CHAPTER I – THEORETICAL BACKGROUND
3. Adventure tourism
3.7. Defining adventure tourism
Como descrito na seção anterior, a psicanálise se reporta sempre à existência de dois tipos de discursos ou falas. A fala do eu, que é a fala corriqueira, através da qual nos comunicamos conscientemente com os outros sujeitos e uma Outra fala, que às vezes irrompe, inadvertidamente, em meio à fala do eu, através de um ato falho. Esse Outro discurso, considerado normalmente como aleatório, sem importância e sobre o qual não temos nenhum controle, forma com a fala do eu duas cadeias de discurso, uma consciente, outra inconsciente, que vão caminhando, se desdobrando independentemente, e, de vez em quando, uma intervindo na outra.
Sobre o inconsciente, Lacan enfatiza sempre a sua “estrutura de linguagem”15:
“.... para além dessa fala, é toda uma estrutura de linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente.” (Lacan, 1998b:498).
Para Lacan, o inconsciente é o discurso do Outro, no sentido de que o inconsciente é constituído por palavras que surgem de um Outro lugar, desse discurso universal no qual estamos imersos, que antecede ao nosso nascimento e no qual o sujeito já nasce inscrito:
“Também o sujeito, se pode parecer servo da linguagem, o é ainda mais de um discurso em cujo movimento universal seu lugar já está inscrito em seu nascimento, nem que seja sob a forma de seu nome próprio.” (Lacan, ibid:498).
Nascidos na e pela linguagem, nos tornamos habitantes desse universo de palavras, que Lacan chama de o Outro da linguagem e que poderia ser representado como o conjunto ou a “coleção de todas as palavras e expressões de uma língua” (Fink, 1998:22), o qual nos
15 Como enfatizado por vários autores, Lacan não quis reinventar a psicanálise, mas promover um retorno a
Freud. Partindo do pressuposto que a psicanálise só é possível se o inconsciente for estruturado como uma linguagem, o ensino de Lacan é um desdobramento desse primeiro princípio (Miller, 1987:12). Essa idéia não foi enunciada explicitamente por Freud, embora estivesse presente em sua obra, principalmente na
foi conferido por séculos de tradição. Esse Outro se constitui como referência necessária tanto para o acordo quanto para o desacordo, quanto para a compreensão do que quer que seja. Por exemplo, quando duas pessoas conversam poderíamos pensar que estamos em uma situação em que dois indivíduos se comunicam. No entanto, mais além de estarem falando entre si, os dois estão falando para o grande Outro, para algo que está mais além de cada uma das individualidades presentes e que se situa como um terceiro elemento desse diálogo, tendo o que Lacan chamava de poder discricionário da palavra, ou seja, o poder de sancionar a significação daquilo que é dito ou do que alguém se propõe a dizer:
“... o Outro pode sancionar a significação do que eu estou dizendo mais além da intencionalidade que eu tenho de comunicar algo” (Peña, 2000a, Seminário 2).
Até hoje se acredita que quando alguém fala quer transmitir ao outro algum significado e que o problema todo da comunicação é encontrar as palavras adequadas para expressar esse significado. É como se existissem dois planos, o do significado e o da palavra, sendo essa última um mero instrumento para tentar expressar da maneira mais perfeita possível esse significado. A descoberta das formações inconscientes contradiz essa concepção, pois o ser humano antes de falar, é falado desde um outro lugar, diferente da consciência, desde uma outra cena, o que o leva a falar sempre mais do que aquilo que ele acredita estar falando, que é o que está na raiz dos mal-entendidos (Peña, ibid).
Essa discussão nos remete à lingüística e, nesse terreno, Lacan adota a posição de Saussure, se opondo a uma concepção da língua como uma nomenclatura, na medida em que ela adota a correspondência direta entre um nome e uma coisa, como na figura abaixo:
Ou seja: será que as palavras surgiram por meio da ação se atribuir, a cada uma das coisas previamente existentes, um certo nome, dando-lhes dessa forma um significado? Para Saussure, “não passa de acidente quando o signo lingüístico sói corresponder a um objeto definido pelos sentidos como um cavalo, o fogo, o sol...” (citado por Darmon, 1994:13). De fato, para Saussure, bem como para Lacan, o sentido seria o produto da relação entre as palavras, adequando-se mais ao esquema abaixo, do que ao anterior:
A lingüística moderna se opõe, pois, à correspondência biunívoca entre a palavra e a coisa e se sustenta, segundo Lacan a crédito de Saussure, a partir do seguinte algoritmo:
s S
que deve ser lido como significante (S) sobre significado (s), onde a barra designa o “sobre”16. O signo lingüístico, assim definido, é a combinação entre o conceito (ou significado) e sua imagem acústica (ou significante) e não deve ser entendido como uma associação entre uma coisa e um nome, pois o conceito é um pensamento, uma elaboração mental sobre uma coisa e, como tal, produto de uma correlação entre significantes.
