No primeiro eixo (classes 1, 5 e 6), aparecem situações de oferta de álcool e outras drogas aos alunos, identificação do uso dentro das unidades escolares (pátio, banheiro, confraternizações), além dos desfechos que buscam acionar as redes da escola para o encaminhamento das situações, principalmente a rede familiar, de saúde, segurança e justiça. O álcool desponta, junto com a maconha, como uma das drogas mais presentes nas situações- problema enfrentadas na escola. Fica claro que há vários atores que podem fazer a detecção dessas situações concretas de consumo ou tráfico de substâncias, como funcionários da escola e outros alunos, por exemplo, e os educadores remetem a soluções mais coletivas para encaminhamento dos casos.
A análise dessas três classes (1, 5 e 6) mostra que a grande representação encontrada neste eixo é que o enfrentamento das situações foge do controle do educador e envolve toda a escola. Muitas situações-problema não remetem diretamente à ocorrência de violência, apesar da presença do tráfico de drogas estar identificado em muitas delas, seja por atuação de traficantes externos à escola ou pela presença de alunos que também atuam como traficantes.
No segundo eixo temático, encontramos uma relação quase direta entre as situações- problema relacionadas ao consumo de drogas com a violência ou o tráfico dessas substâncias. Neste eixo, fica claro que o educador vivencia o impacto das situações de forma mais direta e crua. As classes 02 e 04, tratam das situações problemas relacionadas ao uso de drogas que se refletem dentro da sala de aula, seja pelo aluno não ter condições de assistir aula em decorrência do uso, seja por que o uso ocorre durante a aula, ou mesmo pelas situações de conflito e agressividade dos alunos para com o educador (chegando até mesmo a agressões e ameaças).
As classes 3 e 7 abordam situações de vulnerabilidades relacionadas ao uso ou tráfico de drogas dentro da própria família ou na comunidade, riscos à vida dos alunos pelo relacionamento com traficantes ou riscos aos próprios educadores que ousam enfrentar a situação. Traduzem uma sensação de impotência e uma percepção fatalista sobre os problemas decorrentes do uso ou de associação ao tráfico de drogas, com muitas ameaças que acabam por gerar uma sensação de medo constante.
Sendo assim, a apreciação desta primeira questão ajudou a balizar e direcionar nosso recorte em busca das representações sociais, estabelecendo as unidades de significado mais relevantes para a análise.
Dessa forma, em um primeiro exercício interpretativo em busca das representações sociais dos educadores sobre as situações-problema enfrentadas, encontramos alguns temas mais frequentes associados a elas, na visão desses profissionais:
Sobre a escola
As escolas brasileiras não estão protegidas pois existe consumo de drogas lícitas e ilícitas dentro delas e inclusive dentro da sala de aula;
a escola não consegue proteger os seus alunos e se torna mais um espaço destruído pela presença da droga;
a escola sozinha não dá conta do problema e, por isso, precisa recorrer à rede externa;
a escola quase não busca soluções internas, vistas, na maioria das vezes, como ineficazes;
Sobre os educadores
Os educadores são vulneráveis, despreparados e impotentes para lidar sozinhos com as situações;
estão desprotegidos e aparecem expostos a situações de risco pela presença do tráfico e pela própria dificuldade de impor limites aos jovens;
ajudam o aluno a refletir e fazem a mediação;
precisam ter acesso a conhecimento qualificado sobre o tema;
Sobre as drogas
há uma correlação direta entre uso de drogas e situações de violência, seja pela relação entre consumo e comportamento violento, seja pela relação entre tráfico e exposição a situações de violência.
Sobre a família
Família é uma das causas do envolvimento com drogas, por ser desestruturada ou estar fragilizada;
algumas situações de risco ao adolescente são relacionadas a situações de violência, uso de drogas e tráfico dentro da própria família;
família deve ser acionada e incluída para a resolução da situação-problema.
Sobre os adolescentes
Estão desprotegidos e expostos a situações de risco e violência (grupo de pares, violência familiar, rede do tráfico de drogas), que podem levá-los à morte;
o aluno deve ser afastado da escola como solução para o problema;
o aluno deve ser incluído novamente na escola para a solução do problema; desafiam limites e ficam agressivos quando consomem drogas;
desrespeitam as regras da escola e a figura de autoridade do educador;
Sobre a rede da escola
A situação-problema sempre demanda a busca por uma parceria externa para sua resolução;
além da família, as redes de saúde ou assistência social devem ser acionadas; a rede de segurança pública é quem deve resolver o problema;
escola deve acionar o Conselho Tutelar e o Ministério Público.
Sobre a rede do tráfico
O tráfico de drogas está diretamente relacionado a diversas situações de violência; tráfico engendra violências extremas, podendo chegar ao assassinato de alunos ou educadores;
está presente nas imediações da escola, dentro da própria escola e dentro da família.
Estes diversos aspectos demonstram a complexidade produzida pela presença das drogas na escola, mobilizando toda a comunidade escolar e demandando uma intervenção de diversos pontos da rede de apoio à escola, seja ela interna ou externa.
Os educadores, por sua vez, apresentam explicitamente demandas de capacitação na área para melhor enfrentamento dos problemas, além da expectativa de poder dialogar e contar com diversos pontos da rede social de apoio, seja ela interna ou externa.