Abordar a questão do diálogo na educação não exprime novidade. Sócrates (469-399 a.C.) em seus escritos já revelava tal necessidade. “Conhece-te a ti mesmo”, não apenas no sentido de ter consciência racional de si mesmo, mas também a consciência da própria ignorância é o lema que sintetiza a vida de tal filósofo. Indefesso questionador, instituiu o método socrático que, segundo Aranha (1996, p. 44), divide-se em duas partes: a primeira, “ironia (do grego eironeia, perguntar, fingindo ignorar) processo negativo e destrutivo de descoberta da própria ignorância”. A segunda parte, maiêutica “(de maieutiké, relativo ao parto) é construtiva e consiste em dar à luz novas ideias” (ARANHA, 2006, p. 44)
Uma prática educativa sustentada na dialogicidade desfaz o jogo fictício da posse da verdade, dando lugar a uma sociedade mais tolerante e que consegue conviver com as diferenças de todos os gêneros.
A obra de Paulo Freire foi eleita para a discussão a respeito da subcategoria “diálogo” inclusa na categoria “aprendizagem de valores” no Programa “Escola 2.0”. Fazendo uma “leitura” do programa “Escola 2.0” sob a ótica do diálogo em Paulo Freire, é possível observar que vários episódios se encontram “encharcados”, para utilizar uma expressão bem conhecida do autor, desse conceito, conforme se pode observar a seguir.
6.4.1 O diálogo e as linguagens do programa
Freire aborda a importância da aprendizagem da leitura e da escrita como forma de se manifestar exprimindo conceitos e ideias. Desse modo, a palavra deixa de ser pensamento e passa a ser comunicada. No programa “Escola 2.0”, é possível verificar essa importância da leitura e da escrita enquanto prática dialógica, já que em vista que os personagens principais expõem suas opiniões, seus conceitos, suas dúvidas, em seus blogs27: “Almanaque Educação” e “Barulho da Bia”, assim como o fazem milhares de estudantes ao redor do mundo.
O Programa “Escola 2.0” oferece a possibilidade de que seus telespectadores visitem os blogs e participem dele.
A proposta dos blogs é ter posts diários com dicas e notícias do universo jovem e dos estudantes, além da clara diferença entre o mundo dos meninos e o das meninas. Assim, o programa evidencia a importância da participação de seus personagens nas redes sociais para atingir o atual universo adolescente. O site “Escola 2.0” também é um importante canal interativo, no qual os internautas podem enviar vídeos, fotos e manifestar suas opiniões.
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27 O termo blog é uma abreviação de weblog (variação do termo Web log, em português diário da Web). Os elementos principais de um blog são as publicações (chamadas de artigos ou posts), os comentários e as pessoas que escrevem (“blogueiros”) e leem os posts. Os posts de um blog podem ser compostos de textos, imagens, vídeos e também de links e informações de outros locais da Internet. Geralmente, os textos publicados expressam a opinião daquele blogueiro sobre determinado assunto que está circulando na mídia. Existem também blogs em que o conteúdo é exposto para o leitor em forma de tutorial, ou seja, publicações no formato de aulas em que é possível aprender determinados assuntos da própria web e também para serem aplicados no dia a dia. Já os comentários são uma forma de interação do leitor com o assunto (não necessariamente com o blogueiro) em que é possível deixar uma opinião, agradecimento e até mesmo uma dúvida que ficou a respeito do assunto tratado que pode ser respondido pelo próprio autor do blog ou por outros leitores. Pode-se considerar o blog como uma ramificação de um site, ou seja, existem sites que possuem um blog agregado e também sites que são blogs. Com a popularização dessa modalidade, foram criados sistemas que facilitam a inclusão desses conteúdos nas páginas da Internet sem a necessidade de ter conhecimentos relacionados à linguagem de programação utilizada, por exemplo: o HTML27. Esse sistema de controle de conteúdo é conhecido como CMS27 e possui uma interface simples e intuitiva conhecida como WYSIWYG27, semelhante a um programa de edição de textos. Com o crescimento e popularização dos CMS, ficou mais fácil criar e gerir um blog, contribuindo ainda mais para o crescimento da modalidade.
6.4.2 O diálogo e os conteúdos do programa
No Programa “Escola 2.0”, nota-se a busca pelo respeito às opiniões e conceitos de cada um. O trio – Cadu, Mano e Bia – muitas vezes se encontra às voltas com opiniões diferentes sobre diversos assuntos e, ao final de cada edição, as situações tendem a se resolver. Observa-se que, como todo adolescente, por vezes até concordam um com o outro, mas, para não se fragilizarem, preferem manter a posição inicial.
