Ao falarmos de conexões, devemos ter em atenção os tópicos a desenvolver e também a inter-relação entre eles, para que sejam significativos para a criança. Segundo Moreira e Oliveira (2003),
“O modo como o educador pode explorar a matemática das crianças quer fazendo conexões entre temas matemáticos, quer fazendo ligações entre estes e outros domínios, constitui um dos aspetos a considerar quando se fala em experiências matemáticas integradoras.” (Moreira & Oliveira, 2003:181)
Considerando o facto de a Literatura Infantil e a Matemática desempenharem um papel muito importante na vida das crianças, porque não estabelecer conexões entre estes dois domínios e planificar tarefas integradoras e interessantes que permitam desenvolver saberes de uma forma diferente?
Segundo o NCTM (2007), a utilização de histórias para o desenvolvimento de conceitos matemáticos tem merecido alguma atenção, nos últimos anos, por parte de diversos autores, pois “a utilização de livros de histórias constitui um óptimo veículo para comunicar ideias matemáticas.” (p. 5). É uma ferramenta muito útil para trabalhar com as crianças, dado que, através das histórias, elas são capazes de construir diferentes tipos de
conhecimento matemático. Esses conhecimentos podem ser formais ou informais, dependendo das vivências e do grau de desenvolvimento cognitivo de cada criança.
Segundo Menezes et al. (2009), “a ideia de associar a Matemática à Literatura, não sendo nova, é contudo pouco discutida e, menos ainda, concretizada em Portugal.” (p. 2). O mesmo autor aponta o importante valor educativo que as histórias infantis têm e que decorre do facto de a Literatura Infantil permitir que, a partir dela, as crianças “tenham atividade matemática relevante, na base também de uma diversificação dos contextos de aprendizagem” (p. 7).
Segundo Boavida et al. (2008), as conexões matemáticas visam, do ponto de vista da Didática da Matemática, duas vertentes: a criação e exploração de situações em que as crianças trabalham a Matemática aliada a problemas da vida real e a outras áreas ou domínios (Literatura Infantil, Expressão Musical, entre outros) e, por outro lado, a relação entre tópicos matemáticos diferentes, ou seja, conexões dentro da própria Matemática.
Segundo Smole et al. (1995), o recurso à Literatura Infantil na exploração de conceitos matemáticos implica:
“a) relacionar as ideias matemáticas com a realidade; b) relacionar as ideias matemáticas com outras disciplinas; c) relacionar tópicos, representações e conceitos matemáticos;
d) explorar problemas e descrever resultados, relacionando diversos modelos matemáticos ou não.” (p. 2-3)
Desta forma, podemos afirmar que, através das histórias, relacionamos ideias matemáticas com a realidade ou com outras áreas e/ou domínios. A relação entre tópicos, representações e conceitos matemáticos auxilia na exploração de problemas e na descrição de resultados, relacionando diversos modelos matemáticos.
A Matemática é ainda reconhecida como decisiva para a estruturação do pensamento humano e para a plena integração na vida social e, como tal, tem um papel muito importante na formação das crianças. A sua conexão com a Literatura Infantil promoverá na criança aprendizagens significativas. (Smole et al.,1995).
Segundo Boavida et al. (2008). as conexões com outras áreas curriculares, conceitos ou procedimentos devem ser encaradas tanto do ponto de vista matemático, como também das áreas em questão, devendo existir “respeito pela especificidade de cada uma, nomeadamente a nível da linguagem, [o que] é essencial para a compreensão dos alunos” (p. 42).
As mesmas autoras explicam que através do estabelecimento de conexões se desenvolve uma compreensão mais “profunda, consolidada, diversificada, interligada, persistente e formal dos vários tópicos matemáticos” (p. 58).
Ao planificar o trabalho em Matemática, deve ter-se em conta a necessidade de inter- relacionar
“os conceitos e os processos a explorar no momento, não só com os anteriormente aprendidos, mas também com aqueles que surgirão num futuro, mais ou menos próximo. As conexões matemáticas têm, portanto, também que ser equacionadas na dimensão temporal do processo de ensino e aprendizagem.” (Boavida et al., 2008: 58)
Pace (2005) considera que a utilização da Literatura Infantil para a aprendizagem da Matemática é uma forma simples e muito acessível de proporcionar às crianças aprendizagens significativas e de por em prática um currículo integrado.
Zambo (2005) refere a importância da Literatura para a exploração de conceitos matemáticos, considerando-a como uma estratégia para ensinar Matemática. O autor considera ainda importante o prazer que pode ser proporcionado na leitura de uma história pois “as crianças adoram ouvir as histórias que os professores têm para contar” (p. 395).
Figueiredo (2007) afirma que, ao fazer conexões entre a Matemática e a Literatura Infantil, o educador propõe um modelo desafiante, lúdico e inovador, criando situações que encorajam as crianças a compreender e a familiarizarem-se com a linguagem matemática.
Para Loureiro (2006), há livros muito interessantes que podem levar as crianças a realizar atividades matemáticas. A autora realça ainda que, para o sucesso da aprendizagem, não basta um bom livro de histórias. O papel do educador é também muito importante, pois é ele o orientador do conhecimento matemático. Uma tarefa só terá sucesso na sua execução se for bem explorada e bem conduzida. Assim, cabe ao educador, no seu papel de adulto-mediador, desenvolver tarefas matemáticas, utilizando o livro infantil como instrumento.
No âmbito do projeto implementado ao longo da PIS, e tendo em conta o papel desempenhado pela Literatura Infantil, foi nossa preocupação selecionar obras de grande qualidade estético-literária que garantissem a possibilidade de exploração de conceitos geométricos, tal como procuraremos demonstrar em capítulo posterior.