão social em lógica da encarnação do Verbo.

A cruz não é “uma bandeira que se deva empunhar para assumir a liderança de um movimento histórico, mas

231 Ibidem, p. 152. 232 Ibidem, p. 152-153.

233 Cf. O‟COLLINS, Geraldo. Mistério Pascal. Em: LATOURELLE, René e

revelação da loucura de Deus, mais sábia que a sabedoria dos homens”234, que se revela na relação filial para com Deus, traduzida em relações de fraternidade entre todos os seres humanos da humanidade.

Os mistérios da vida, morte e ressurreição de Jesus permanecem intimamente unidos às vidas de seus seguidores e seguidoras, iluminando-lhes o caminho. Por isso, é possível assumir os sacrifícios, as ameaças e as reais situações de martírio, com jovialidade e serenidade evangélicas capazes de transformar um veneno mortífero em soro que salva e as trevas, em luz que orienta o caminho (cf. Nm21,8; Jo3,14- 21).

Assim a vida vai-se tornando mais digna de ser vivida e celebrada como força da presença do Espírito no seio da história235. São particularmente sacramento histórico desta presença atuante do Espírito Santo, “os pobres quando resistem contra as opressões, quando se organizam para buscar a vida, o pão e a liberdade, quando no meio das lutas conservam a fé e a ternura para com os outros”236.

Neles torna-se visível que a vicissitude humana, assumida na história trinitária de Deus, conhece a promessa

234 RUGGIERI, Giuseppe. Problemas em aberto: as relações igreja-mundo.

Concilium/208 (1986/6): 139.

235 Cf. BOFF, Leonardo. Vida segundo o Espírito, p. 182. 236

de vida nova que vai transformando as iníquas cruzes da história em esperança que liberta237.

3.

UNGIDOS PELO ESPÍRITO SANTO PARA ANUNCIAR E