2.2 Critical thinking
2.2.1 Definition of critical thinking
A estatura final de um indivíduo não somente encontra-se associada com suas condições de saúde durante as idades adultas e avançadas. Também existem evidências na literatura que apontam para uma associação da estatura com a condição socioeconômica e a produtividade do trabalho de uma pessoa (Pérsico
et al, 2004; Case & Paxson, 2008b; Thomas & Strauss, 1997). De acordo com Pérsico et al (2004), em média, homens e mulheres com uma maior estatura tendem a ter salários maiores que seus pares com menor estatura. Esse padrão foi observado tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento. Pesquisas conduzidas no Brasil (Thomas & Strauss, 1997; Strauss & Thomas, 1998; Schultz, 2005), Ghana e Costa do Marfim (Schultz, 2002; Schultz, 2005) mostraram uma associação positiva entre a estatura nas idades adultas e a renda.
A pesquisa conduzida no Brasil por Thomas & Strauss (1997) teve como objetivo examinar o impacto de dois indicadores antropométricos (estatura e índice de massa corpórea) sobre os salários dos trabalhadores com idades entre 15 e 50 anos que residem nas áreas urbanas do Brasil. Entre os resultados obtidos foi possível observar que homens e mulheres mais altos ganham mais, mesmo controlando por outras medidas da condição de saúde e a escolaridade. Estudos similares realizados no Peru (Murrugarra e Valdivia, 2004; Cortez, 1999), na Colômbia (Ribero e Nuñez, 1999) e no México (Parker, 1999; Knaul, 2000) usando dados de pesquisas domiciliares realizadas na década de 1990 também demonstram a existência da relação descrita anteriormente (Savedoff e Schultz, 2000). Já nos países desenvolvidos, diversas pesquisas vêm sendo realizadas à procura de uma associação entre a estatura e a renda. Dentre essas pesquisas temos a de Meyer e Selmer (1999) realizada na Noruega, as de Heineck (2005; 2006) realizadas na Alemanha e a de Rashad (2008) conduzida nos Estados Unidos e todas apontando para uma relação entre a estatura, assim como de outras medidas antropométricas, com a renda.
Diversas hipóteses vêm sendo apresentadas para explicar a relação existente entre a estatura e os salários. Alguns autores argumentam que nos países em desenvolvimento um maior valor do salário está associado a uma melhor condição de saúde, assim como maior força para a realização de determinadas tarefas físicas ambas associadas à maior estatura (Steckel, 1995; Strauss &
Thomas, 1998). Nos países desenvolvidos, as pesquisas têm focalizado os fatores de tipo social como responsáveis pelas diferenças monetárias nos salários. Pérsico et al (2004), por exemplo, sugere que os meninos mais altos durante a adolescência são mais propensos a participarem de atividades sociais que contribuem positivamente na construção do capital humano futuro, atribuindo a essas experiências os maiores ganhos monetários nas idades adultas. Uma segunda hipótese, para explicar os maiores ganhos monetários dos indivíduos mais altos nas sociedades desenvolvidas, é a existência de discriminação no mercado de trabalho. Nesse ponto, Magnusson et al (2006) sugere que trabalhadores com uma maior estatura são preferidos pelos empregadores porque são considerados mais confiantes e dogmáticos em comparação com os trabalhadores com menor estatura. Autores como Harper (2000), Wada & Tekin, (2007) e Case et al (2008b) sugerem que há no mercado de trabalho uma restrição para candidato com estatura mais baixa. A dominância social também sido apontada como hipótese na explicação dos maiores salários por parte das pessoas mais altas. Klein et al (1972) e Hensley (1994) verificaram que as pessoas com maior estatura podem obter maiores salários durante a negociação das condições de sua contratação, devido a seu melhor domínio interpessoal. Contudo, a relação entre a estatura final e a condição socioeconômica não se limita apenas à renda, ela é observável também em outras dimensões da condição socioeconômica como, por exemplo, a escolaridade e a ocupação (Marmot, 1995; Silventoinen et al 1999; Pawlowski et al 2000; Silventoinen, 2000a). Isso significa que as pessoas com maior estatura desfrutam de maior escolaridade e melhor posição socioeconômica, que as pessoas com menor estatura (Cavelaars et al 2000; Silventoinen, 2000a).
Uma explicação mais simples é colocada por Case & Paxson (2008a). Segundo essas autoras, as condições socioeconômicas dos indivíduos, quando observados já nas idades adultas, são, provavelmente, o resultado das condições sociais a que estiveram sujeitos ao longo do período que compreende a gestação e adolescência (Case & Paxson, 2008a; Case, Lubotsky & Paxson, 2002; Sammalisto, 2008). Como exemplo, podemos citar a associação encontrada por
Sammalisto (2008) e Case, Lubotsky & Paxson (2002) entre a estatura e a condição socioeconômica, associação esta que, segundo suas análises, pode ser atribuída a dois fatores, quais sejam:
1. Pais com uma melhor condição socioeconômica dispõem de maiores recursos para investir em seus filhos;
2. O nível de escolaridade dos pais, assim como sua condição socioeconômica, contribui para determinar as condições de saúde e socioeconômica futuras dos filhos.
Silventoinen, (2003) afirma que a posição social da família, mensurada através de indicadores como a escolaridade do pai e da mãe, está associada significativamente com a estatura das crianças, ou seja, pais com melhor posição social tendem a ter filhos com maior estatura. Tais resultados têm sido observados tanto em estudos conduzidos nos países em desenvolvimento (Singh e Harrison, 1997; Bégin et al, 1999 Cameron e Williams, 2009) quanto nos países desenvolvidos (Cernerud,1995; Murasko, 2009). No mesmo sentido Case & Paxson (2008a; 2008b), a partir de uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos e no Reino Unido, apontam que pessoas com uma maior estatura atingem um nível de renda mais elevado devido à maior habilidade cognitiva que possuem. Ainda segundo as autoras, os indivíduos com uma maior estatura durante a adolescência, também apresentavam essa característica física durante a infância, refletindo-se em um melhor desempenho nos testes de habilidade cognitiva durante as idades que antecedem o ingresso à escola. Isso por si já pode exercer um efeito seletivo na formação do capital humano. Em outro trabalho Case & Paxson (2008b) sugerem que a maior habilidade cognitiva durante as idades adultas se reflete em uma melhor saúde mental, permitindo aos indivíduos com maior estatura realizarem suas atividades diárias com um melhor desempenho.
Após revisão bibliográfica, concluímos este capítulo destacando a importância das condições de vida durante a infância e adolescência. Essas condições podem ser aproximadas pelas condições de nutrição (principalmente à disponibilidade de alimentos ricos em proteínas e calorias) e as condições de saúde (principalmente, à prevalência de doenças transmissíveis). Contudo, a quantidade (e qualidade) dos alimentos consumidos por um indivíduo, assim como seu acesso a serviços com a saúde, depende da disponibilidade de recursos econômicos existentes, assim como dos investimentos públicos em água encanada e saneamento básico. O conjunto desses fatores contribui na determinação da estatura final do indivíduo e está relacionada com diferentes eventos demográficos, em especial com as condições de saúde e a produtividade de indivíduos adultos. Por tanto, essas condições contribuem na determinação do nível socioeconômico dos indivíduos que afetará as condições de vida das futuras gerações de uma população.