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Com o forte poder de alfabetização no Ocidente, iniciando-se pela França, os leitores podiam escolher os textos que não fossem indicados pela Igreja, tampouco pelo poder público (Estado). Com isso, além dos textos sagrados, os leitores introduziram leituras que trouxeram

61 distração, instrução, imaginação e deleite. As práticas de leitura se modificaram com muita rapidez, sobretudo porque o leitor pôde ler sozinho, o que ampliou o repertório de opção de leituras.

As bibliotecas, como marco do êxito social e cultural, surgiram, no século XVI, com a nobreza de toga e a burguesia de ofício. Inicialmente, elas só continham as Sagradas Escrituras, livros sobre os padres da Igreja Católica, os clássicos de autores gregos e romanos, além de direito romano, medicina etc. Com o tempo, a população da época ansiava ler textos diferentes, como os de Voltaire, Rosseau, Diderot e outros.

Segundo Horellou–Lafarge e Segré (2010, p. 50), ―O livro foi o cimento da sociabilidade culta e mundana‖. Uma estratégia de leitura muito utilizada hoje e que os humanistas já faziam nos séculos XV e XVI são as anotações de comentários e comparações com outros textos conhecidos às margens da folha em branco ou em páginas deixadas propositalmente para que fizessem as devidas observações, etc. As autoras citam o caso de ―Os ensaios de Montaigne‖, em cujo texto há inúmeras citações para mostrar a relevância das leituras realizadas por cada leitor, para progresso de seu conhecimento.

As estudiosas perceberam que, durante os séculos XVII e XVIII, já havia certo separatismo: enquanto os homens faziam leituras livres, as mulheres só realizavam leituras domésticas: ―A leitura tornou-se não apenas um meio de instruir-se, mas também uma distração e um elemento de distinção‖ (HORELLOU-LAFARGE & SEGRÉ, 2010, p. 51). Aqui se percebe já o começo de um novo modo de fazer leituras. Isto é, não se apegava mais aos textos bíblicos, mas a textos que transmitiam conhecimentos em geral, como profissionais, filosóficos, romances etc. Dessa maneira, a prática da leitura se tornou individual, particular, silenciosa: fora do controle eclesiástico. Incorporaram-se ao cotidiano das pessoas livros de inúmeros tipos. Houve grande contribuição para a ampliação da leitura pelos pregoeiros, camelôs, que anunciavam e liam as notícias sobre fatos políticos e comuns, oficinas e confrarias etc. As notícias eram veiculadas em diversos tipos de suporte para as leituras: letreiros, pasquins, cartazes, livretos. As ideias de contestação eram divulgadas por meio de panfletos, caricaturas, imagens grotescas etc.

No século XV, segundo Horellou-Lafarge e Segré (2010), o primeiro tipo de livro impresso foi um almanaque, em 1493, que teve o intuito de oferecer informações sobre semeadura, cozinha, medicina etc. Além disso, os livros dessa época eram, em sua maioria, escritos em latim e , o restante, na língua vulgar. Eles eram constituídos por textos escritos em linguagem alfabética e ideogramas. Diferentemente, no século XVII, já havia farta publicação

62 de romances de cavalaria, contos de fada, manuais de civilidade, livros práticos, almanaques, histórias populares, além das obras religiosas etc.

Nesse período, surgiu a leitura infantil na França, decorrente da obrigatoriedade da educação infantil gratuita. Assim, os livros com fábulas de La Fontaine, os contos de Perrault e dos irmãos Grimm contribuíram enormemente para o comércio de livros infantis e de manuais pedagógicos e científicos voltados para uma moral laica e não mais religiosa.

Apesar de a leitura ter começado a ser ensinada desde cedo na vida das crianças, Horellou-Lafarge e Segré (2010) expõem que já havia ―iletrismo‖ na França. Esse vocábulo, considerado neologismo em português, equivale ao termo francês illetrisme, criado por Horellou–Lafarge e Segré (2010), tem o mesmo valor semântico da expressão ―analfabetismo funcional‖, existente no português do Brasil. Refere-se ao caso de pessoas que foram alfabetizadas, mas rudemente. Elas leem com dificuldade e sem capacidade crítica, apesar de a leitura ser ―uma ferramenta indispensável de comunicação e integração‖ (op. cit., p. 68).

O fracasso da leitura na Inglaterra já era discutido, em 1975, por Basil Bernstein, que se refere ao que chama de ―código restrito‖ – utilizado pelas camadas populares – e ao ―código elaborado‖ – formal e encontrado nas camadas cultas. Já W. Labov explora o oposto: a imensa riqueza da fala popular, que é eliminada pela escola.

Acredita-se que, com estudos realizados na área da Sociolinguística, é possível contribuir com a maneira de abordagem das questões referentes à oralidade na escola, pois não se pode negar, como reitera Olson (1997), que o ser humano nasceu fortemente influenciado pela língua falada. É necessário que os docentes se refiram à interação em sala de aula, às variedades linguísticas, à preparação dos alunos em sala de aula para atenuar os níveis de evasão, fracasso e repetência escolar com práticas mais instigantes nas escolas em geral, sobretudo, cooperar para a construção de uma educação linguística mais consciente pelos professores e alunos, muito defendida por Bortoni-Ricardo (2004; 2008; 2012), Bortoni- Ricardo et. al. (2010), Antunes (2009), Faraco (2008), Guedes (2008) e Bagno (2002; 2008; 2012).

Neste capítulo, fizemos uma revisão da história da escrita para que o leitor entenda como o ato de escrever – o letramento – foi evoluindo de tal forma que não conseguimos mais realizar qualquer atividade rotineira, que não esteja relacionada com a escrita. Mostramos que há, em geral, dois modelos predominantes de escrita: a ideográfica e a fonográfica. A escrita ideográfica foca a relação entre a ideia e o desenho. Ou seja, há forte motivação nesse modelo, cujo foco são os ideogramas. Depois, expusemos a escrita fonética ou fonográfica,

63 cuja relação com a ideia é arbitrária. Apesar disso, esse modelo é o que hoje se prolifera pelo mundo todo em quaisquer circunstâncias.

Essa escrita hoje, segundo Tfouni (2006), é que tem causado as diferenciações que encontramos nas sociedades, tais como grandes desigualdades sociais, acirradas disputas por poder etc. Esse modelo não consegue combater o analfabetismo – ou ―iletramento‖ – e o analfabetismo funcional nas sociedades desenvolvidas e nas sociedades em desenvolvimento, conhecidas como sociedades emergentes.

Neste capítulo, apresentamos os três momentos ou fases da escrita – pictográfica, ideográfica e fonética – e tecemos comentários acerca de cada uma. Além disso, mostramos vários modelos de alfabetos de línguas modernas para que se percebam as maneiras de escrita em cada povo ou região diferente. Ainda apontamos aspectos da história do surgimento da leitura, do livro, os modos de leitura etc., também apontamos alguns questionamentos sobre a expansão da escrita no mundo ocidental, o que, para Olson (1997), não implica dizer que houve desenvolvimento intelectual nas mesmas proporções.

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4. ALFABETIZAÇÃO, LEITURA E LETRAMENTO: TEORIZAÇÃO