O ponto de partida desta viagem de reconstrução do lugar social de Jean de Léry é o período do século XVI, especificamente circunscrito à Reforma Protestante em sua relação com o Renascimento na Europa durante os séculos XIV a XVI, que pode ser entendido em certo sentido como uma construção histórica que irrompe como uma preparação intelectual para a Reforma Protestante ao produzir um dos arcabouços estruturais necessários ao desenvolvimento e à expansão do pensamento desta Reforma.231 Dentre as principais influências renascentistas, podemos introdutoriamente citar, como uma das mais importantes, é a volta ao estudo de línguas clássicas e antigas, o que possibilitou diversas traduções das Sagradas Escrituras a partir dos originais grego e hebraico para as línguas vernáculas na Europa. Lembremos que a Reforma Protestante possui o seu foco norteador principal e determinante de sentido construído a partir da interpretação da Escritura Sagrada232, seja como fonte para a pregação, seja como parâmetro diretor da ética prática dos seus seguidores. Jean de Léry se valerá da Escritura, seja como o parâmetro norteador de sua interpretação do Outro, seja como o limite da circularidade hermenêutica de sua heterologia quando registra as suas interpretações em sua obra, expressando a sua relação tanto com os estudos filológicos, quanto com o próprio João Calvino, um filólogo de formação. Conforme aponta Silva:
O relato de Léry permite não só a percepção da formação discursiva renascentista, como a delimitação clara da forma como se constroem múltiplas identidades que se aproximam e se opõem, num jogo de similitudes e diferenciações, seja na forma de descrição da natureza e das populações (com particular ênfase para a antropofagia) seja na afirmação de percepções (europeu e índio, protestante e católico, natureza como criação divina e como valor de troca, entre outras) e de um relativismo não-usual no período.233
231 “O termo „Renascença‟ foi empregado pela primeira vez de forma proeminente pelo historiador francês Jules
Michelet em 1858, e gravado em bronze dois anos depois por Jacob Burckhardt, quando este publicou seu grande livro A civilização da Renascença na Itália. O uso se firmou por ter-se revelado um modo conveniente de descrever o período de transição entre a época medieval, quando a Europa era a „Cristandade‟, e o início da Idade Moderna”. Paul Johnson, O Renascimento, Rio de Janeiro, Objetiva, 2001, p. 11.
232 A tradutora de A Escrita da História de Certeau, explica o uso do termo na obra: “M. De Certeau explora ao
longo de toda a obra o duplo sentido que apresenta, em francês, a palavra écriture – escrita e escritura (eventualmente Escritura, referindo-se ao texto da revelação judaico cristã)”. Prefácio à 2.a Edição in Michel de
Certeau, A Escrita da História, 3.ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. XI.
233 Wilton Carlos Lima da Silva, As Terras Inventadas: discurso e natureza em Jean de Léry, André João
94 O Renascimento está posto, historicamente falando, em um momento de transição entre o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna influenciando a situação vivencial dos protagonistas da história em vários aspectos, relacionando-se à política, religião, filosofia, ciência, arte e na cultural geral como um todo abrangente.234 Observamos em linhas gerais alguns elementos temáticos constituintes nas mentalidades que irrompem neste período, que sejam: antropocentrismo, racionalismo, humanismo e individualismo.235 O antropocentrismo deste período foi uma reação ao teocentrismo da Idade Média como chave ideológica de interpretação do mundo, agora a realidade seja de que ordem for, deve ser regulada e interpretada tendo o homem como fiel da balança nas mais diversas relações existentes, ou seja, tudo agora deve ser interpretado em sua inter-relação com o humano. O racionalismo defende a tese de que há sempre uma causa inteligível que explica a origem de algo, estabelece a proeminência e independência da razão do homem como meio por excelência para a produção do conhecimento em detrimento de qualquer meio ou autoridade revelacional, aqui já encontramos as bases do que mais tarde irá constituir o Iluminismo que levará até as últimas consequências este princípio. O humanismo neste