Jonas é professor numa escola de sistema seriado, cuja avaliação se faz por
meio de provas e notas. As aulas são desenvolvidas, em geral, sob a forma de temas ou projetos e, segundo Jonas, como ele já havia trabalhado numa escola em que o sistema era de ciclagem, sua experiência o deixa mais à vontade. Ele desenvolve os temas propostos pelos PCNs de Língua Estrangeira, alguns dos quais são trabalhados por todos os professores da escola.
Jonas não faz uma descrição dos passos da aula, como o fizeram Ana Clara e Pedro Henrique, mas sim descreve o tema que está desenvolvendo, ou seja, coloca sua aula no nível macro. Uma outra característica de seu depoimento sobre a aula é que ele menciona algumas atividades, mas a ênfase é dada aos resultados de aprendizagem pretendidos com o desenvolvimento do tema. Segundo Richards e Lockhart (1996), trata-se de objetivos comportamentais, porque se expressa o comportamento que o professor espera que os alunos sejam capazes de realizar ao final de uma aula ou de um curso. Além disso, os objetivos apresentados por Jonas não se restringem aos objetivos lingüísticos, como se pode ver a seguir:
[5] Essa aula, como vocês viram, é parte de um todo. Dentro dos temas transversais, ela pode ser incluída naquele tema eu e o outro e nas diversidades culturais e, a partir disso aí, a gente vai para famous people. Então, os alunos, nessa aula, eles já tinham respondido àquelas perguntas sobre ele mesmo, eu, e agora eles tão fazendo uma entrevista com o outro – eu e o outro. Então, o aluno passa a se conhecer melhor e ele vai
passar também a conhecer o outro, a respeitar o outro, saber que existem muitos desejos diferentes. [...]. Falando assim mais da estrutura da língua, eles podem aproveitar essa aula para aprender o I am, quando dá personal information, e eles aprendem he is, she is, e também saber de personal information. [...]. Eles [também] vão aumentar o vocabulário com relação a animais, frutas, cores. Então o aluno aprende sem precisar usar aquela “decoreba” de antigamente: “ah, faça uma lista de 10 animais, uma lista de 10 frutas, de 10 cores”. Então, através da resposta dele, da resposta do colega e, depois mais tarde, quando ele for entrevistar a mãe e o pai, ele vai aumentar o vocabulário. E é claro que vai ter uma cor que o pai vai falar ou que o coleguinha vai falar que ele não vai saber. O que o aluno vai fazer? Ele vai ter que ir ao dicionário, ele vai ter que perguntar alguém. Então é uma oportunidade que a gente dá para o aluno para ele crescer por ele mesmo, sem a gente, porque nós temos que aprender a fazer o nosso aluno ser independente, não ficar só dependendo do professor. [...]. Também os alunos tão aprendendo possessive adjectives, my, your, his her. Então, foi um primeiro toque que eles descobriram: “Mas, espera aí, eu respondi my father is..., e do meu amiguinho, como que eu vou responder?” Então, automaticamente, os alunos vão chegando a uma conclusão: “Não, para mim é I am, mas eu não vou responder I am aqui”. Um aluno até me chamou: “Professor, eu respondi aqui I am, mas e agora? Como que eu coloco a resposta dele?” Então, os alunos vão aprendendo por eles mesmos. E o professor está ali é para dar uns toquinhos mesmo que eu dei. [...]. Então, futuramente, os alunos vão pesquisar, vão fazer entrevista com o pai ou com a mãe, eles vão trazer isso na próxima aula e depois eu vou pedir um texto para eles sobre my father ou my mother. [...]. E, nessa composition, os alunos colocam, além da realidade do texto, eles colocam a foto da mãe ou a foto do pai. Então isso aí eu acho que aumenta o relacionamento familiar [...]. Ele vai aprender a produzir texto em inglês, fazer parágrafo e depois ele vai ter que ler isso na sala de aula, “my father is fulano de tal, ele é assim, ele é assado”. Então, a gente usa as quatro habilidades, ele vai ter que escrever, ele vai ter que falar, e o outro vai ter que ouvir o que ele está falando e, a partir disso, depois que ele conheceu o coleguinha, conheceu ele mesmo, conheceu o pai, conheceu mais o pai e mais a mãe, aí a gente parte para um texto mais complexo, sobre alguém famoso. Por exemplo, eu já entreguei para eles o texto sobre o Nick Carter, do Backstreet Boys.
Como se percebe, Jonas apresenta sua aula como uma subunidade de uma unidade conceitual mais ampla que é o tema “eu e o outro”, que compreende cinco atividades, entre as quais a entrevista trabalhada nesta aula. Pela descrição, depreende- se que esta aula teve como objetivos trabalhar: a) aspectos formativos – conhecer e respeitar o outro, bem como aprender a pesquisar sozinho; b) uma função lingüística – obter informações pessoais; c) tópicos gramaticais – pronomes pessoais e possessivos; d) vocabulário – animais, frutas e cores; e e) aspectos cognitivos – permitir que o aluno faça inferências sobre a língua. E por ter focalizado o que os alunos realizaram nas atividades e que oportunidades de aprendizagem eles tiveram, Jonas mostrou ter uma boa autopercepção de sua aula, ou seja, sua descrição foi coerente com o que aconteceu em sala.
A reação do grupo de professores com relação à aula de Jonas é bastante positiva, e, na reflexão interativa, nenhum ponto de conflito foi levantado. Dos três tópicos centrais de discussão, apenas um se restringiu à aula dada – o bom comportamento dos alunos. As notas de observação confirmam a avaliação do grupo, que, de modo especial, salienta a grande habilidade do professor no que concerne ao domínio de turma.
Pode-se dizer, então, que a perspectiva utilizada por Jonas para descrever sua aula é macro e centrada no aluno. Apesar de Jonas não afirmar de forma explícita que ele avalia sua aula positivamente, sua descrição revela vários razões de eficiência da aula dada, e a reflexão interativa permite concluir que a aula é também vista positivamente pelos outros três professores.