Cabe aqui explicitar a relação estabelecida entre o diálogo na obra “Paulo Freire” e o Programa “Escola 2.0”, considerando-se o método construído por Freire a partir de sua prática pedagógica articulada aos problemas sociais e culturais de seu estado – Pernambuco. Pode-se dizer que esse método interferiu no mundo da educação em todos os continentes. “Os temas geradores podem ser localizados em círculos concêntricos, que partem do mais geral ao mais particular” (FREIRE, 1987, p. 94). Assim, partem-se de temas mais amplos, de caráter universal e círculos menos amplos, com temas e situações-limites próprios de sociedades que têm nesses temas, similaridades históricas.
Os “temas geradores” tinham por finalidade uma reflexão sobre os problemas sociais enfrentados por cada indivíduo, assim como a necessidade de se posicionar sobre tais questões, expressando-se por meio da oralidade. O programa frequentemente leva os adolescentes a refletirem sobre seu universo, seja por meio de enquetes realizadas com os alunos (reais) de escolas estaduais, seja por meio dos diálogos entre os personagens ou proporcionando diferentes conceitos em seus diversos quadros apresentados.
É por meio do diálogo também que o trio tenta ajudar o amigo Tonhão quando este descobre a gravidez da namorada. As histórias defendem o diálogo como solução para os conflitos e sugerem alternativas aos adolescentes telespectadores em muitas situações rotineiras, como as questões de relacionamento, o primeiro emprego, as mentiras, o preconceito, as drogas e tantos outros.
Apenas a titulo de exemplo, foram elaboradas diversas enquetes com os alunos de escolas da rede estadual de São Paulo, convidando-os a expor suas opiniões a respeito de várias questões contemporâneas: o lanche da escola, os relacionamentos amorosos, o desenvolvimento dos trabalhos em equipe, a opção de criar ou de copiar, o consumismo desenfreado. Essa pequena amostra acaba por
refletir a ótica dos adolescentes sobre diversos assuntos , assim como demonstra como eles se percebem na sociedade.
6.4.3 O diálogo e os conteúdos escolares apresentados pelo programa
Sob a ótica dos conteúdos escolares propriamente, percebe-se que os “alunos” do Programa “Escola 2.0” estão afiados e conectados ao mundo e ao seu tempo. Eles utilizam as possibilidades ofertadas pelas tecnologias para compartilhar conceitos, discutir ideias, observar tendências, analisar opiniões, aprender e empreender, enfim, convergir e divergir. Almeida afirma que: “A virtualidade da imagem e das relações quase substitui a realidade” (2009, p. 30). Isso é perceptível não apenas no Programa, pois esse em muito se assemelha à realidade das escolas. Mesmo no período de férias, os colegas de classe das escolas se mantêm quase que diariamente conectados e sabem o que está acontecendo com seus amigos por meio de suas redes de relacionamento, utilizando-se, para isso, do facebook, twitter, msn e outras tantas ferramentas disponíveis.
Nos episódios sequenciais, “Preconceito” e “Marginalidade”, um aluno – o Tonhão – começa a apresentar problemas de disciplina. Isso preocupa não apenas o grupo de professores, e em especial o professor Lívio (de história), mas também o trio Cadu, Mano e Bia que percebe a ausência do colega. Nos diálogos estabelecidos pelo grupo de adolescentes, verifica-se que eles tentam convencer o colega, apontando que consideram a escola uma instituição essencial enquanto disponibilizadora dessa liberdade que possibilita que se viva melhor, tornando possível que o indivíduo participe ativamente das atividades econômicas e políticas oferecidas pela sociedade.
Os “temas geradores” propostos por Freire podem ser vistos em muitos momentos no programa, relacionando o dia a dia dos alunos da escola com a história, com a física, com a língua e tantos outros temas, sendo utilizados, para isso, os vários quadros que compõem o programa: pílulas do saber, grande reportagem, túnel do tempo e outros. Eles permitem que Cadu, Mano, Bia e os demais alunos, tanto quanto os telespectadores do programa, compreendam um assunto curricular qualquer – como a Segunda Guerra Mundial – assim como outros assuntos pertinentes à nossa rotina diária, como o que ocorre com o nosso corpo
quando colocado em situação de estresse, como a de ser convocado a ir conversar com a diretora da escola por ter feito alguma coisa errada.