período tem uma característica marcadamente relacionada ao interesse pelos textos clássicos da antiguidade, principalmente gregos e latinos, no entanto, também se relaciona a uma valorização do humano contrariamente ao desprezo metodológico existente na Idade Média. O individualismo está mais voltado para um conceito político que enfatiza a liberdade do indivíduo diante das suas relações sociais principalmente com o Estado, porque o indivíduo é agora observado como uno e não somente como parte integrante de um grupo social onde suas ideias e pensamentos somente possuem valor se estiverem em conformidade com o estabelecido, está portanto, livre para pensar de modo contrário àquilo que é exposto pela agenda normativa de seu tempo; uma reviravolta epistemológica. A Reforma e, portanto, também Jean de Léry se valem destas estruturas, contudo, não perdem o seu foco fundante que é o compromisso com o Deus bíblico-cristão conforme descrito nas Sagradas Escrituras. Deste modo, a Reforma se vale de elementos que irromperam no período do Renascimento, no entanto, o seu compromisso com a Escritura Sagrada também a fez romper com estas
234 Vd. Hélène Védrine, As Filosofias do Renascimento, Lisboa, Publicações Europa-América, 1974; Paul
Johnson, O Renascimento, Rio de Janeiro, Objetiva, 2001; Jacob Burckhardt, O Renascimento Italiano, Lisboa/São Paulo, Editorial Presença/Martins Fontes, 1973; H.R. Trevor-Roper, Religião, Reforma e
Transformação Social, Lisboa/São Paulo, Editorial Presença/Martins Fontes, 1981; Hugh Trevor-Roper, A Formação da Europa Cristã, Lisboa, Editorial Verbo, 1966; Agnes Heller, O Homem do Renascimento, Lisboa,
Editorial Presença, 1982; V.H.H. Green, Renascimento e Reforma, Lisboa, Dom Quixote, 1984.
235 Cp. Carlos Geovane Steigleder, Staden, Thevet e Léry: olhares europeus sobre o índio e sua religiosidade,
São Luiz-MA, EDUFMA, 2010, p. 18; Louis Dumont, O Individualismo: uma perspectiva antropológica da
95 estruturas, pois, a dignidade do homem está posta na realidade dele ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, assim há uma aproximação na mesma medida em que há um rompimento, valorização do homem, sem, contudo, entendê-lo como o referencial por excelência de interpretação da realidade, este lugar cabe ao Deus bíblico-cristão, segundo o pensamento reformado.236 Ter esta compreensão em mente é central para um adequado entendimento do modo como Jean de Léry irá interpretar a humanidade do índio tupinambá em seu relato de viagem.
Este é um período da história onde ocorre uma enorme profusão de elementos e relações que contribuíram com a construção do contexto que determina a produção de sentido da obra de Jean de Léry. Estes elementos potencializam novas explicações da realidade a qual o homem moderno está inserido, pois, apresenta-lhe a possibilidade de interpretações que não estejam condicionadas pelo sistema epistemológico dogmático vigente no período, caracterizado pela imposição de uma interpretação única acerca da realidade, além de limitadora de um exercício intelectual pensante, exigindo única e tão somente uma mera reprodução de interpretações impositivas. Os elementos que permitem um descortinar de novos olhares são as grandes descobertas que ocorreram no período, o desenvolvimento das navegações, as grandes empreitadas marítimas, a proposição do heliocentrismo como explicação do sistema solar por Copérnico, a efetivação da imprensa (1450) como meio promotor de informação e conhecimento, por estes motivos as ideias poderiam agora ser divulgadas com maior rapidez pela Europa do século XVI.237 Estas relações geraram na mesma proporção uma mudança de mentalidades, além do desenvolvimento abundante de muitas ideias em associação com o irromper de novas possibilidades de promoção e pulverização destas descobertas que evidenciam o desejo natural do ser humano em conhecer, a curiosidade pelas inovações ganha força nas motivações do homem do Renascimento. A Reforma encontra o seu espaço para desenvolver-se com condições de um tempo ideal para a sua aceitação por causa destas relações surgidas no processo das operações históricas ocorridas neste período.238
236 Jean Boisset, Sagesse et Sainteté dans la Pensée de Jean Calvin, Paris, Presses Universitaires de France,
1959, p. 317-318.