Essa questão é bastante discutida por Lacan n´A Instância da Letra no Inconsciente (Lacan, 1998b), onde ele fornece um exemplo simples da precipitação do sentido produzida pelas correlações entre os significantes.
Na concepção usual da linguagem como nomenclatura, uma palavra, como “árvore” por exemplo, designa a coisa árvore. O signo correspondente poderia ser assim representado17:
o que aparentemente está de acordo com a concepção nominalista. Consideremos, entretanto, este outro exemplo, que torna mais claro como de fato o significante entra na composição do significado:
16 Embora Saussure tenha escrito o algoritmo na forma invertida
S s
, para Darmon não há uma “traição” a Saussure, por parte de Lacan, mas ao contrário, “indica com mais vigor aquilo que se encontra presente em sua própria obra, ou seja, a prevalência do significante sobre o significado e a importância da barra” (Darmon, 1994:12).
Vê-se na figura acima que as palavras “homens e mulheres” são subitamente remetidas a outros referentes e não às mais diretas designações dos dois gêneros da espécie humana, embora estes estejam de, certa forma, ali presentes, mesmo que subentendidos. A respeito dessa figura, diz Lacan:
“... sem estender muito o alcance do significante implicado na experiência, ou seja, apenas duplicando a espécie nominal, pela simples justaposição de dois termos cujo sentido complementar parece ter que ser consolidado por ela, produz-se a surpresa de uma inesperada precipitação do sentido, na imagem de duas portas gêmeas que simbolizam, com o reservado oferecido ao homem ocidental para satisfazer suas necessidades naturais fora de casa...” (Lacan, 1998b:503).
Portanto o signo lingüístico de Saussure-Lacan parece ser, de fato, uma estrutura do tipo: te Significan te Significan te Significan −
Ou seja: “o significante não é uma simples referência ao significado ... mas, antes de mais nada, uma diferença”, que instala uma separação de lugares, uma “estrutura posicional”, de tal forma que “o significante, por seu caráter relativo, define um lugar de cuja confrontação com outros surge o sentido...” (Cabas, 1982:81). Portanto:
“Já não se trata de um significante remetendo a um significado, e sim de um significante que remete a outro significante, onde, além disso, é preciso esclarecer que o significante não é pensável senão em relação. Nesse ponto já é forçoso introduzir a noção de cadeia significante.” (Cabas, ibid:81).
A cadeia é o encadeamento dos significantes, que tem como resultado a produção de um sentido, retroativamente. Vejamos o exemplo extraído de Cabas (ibid:83):
Ai querido assim não podemos continuar vivendo Ai querido assim não podemos continuar
Ai querido assim não podemos Ai querido assim não
Ai querido assim Ai querido Ai
É bastante claro, que a partir de um determinado momento (quarta linha) o sentido do sintagma (frase) passa a ser claramente sexual, sem que qualquer significante específico tenha sido usado. De onde surgiu esse novo sentido? Assim nos explica Cabas:
“Simplesmente das combinações do sintagma, a respeito do qual conhecemos a seguinte lei: é retroativo. Cada elemento da frase retorna sobre o anterior e limita ou circunscreve suas possibilidades de efeitos de sentido. (...) os significantes finais, ao retornar sobre os precedentes impedem toda possibilidade de equivoco (ou seja, limitam a polissemia própria do significante). Esse retorno do elemento terminal sobre os anteriores é o que Lacan vai teorizar sob a denominação de après-coup, isto é, efeito retroativo ou retrospectivo da cadeia, na produção das linhas de significação. (...) Isso nos conduz a dizer que o sentido é uma relação.” (Cabas, ibid:84).
Torna-se, assim, clara a frase de Lacan:
“... é na cadeia significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que ele é capaz nesse mesmo momento.” (Lacan, 1998b:506).
E mais:
“O que essa estrutura da cadeia significante revela é a possibilidade que eu tenho, justamente na medida em que sua língua me é comum com outros sujeitos, isto é, em que essa língua existe, de me servir dela para expressar algo completamente diferente do que ela diz.” (Lacan, ibid:508).