237 Vd. Karen Armstrong, A Bíblia: uma biografia, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007, p. 166-167; Hermisten
Maia Pereira da Costa, A Inspiração e Inerrância das Escrituras, São Paulo, Cultura Cristã, 1998, p. 143-145.
238 Devemos salientar mais alguns elementos característicos que estão presentes neste período da história da
humanidade que em algum modo e grau colaboraram direta ou indiretamente para o surgimento e estabelecimento da Reforma Protestante no século XVI e as consequentes estruturas de mentalidade que dela derivam em seus personagens constituintes. Que sejam: a organização política em cidades-estados constituídas
96 Central neste contexto foi a presença do Humanismo, que pode ser entendido como a filosofia do Renascimento, o modelo de construção intelectual, uma estrutura de pensamento. Por vezes pensa-se neste período como uma completa e total aversão à religiosidade característica do medievo, e, assim portanto, o Humanismo fora marcadamente antirreligioso; erro crasso, pois contrariamente a este mito percebemos que na verdade ele proporcionou uma maior preocupação com questões religiosas. Conforme atesta Jean Delumeau: “o humanismo, afinal de contas, foi muito mais religioso que se afirmou durante muito tempo”239, mas
permanece a ressalva: “todavia, no conjunto, os humanistas foram espíritos religiosos, mas independentes”.240 Timothy George assevera que: “talvez a contribuição mais positiva dos
eruditos humanistas à renovação religiosa do Século XVI tenha sido a série de edições críticas da Bíblia e dos pais da igreja, amplamente disseminadas graças ao sucesso fenomenal da imprensa”.241 Mas as evidências não param por ai, pois houve uma espécie de resgate dos
escritos, tanto filosóficos quanto teológicos, de Agostinho (354-430), conforme expõe George:
O pai da igreja favorito de Erasmo era Jerônimo, mas a fonte patrística mais influente para a teologia reformada sem dúvida foi Agostinho. De fato, nos séculos imediatamente anteriores à Reforma, houve algo como uma “renascença agostiniana”, gerada em parte por um renovado interesse na teologia de Agostinho dentro da própria Ordem Agostiniana e pela atração que Agostinho provocava nos primeiros humanistas, tais como Petrarca, que foi atraído especialmente pelas Confissões.242
Delumeau também sustenta a mesma linha de interpretação em que o Renascimento teria contribuído beneficamente com a Reforma Protestante, na verdade para ele, o primeiro promoveu o segundo tornando a teologia acessível e passível de inteligibilidade pelo povo. Como implicação, a Reforma seguiu caminho oposto ao vigente na relação teologia/moral, agora a lógica foi a restauração da teologia como o fundamento determinante da vida das como repúblicas abertas e ecléticas; o desenvolvimento agrícola; a intensificação do comercio internacional no Mediterrâneo, além de um crescente progresso financeiro na sociedade; um sistema social, em relação à Idade Média, mais flexível possibilitando o surgimento de uma nova classe social de inquestionável importância no momento: a burguesia; por fim no campo artístico o surgimento de um grande interesse e admiração por obras de arte, seja pintura, arquitetura, escultura, etc..., promovendo o aparecimento da figura do mecenas.
239 Jean Delumeau, Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo, Pioneira, 1989, p. 79.
240 Jean Delumeau, Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo, Pioneira, 1989, p. 79. E continua à frente:
“Reencontrando a Escritura, limpando-a, à maneira de um quadro, das impurezas que a obscureciam, os humanistas aspiravam a uma religião simples, vivida, evangélica, cujos dogmas deveriam ser pouco numerosos e na qual deveria se procurar e achar a paz de espírito na imitação de Jesus. As cerimônias supersticiosas ou farisaicas teriam que dar lugar a um culto próximo daquele da Igreja primitiva”. Jean Delumeau, Nascimento e
Afirmação da Reforma, São Paulo, Pioneira, 1989, p. 81.
241 Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 50. 242 Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 50.
97 pessoas, a moralidade passou a ser norteada pela teologia.243 O sistema de pensamento reformado passou a ser o centro fundante das ações daqueles que se converteram ao protestantismo. Segundo Delumeau, o humanismo preparou o caminho para a Reforma Protestante através de duas formas distintas: “contribuiu para aquele regresso à Bíblia que era uma das aspirações de época; chamou a atenção para a religião interior, reduzindo a importância da hierarquia, do culto dos santos e das cerimônias, ao mesmo tempo”.244 Estes
elementos, serão evidentes em Jean de Léry ao fazer uso da Bíblia como o seu referencial de análise e interpretação em sua experiência vivida no Novo Mundo, sem contudo, deixar de perceber-se como um protestante reformado, mesmo distante de estruturas hierarquizadas, reflexo da religião interior defendida pela Reforma, o sacerdócio universal de todos os crentes.
Assim, seguindo as ideias de Michel de Certeau, que defendia a história como um processo, e que se estrutura nas mais diversas relações em sua construção, percebemos que o Renascimento coloca em cena as condições intelectuais e vivenciais que se mostraram necessárias para o surgimento da Reforma Protestante, que segundo Battista Mondin, filósofo católico, ao falar sobre as causas desta, defende se tratar de um acontecimento divisor de águas que marca o fim de um limite fronteiriço histórico ao mesmo tempo em que atua na construção do irromper de outro. É um movimento que provoca uma transição de períodos ao promover um novo modo de interpretar a realidade que se caracterizaria como moderno. Enfatiza Mondin:
A Reforma protestante foi um acontecimento essencialmente religioso, mas causou ao mesmo tempo profundas transformações políticas, sociais, econômicas e culturais. Também no desenvolvimento da filosofia a sua influência foi decisiva, especialmente na filosofia alemã, mas também na francesa, inglesa, americana, italiana, em uma palavra, em toda a filosofia moderna. Isto justifica e exige um estudo bastante amplo e aprofundado sobre as causas, os autores e os ideais da Reforma protestante.245
Para o economista suíço André Biéler, a Reforma Protestante deve ser entendida como um movimento autônomo que fora dirigido pela “Palavra do Deus vivo”246, sendo em sua
243 Jean Delumeau, A Civilização do Renascimento, Lisboa, Edições 70, 2004, p. 128. 244 Jean Delumeau, Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo, Pioneira, 1989, p. 82. 245 Battista Mondin, Curso de Filosofia, vol. 2, São Paulo, Paulus, 1981, p.27.
246 André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p.
98 origem uma “força espiritual revolucionária”.247 Portanto, a Reforma foi um movimento
espiritual em sua essência e secundariamente social, além de tudo, os seus efeitos espirituais superam em importância as influências sociais que produziu, assim “penetra ela indistintamente em todos os meios, transpondo todas as barreiras sociais; ganha homens de todas as condições, do povo, do campesinato e da burguesia, assim como os intelectuais, a nobreza, o baixo e o alto clero, o regular e o secular”.248
Seguimos neste trabalho a mesma perspectiva adotada por Mondin e Biéler ao defender que a Reforma Protestante foi um movimento eminentemente religioso em sua essência e objetivo, no entanto, não podemos deixar de perceber o vasto campo de influência social, político, científico etc..., promovido por ela, mas a sua origem é claramente teológica. Tais influências do pensamento calvinista que determinaram a construção do mundo moderno já foram apontadas no capítulo anterior. Devemos lembrar que interpretar a Reforma Protestante efetuando um recorte simplesmente econômico, político ou social é perder de vista o verdadeiro rastro que possibilita o estabelecimento do lugar social que os sujeitos do período dispuseram para a construção de suas mentalidades. No entanto, se deixarmos de lado as relações existentes entre economia, política ou outras quaisquer relações que em algum grau influenciaram a construção teológica do período, estaremos construindo uma escrita da história que não se compromete com a veracidade dos fatos reais. Desta feita, a Reforma Protestante tem unicamente motivações teológicas e religiosas, contudo, faz parte de um processo que tanto sofre influências das mais diversas vertentes do pensamento humano, como também as influencia estruturalmente. Jean de Léry não foge às mesmas relações, pois escreve uma obra que evidencia concepções modernas como uma transição valendo de construtos intelectuais que o antecedem, no entanto, a sua construção semântica é determinada pela sua mentalidade teológica calvinista.
Deve-se perceber que a Reforma Protestante possuía um caráter prático em sua ênfase teológica ao tencionar promover em seus seguidores a transposição de suas teses do intelectual e implícito ao vivencial real. Destaca Delumeau que a separação vital entre reformados e católicos fora exatamente no âmbito da teologia, mas uma teologia que apontava para uma prática vivenciada. A tarefa prioritária dos reformados “situava-se mais no plano da
247 André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p.
66.
248 André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p.
99 teologia do que no da moral”249, em oposição ao catolicismo que seguira a via oposta,
contudo, isto significa que na Reforma a compreensão era a de que a teologia deveria ser o parâmetro determinante das ações humanas, portanto, primeiro a aceitação da teologia, que depois transformaria em vida prática este conhecimento teológico. Léry é exemplo desta estrutura de ação, primeiro a teologia, depois a vida em suas mais diversas relações humanas, pois sua teologia calvinista se constitui no seu referencial de interpretação do mundo, o sistema teológico é a chave de leitura, onde conteúdo e forma calvinistas são evidentes no viajante francês. Em seguida exemplifica Delumeau a centralidade teológico-religiosa das mentalidades impulsionadoras da Reforma Protestante, afirmando que esta não teve como impulso central apenas um desejo incontrolável de reagir a qualquer sistema de venda de indulgencias, mas sim, o ponto vital que levou Lutero a reagir contra a Igreja Católica foi a descoberta silenciosa da doutrina da justificação somente pela fé que a ele revelou a falsa segurança religiosa que os cristãos possuíam até então ao seguirem os ensinos do catolicismo.250 Assim, Delumeau identifica a mentalidade determinante das ações que construíram a Reforma Protestante como essencialmente de cunho religioso, e a partir deste fundamento, todas as relações sociais foram reconfiguradas como um processo que se desenrola. Deste modo, por implicação natural, é evidente que a historiografia de Jean de Léry também se move fundado no mesmo programa, ou seja, uma concepção teológica que conduziria à vida real ao estabelecer os limites do conhecimento empiricamente constituído que se externaliza no relato de viagem.
O Cristianismo estava deixando de ser uma religião somente do clero que manobrava através do medo os fiéis. O contexto da época se transformara, caracterizado por uma civilização mais urbana do que aquela do medievo, gerando uma força mais coletiva do povo, de pensamento mais livre e de difícil manipulação pelo clero. A consequência, podemos observar nas palavras de Delumeau, ao defender que esta realidade “iria mais tarde levar os reformadores protestantes a afirmar, como S. Pedro, o sacerdócio universal dos cristãos. Mas já antes se multiplicavam as manifestações diversas e, por vezes, anárquicas de um cristianismo de massas”.251 Um novo conceito de igreja surgia, “a assembleia invisível
daqueles que Deus escolheu; muito diferente, portanto, de uma Igreja visível puramente humana, útil certamente, mas que se deve controlar, corrigir e adaptar. Aos olhos de Deus,
249 Jean Delumeau, A Civilização do Renascimento, Lisboa, Edições 70, 2004, p. 124. 250 Jean Delumeau, A Civilização do Renascimento, Lisboa, Edições 70, 2004, p. 125. 251 Jean Delumeau, A Civilização do Renascimento, Lisboa, Edições 70, 2004, p. 126.
100 todos os eleitos são iguais e o sacerdote não é mais do que o laico”. 252 Para Delumeau, a
implicação disto na prática, fora que “deve rejeitar-se o mau pastor – quem sabe se ele faz parte da Igreja invisível? –, recusar-lhe os dízimos que ele utiliza mal e dá-los aos pobres. O ministro em estado de pecado não distribui correctamente os sacramentos”.253 Portanto, “os
reformadores do século XVI foram os herdeiros de toda uma corrente que, desde há quase dois séculos, desvalorizava a hierarquia eclesiástica e o próprio sacerdote, e que, a pouco e pouco, consolidava a dignidade cristã do laico”.254 São estes mesmos crentes laicos que
estenderam a influência da Reforma Protestante aos mais diversos cantões do saber e da atividade vocacional humana. As mentalidades reformadas se ramificaram por meio dos